Do impedimento ao ataque!

28/06/2023

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Série de atividades promove reflexões sobre a história e a participação das mulheres no futebol. A programação aborda o tema da desigualdade de gêneros e a resistência feminina para manter o esporte vivo durante um período de proibições, inaugurado pelo Decreto-Lei 3.199, que vigorou entre os anos de 1941 e 1979 e que proibia as mulheres de praticar o esporte no Brasil.

Em ano de Mundial Feminino de Futebol, a programação do Sesc Ribeirão Preto desenvolve práticas educativas que estimulam a reflexão de meninas e mulheres acerca de seus direitos de participação, ampliando e democratizando o acesso a esses espaços.

Pesquisa, processo criativo e organização: Lucilene Timóteo e Josilene Uzan, educadoras em atividades físico-esportivas do Sesc. 

HISTÓRIA DO FUTEBOL FEMININO NO BRASIL

A história do futebol feminino no Brasil remonta às décadas de 1920 e 1930, quando se têm registros de partidas disputadas por mulheres em São Paulo e Rio de Janeiro. Enquanto o futebol masculino era praticado pelas elites, o futebol feminino sempre foi restrito às classes menos favorecidas, enfrentando estigmas sociais e marginalização geográfica e sociopolítica. A busca por protagonismo e ocupação do espaço público, tradicionalmente considerado masculino, era vista como uma ameaça à ideia de uma maternidade saudável, perpetuando estereótipos de fragilidade física e limitação das mulheres aos espaços privados.

PROIBIÇÃO E RESISTÊNCIA

O futebol feminino sempre foi um ato de resistência política e uma luta por equidade social e de gênero. Durante o Estado Novo, na década de 1940, a prática foi proibida por decreto-lei, mas as mulheres reagiram e manifestaram sua indignação. A proibição persistiu por décadas até ser revogada em 1979. Durante esse período, as mulheres continuaram a jogar futebol de forma recreativa e em espaços não esportivos, mantendo sua existência. Somente nos anos 1980, com o fim da ditadura militar, o futebol feminino começou a se integrar às demandas feministas. A regulamentação do futebol feminino no Brasil teve início com uma partida apoiada pelo movimento “Democracia Corinthiana” e culminou em sua oficialização.

REGULAMENTAÇÃO E LIBERAÇÃO

A regulamentação foi impulsionada pela UEFA, que já havia estabelecido regras para a prática feminina. Em 1983, o Conselho Nacional de Desportos (CND) autorizou a atividade no país, desde que seguidas as normas da FIFA, como a redução do tempo de jogo, tamanho do campo, bola e seu peso, além do uso de protetores de seios e chuteiras adequadas. Competições organizadas por instituições gestoras do futebol começaram a surgir no Brasil. Em 1988, a seleção brasileira participou do primeiro torneio internacional da FIFA na China, preparatório para o primeiro Mundial Feminino em 1991. Desde então, a seleção brasileira tem participado de todas as edições do Mundial, com destaque para o terceiro lugar em 1999 e o vice-campeonato em 2007. Em 2023, será realizada a nona edição do Mundial Feminino, sediada na Austrália e Nova Zelândia, com a participação de 32 seleções, o maior número da história do evento.

ULTRAPASSANDO BARREIRAS

O futebol feminino é uma forma de demonstrar a capacidade das mulheres de estarem presentes em qualquer área, e o esporte continua sendo um símbolo de resistência e superação de preconceitos. Em 2019, a Conmebol estabeleceu a exigência de que os clubes tenham uma equipe feminina disputando competições nacionais, sob a ameaça de impedir a participação das equipes masculinas nas competições sul-americanas. Isso impulsionou a CBF e as federações estaduais a investir e criar competições e equipes de base. A presença feminina em cargos de liderança é essencial para a construção de uma sociedade mais equitativa e respeitosa no esporte. Em 2020, a CBF contratou ex-jogadoras para cargos de coordenação do futebol feminino e anunciou a equiparação dos pagamentos de prêmios e diárias entre jogadores e jogadoras das seleções brasileiras principais.

REPARAÇÃO

A reparação é fundamental para a transformação e disseminação do futebol feminino. Medidas estão sendo adotadas para reparar o atraso enfrentado pelo futebol feminino devido a proibições passadas e aos preconceitos ainda presentes atualmente. No Brasil, um país apaixonado por futebol, a igualdade ainda está distante, e é necessário abrir caminhos para a visibilidade das mulheres nessa modalidade. Para desenvolver o futebol feminino no país, é preciso reconhecer as atletas que lutaram e continuam lutando por esse esporte, investir em espaços adequados para desenvolvimento e formação de jogadoras, garantir acesso às mulheres, aumentar os esforços de divulgação e valorizar financeiramente os talentos.

