Uma declaração de amor ao teatro

06/01/2023

Compartilhe:

“Gabinete de curiosidades é uma declaração de amor ao teatro, às palavras. À arte enfim. É uma metáfora fascinante sobre a resistência da arte e da cultura em tempos de ignorância e barbárie”, declara Zé Adão. “Um velho ator com suas lembranças e as memórias de uma velha atriz. E vestem retalhos de personagens. E brincam com conhecidas palavras. Alimentam-se nas emoções, nos confrontos, nas tristezas, nos amores. E divertem-se um com o outro nos ecos do teatro das suas vidas”, reflete Arlete Cunha, atriz.

Gabinete de Curiosidades se passa no ano de 2040, em um velho asilo público prestes a fechar. A história se passa em um país imaginário, cheio de contradições e injustiças, na capital Corrúpnia.

No espetáculo, dois atores nonagenários que moram nesse asilo descobrem o lançamento de um edital de financiamento para a montagem de um novo espetáculo. Gabinete de Curiosidades traz eixos dramatúrgicos urgentes e emocionantes: a solidão das personagens – dura, cruel, lírica, turbulenta; dois velhos jogados e esquecidos num asilo público; as falhas e insuficientes políticas públicas relacionadas à velhice e à cultura. Nesse contexto, realidade e ficção se misturam borrando fronteiras, uma homenagem à própria história da dramaturgia ocidental.

“Para mim, homem de teatro prestes a completar 50 anos de carreira, dirigir um espetáculo que reverencia dramaturgos e atores, ter em mãos um texto debruçado sobre os sonhos e as dificuldades da profissão, os ossos do ofício, o inventário teatral que nos foi legado, e, – com tudo isso, por tudo isso -, sentir em mim, intacto, o amor pelo Teatro, foi revigorante, radiante e doloroso. A empatia com o texto foi fulminante. Revelar mais um dramaturgo gaúcho, foi a derradeira razão para aceitar essa empreitada. Gilberto Schwartsmann, amigo a quem tanto admiro, me surpreendeu mais uma vez. Encarei sua proposta dramatúrgica disposto a dar minha contribuição à beleza criativa de seu texto”, conta Luciano Alabarse, diretor.

Foto: Julio Appel

Entrevista com o diretor

O diretor, Luciano Alabarse, conta em entrevista sobre o contexto em que se passa a história do espetáculo. Ele explica que o texto de Gilberto Schwartmann, primeiro escrito para o teatro, tem dois eixos principais: “o descaso aos velhos atores, alguns inclusive abandonados e desprovidos de quaisquer recursos para cuidar de sua sobrevivência, e um recorte sobre a história dos grandes autores e textos do teatro ocidental”.

Luciano ainda contou que a história se passa num futuro não muito longíquo, 2040, em uma cidade fictícia chamada Corrúpnia, “uma citação óbvia do nosso Brasil. É uma declaração de amor ao teatro, seus autores e atores, e, nesse sentido, comovente e atual”, completa.

Sesc: Quem são os personagens de “Gabinete de Curiosidades”? 

Luciano: Dois velhos atores, ambos com mais de oitenta anos, abandonados em um asilo público, revivendo momentos de suas carreiras, sucessos e fracassos. Oneirópolos e Disoíonos, mas que se tratam como Neiró e Didi. Vivem entre tapas e beijos, disputando as glórias de um passado distante. Inventam jogos e brincadeiras para passar o tempo que não passa. O texto flagra o momento em que estão tentando inscrever um texto em um edital público, um concurso de peças teatrais. As soluções encontradas são hilárias e delirantes. No asilo, há um terceiro personagem, um “ghost” que acompanha as dificuldades da dupla octagenária, com falas ferinas, detentor de um humor ácido e crítico às políticas públicas para a Cultura.

Foto: Julio Appel

Sesc: O que o público pode esperar do espetáculo? 

Luciano: Sou um diretor de longa carreira em Porto Alegre. Vinha de uma encenação baseada no Ricardo III, do Shakespeare, muito bem recebida pelo público da cidade. Queria me envolver com um projeto ainda atento à realidade do país, mas com ternura e textura mais leve. Quando fui convidado para dirigir “Gabinete de Curiosidades” vi que poderia ser um respiro, um afago no público e em todos nós. Trabalhar com Zé Adão Barbosa e Arlete Cunha, dois dos maiores atores gaúchos, foi um item irrecusável. Somos amigos há décadas, e já trabalhamos juntos muitas vezes. O elenco se completa com Fernando Zugno, mais conhecido como gestor cultural, com o qual trabalhei por mais de uma década no “Porto Alegre em Cena”. “Gabinete de Curiosidades” é uma peça que flagra, com humanidade e humor, a vida de dois velhos atores abandonados em um asilo. Passam os dias disputando egos e conhecimentos, com momentos de pura diversão. A situação dos trabalhadores de cultura, abandonados à sua sorte em uma idade onde deveriam estar sendo reverenciados e cuidados, em um asilo público, é o contraponto realista às cenas reinventadas no palco. Um cenário grandioso, complementado com figurinos de ópera do Centro de Ópera da PUC/RS, um cenário repleto de móveis e adereços antigos, uma produção feita no capricho. Há muitos motivos para conferir “Gabinete de Curiosidades”.

Sesc: Alguma curiosidade sobre a peça? 

Luciano: O nome da peça, “Gabinete de Curiosidades”, remonta ao século XVI, quando a aristocracia, burgueses e artistas começaram a guardar e colecionar objetos em salas e depósitos. Esses gabinetes são a origem do que são hoje os nossos museus, e isso me parece que leva o cenário e toda a encenação a misturar passado e futuro, seja a nível estético ou artístico. Foi divertido garimpar os incontáveis adereços cênicos da montagem.

Foto: Julio Appel

Programa

Confira o programa online do espetáculo a seguir

Gabinete de Curiosidades

Com Arlete Cunha e Zé Adão Barbosa. Direção de Luciano Alabarse

13 a 22/1, sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 18h. 60 min. 12 anos.

R$ 12 a R$ 40. Teatro Anchieta. Ingressos à venda aqui e nas bilheterias das unidades do Sesc.

Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.