DADOS COMPARATIVOS

Um estudo da FIFA apresentou uma espécie de “diagnóstico do futebol feminino” em todas as confederações associadas a ela, mostrando o número de mulheres que jogam futebol em cada país, quantas categorias de seleção existem em cada um deles, quantas técnicas são licenciadas, etc. Os números do Brasil são irrisórios quando comparados aos países que dominam o cenário do futebol feminino mundial e também são baixos se comparados até mesmo às nações vizinhas, bem menos promissoras na modalidade, como a Venezuela, o Peru e a Argentina.

Analisando alguns dados principais, o Brasil tem um total de 15 mil mulheres jogando futebol de maneira organizada (disputando campeonatos amadores ou profissionais). Os Estados Unidos, tetracampeões mundiais, têm 600 vezes mais – são 9,5 milhões de mulheres jogando bola por lá. Na Argentina, são mais de 27 mil e, na Venezuela, mais de 24 mil. Quando olhamos para a formação de meninas nas categorias de base, a situação brasileira fica ainda mais sofrível. O Brasil tem apenas 475 jogadoras abaixo de 18 anos registradas nos clubes. Os EUA têm 1,5 milhão de atletas nessa idade registradas. Por lá existem 8 categorias de base na seleção, começando pela sub-14. Nos clubes, as categorias femininas iniciam aos quatro ou cinco anos de idade.

Esses números refletem o descaso com o futebol feminino por décadas. Algumas mudanças começaram a acontecer por aqui somente depois que a FIFA e a Conmebol estabeleceram as exigências a serem cumpridas pelo desenvolvimento do futebol das mulheres.

CONHEÇA OS PAÍSES-SEDE DO MUNDIAL DE FUTEBOL FEMININO 2023

DADOS GERAIS AUSTRÁLIA
Área: 7.741.200 km2.
Capital: Canberra.
População: 25.649.985 habitantes (estimativa 2020).
Nome oficial: Comunidade da Austrália.
Governo: monarquia constitucional.
Localização: Oceania.
Idioma: inglês.
Cidades principais: Sydney (cidade mais populosa), Melbourne, Brisbane, Perth, Adelaide e Canberra.
Clima: predominantemente árido tropical. Por regiões, divide-se em tropical (norte e nordeste), subtropical (sudeste) e mediterrâneo (sul).
Fauna: possui uma das maiores biodiversidades do planeta. Sua fauna é composta por mais de 1600 espécies de animais, sendo os marsupiais, como cangurus, coalas e vombates, os animais mais conhecidos e característicos do país.
Vegetação: florestas temperadas a savanas.
Relevo: composto por cadeias montanhosas extensas e não muito elevadas, planaltos baixos e desérticos.
Densidade demográfica: 3,4 habitantes/km2. Fuso horário: + 13h em relação a Brasília (capital Canberra).

Curiosidades do futebol feminino da Austrália
Campeã da Copa Feminina das Nações da Oceania, com títulos conquistados em 1995, 1998 e 2003. Participou de todas as edições do Mundial Feminino de Futebol desde 1995.

DADOS GERAIS NOVA ZELÂNDIA

Área: 270.534 km2.
Capital: Wellington.
População: 5 milhões de habitantes (estimativa 2022).
Nome Oficial: Nova Zelândia.
Governo: monarquia parlamentarista.
Localização: Oceania.
Clima: temperado.
Idiomas: inglês e maori.
Cidade principais: Auckland (cidade mais populosa), Christchurch, Wellington e Hamilton.
Fauna: composta por muitas espécies endêmicas, com destaque para aves não voadoras, como o kiwi, símbolo do país.
Vegetação: formada por bosques de árvores perenifólias (cujas folhas se mantêm durante o ano todo) e florestas.
Relevo: montanhoso em quase todo território com presença de planícies costeiras.
Densidade demográfica: 18,7 habitantes/km2 (estimativa 2022).
Fuso horário: + 15h em relação a Brasília (capital Wellington).

Curiosidades do futebol feminino da Nova Zelândia
A Nova Zelândia sediou o Campeonato da Oceania de Futebol Feminino em três ocasiões e é a
maior vencedora do mesmo, com seis títulos. É atualmente a grande potência do continente.

VÍDEO: https://www.instagram.com/reel/CunYiE8pMqo/

Confira as atividades:

TODO ATAQUE VIRA GOL!
Ao longo dos meses de julho e agosto, quem visitar a unidade do Sesc Ribeirão Preto vai se deparar com diversas curiosidades e informações relacionadas ao Mundial Feminino de Futebol, que acontece na Austrália e na Nova Zelândia. Percorrendo os espaços esportivos e de convivência, não se esqueça de contemplar as artes expostas para viajar pelo universo do futebol feminino.
De 4/7 a 31/8.
Grátis.
AL

COPA FEMININA DE FUTEBOL CALLEJERO
Torneio difunde valores como solidariedade, cooperação e respeito, priorizando o coletivo e valorizando o trabalho em equipe. No futebol de rua não se joga “contra”, se joga “entre”. Quando a bola rola, não há o juiz que apita: são as jogadoras as responsáveis pelas regras que elas próprias criaram. Terminada a partida, o placar não está definido, pois a equipe que fez mais gols não será, necessariamente, a vencedora. É no terceiro tempo que acontece a definição, quando os dois times voltam a se reunir e, por meio da reflexão e argumentação, são observados os critérios que pontuam, para além dos gols marcados.
De 25/6 a 20/8, domingos, das 14h às 17h.
Ginásio.
Grátis.
A16

FUTEBOL CALLEJERO – EDUCAÇÃO E DEMOCRACIA
Com Carolina Moraes e Vandrigo Lugarezi.
Apresentação de Lucilene Timoteo, educadora do Sesc.

Bate-papo apresenta a metodologia do Futebol Callejero e investiga suas bases: os três tempos de jogo, o equilíbrio de gênero e o papel do mediador, que substitui a arbitragem. Conteúdo também aborda as relações entre a modalidade e os valores democráticos, especialmente no contexto da história brasileira recente, em que o futebol esteve presente durante o processo de redemocratização do país na década de 1980.
Disponível em youtube.com/sescribeirao

TORNEIO DE FUTEBOL DE BOTÃO PARA MULHERES
Destacando as 32 seleções participantes do Mundial Feminino de Futebol 2023, o torneio apresenta, de forma lúdica, o campo, as peças e as técnicas básicas do futebol de botão para que as participantes criem suas táticas e participem dos jogos. Os materiais serão disponibilizados pelo Sesc e cada participante confeccionará sua própria equipe.
Destinado a meninas e mulheres a partir de 10 anos.
Dia 19/8, sábado, das 13h às 18h.
Ginásio, Quadra 1.
Grátis.
32 vagas por ordem de chegada.
Retirada de senhas 30 minutos antes e no local da atividade.
A10

VIVÊNCIA DE FUTEBOL DE BOTÃO
O futebol de botão pode ser praticado de diversas formas e em diferentes lugares: mesas retangulares, quadradas e até mesmo no chão. Quer experimentar essas ideias? Então vem curtir com a gente!
Dia 19/8, sábado, das 13h às 18h.
Ginásio, Quadra 1.
Grátis.
AL

TOQUE REFINADO
Com Cris Souza e Maurine Dorneles.
Nesse bate-papo seguido de clínica, Cris e Maurine compartilham suas experiências, abordam a participação da mulher no esporte, apresentam suas histórias no futebol feminino enquanto atletas e discutem as posições de liderança ocupadas por mulheres.
Dia 2/8, quarta, das 19h às 21h30. Ginásio.
Dia 3/8, quinta, das 19h às 21h30. Franca.
Grátis. 80 vagas.
Inscrições no local por ordem de chegada.
A13

REFERÊNCIAS

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: descontinuidades, resistências e resiliências. Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27001, jan./dez. 2021. Disponível em: https:// seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/110157. Acesso em: 14/05/2023. DOI: https://doi. org/10.22456/1982-8918.110157

NASCIMENTO, Karine. A verdadeira regra do impedimento: a história do futebol feminino cearense. Natal: Editora Primeiro Lugar, 2019.

BRUHNS, Heloisa Turini. Futebol, carnaval e capoeira: entre as gingas do corpo brasileiro. Campinas SP: Papirus, 2000, p.47 in

BRASIL. Conselho Nacional de Desportos. Decreto n. 3.199, de 14 de abril de 1941: Estabelece as bases de organização dos desportos em todo o país. Disponível em:https:// www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/ decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238- publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em: 14/05/2023.

DEFENDEM-SE AS PRATICANTES DO FOOTBALL FEMININO. Jornal dos Sports, Rio de Janeiro, 10 maio de 1940,p. 6. in GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: descontinuidades, resistências e resiliências. Movimento (Porto Alegre), v. 27, e27001, jan./dez. 2021. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/ view/110157.

Acesso em: 14/05/2023: https://doi.org/10.22456/1982-8918.110157 https://brasilescola.uol.com.br/educacao-fisica/ copa-do-mundo-feminina.htm https://dibradoras.blogosfera.uol.com. br/2019/07/16/estudo-da-fifa-mostra-descaso- de-anos-do-brasil-com-o-futebol-feminino/

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