A luta é florescer 

09/02/2026

Compartilhe:

Renato Gama transita entre palavras, sons e cenas. Musicoterapeuta, escritor, compositor, cantor, dramaturgo e produtor artísticomusical, é cofundador da Sá Menina Plataforma de Artes, um espaço de criação que entrelaça teatro, literatura, audiovisual e música. Também está à frente do Centro Cultural Viela em Dia de Lua, na Vila Nhocuné, e do Pele Preta Estúdio, que abre caminhos para novas vozes e democratiza o acesso à produção musical.

Ilustração por Nazura. Artista visual e mestra em História Social, nascida em São Paulo. Sua pesquisa e prática orbitam o “Tempo-Afrofuturista”, investigando o corpo como território de memória, ancestralidade e resistência. Atua no muralismo, ilustração, moda e estéticas digitais, explorando subjetividades por meio de retratos simbólicos, cores vibrantes e narrativas afetivas.

Em 2019, recebi o convite para lançar o meu álbum musical “Olhos Negros Vivo” em Berlim, Madri e Barcelona, algo inédito nos acontecimentos musicais da minha vida. Fiquei, em um primeiro momento, apreensivo, mas logo passou, tamanha era minha vontade em conhecer outros continentes, até mesmo, outros países.

De primeiro, fiquei querendo entender o porquê da maioria dos europeus se declarar “somos o velho continente”, o berço das ciências e, não posso negar, como estava ainda preso a uma narrativa colonizadora me vi deslumbrado nos primeiros dias. 

No decorrer da viagem, que durou 27 dias, fui enxergando outras coisas, outros detalhes, muita coisa ali não era dali, era do continente africano e do americano. 

No meu primeiro show em Berlim, toquei as canções que vinha fazendo em São Paulo, o que de cara agradou ao público presente, gerando danças diferentes e aplausos entusiasmados. Mas, algo que ficou me provocando era confirmar como a produção musical da minha terra surpreende, as festas, os batuques, as melodias, tudo… A riqueza da música brasileira é esplendorosa, nada como sair da roda para enxergá-la melhor. 

Logo na minha volta ao Brasil, recebo o convite para produzir as Pastoras do Rosário com participação de algumas cantoras e cantores, e entre tantas e tantos recebo Lia de Itamaracá. Uma explosão de cores e texturas florescem em minha mente. Só uma confluência de cultura tão potente poderia gerar algo tão plural e esplendoroso, gigante pela sua natureza. 

A tradução de nossas brasilidades se fez evidente ao conhecer Lia e ter a certeza que entender profundamente o meu quintal me faz cidadão do mundo. E também, ficar imaginando jovens que viajam para outros países sem mergulhar nas entranhas de sua terra e se esforçam para se parecer com sua nova estadia (exemplo muito evidente são os jogadores de futebol que acabam apátridas). Tudo isso me fez perceber e mergulhar mais nos movimentos artísticos culturais que me cercam. Começando pelo poder de sustentação, a saúde que uma roda de samba proporciona, das suas técnicas desenvolvidas de forma coletiva para aliviar o peso que é viver em um país tão desigual. 

Música “Recado de um povo”, feita em parceria com Tita Reis interpretada pela banda Nhocuné Soul, com participação do Quinteto em Branco e Preto.

Recado de um povo 
(Renato Gama/Tita Reis) 

Como as coisas de pele
Das forças da vida
Resistência emotiva
Caminho certeiro
Trago o canto comigo
Recado de um povo
Do negro altivo
Guerreiro primeiro
Que da terra ao batismo
Cultivou liberdade
Para a causa dos males
Elaborou correção
Sugeriu atenção
A uma simples canção
Relato descrito
Descalço no chão
Era o samba o motivo
Ajuntar intenção
Coletivizou olhares
Entendeu multidão
E que na luta diria
Não só bastaria
Uma simples saída
Para uma vida mais digna 

A roda se torna cápsula do tempo. Gerações choram com o mesmo verso cantado e propõem um espelho tão nítido que a avó celebra a ida do neto batucando e esse som reverbera para além da roda, da comida e da pele. É a forma mais evidente de construção de uma comunidade. Fazer samba está para além de uma necessidade do corpo, é um ato político. Amalgamada com os esportes de várzea, principalmente o futebol, podemos dizer que é uma revolução onde a busca para alcançar uma dignidade em viver se torna presente. 

Temos o Largo do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França, localizado na zona leste de São Paulo, como uma plataforma que mapeia nossos saberes ancestrais e que conduz nossos olhares a situações que parecem um portal, onde o tempo não pára e segue de forma a revisitar os caminhos que traçou. “O futuro é ancestral”, como bem afirmou Ailton Krenak

De lá, do largo, podemos observar As Pastoras do Rosário, grupo de mulheres na sua maioria septuagenária, que na busca por um viver mais altivo cantam suas dores e delícias gerando encruzilhadas com outras mulheres que entoam o cantar de forma única, potente e libertadora, como diz uma de suas canções “Libertador” (“…quando chuva, tratado de amor, te abraça nua, produz calor…“). E, de forma agregadora, como são os coletivos de mulheres negras, cada show é um transbordar de vida, um parto, onde o líquido amniótico se transforma em combustível para seguir em direção do celebrar das conquistas comunitárias. 

Do mesmo local, temos o Cordão Carnavalesco da Dona Micaela Vieira, grupo diverso que no seu encontro propõe homenagear uma mulher negra, parteira, que empresta o seu nome a uma praça no bairro da Penha. A agremiação traz uma grande influência musical do samba caipira e do samba de bumbo, produção está muito ligada ao interior de São Paulo, com tambores, tamborim, caixas e chocalhos. Pessoas trazem um pulsar para um mergulho na diversidade do carnaval. Com detalhes que congregam encenação teatral, poesias e fundamentos religiosos, o profano e o sagrado caminham perfumando as ruas da Penha com arruda e alfazema, o enredo proposto para o Cordão da Micaela assegura que o nascer e o viver são lutas diárias. As questões raciais que pintam as partituras do cordão são propostas de que todas as pessoas, independente da raça e credo, encabecem a luta antirracista, sabendo que a democracia racial é um mito e que transpor esse crime se dá através da educação, informação e justiça. 

É evidente que as manifestações artísticas e culturais que elevam a potência de uma comunidade têm uma ligação direta com o seu Território. Levo em consideração: Jongo dos Guianas, Viela em dia de lua, Pastoras do Rosário, Sá Menina, entre outras que aparentemente são um contraponto às diásporas causadas pela concentração de capital. E, as transformações são de mão dupla, o território que influencia a produção artística também é transformado quando o artista nele mora e atua. 

Viela em Dia de Lua é um centro cultural localizado na Vila Nhocuné – bairro que já produziu artistas como Raça Negra, Doctor Mc’s e Nhocuné Soul – em que um coletivo de moradores transformou uma vilela em um espaço para artes, estabelecendo, mesmo sendo local de passagem, um lugar de apresentações artísticas, capoeira e exposição, além do espaço de leitura. 

Com a finalidade de produzir conhecimento e debates emancipadores, o Centro Cultural Viela em Dia de Lua lança um olhar sobre a construção das periferias para além da igreja e do boteco (algo presente e crescente nessas comunidades), proporcionando uma determinada contracultura, não eliminando, mas questionando a hegemonia cultural proposta nas redes e mostrando a diversidade cultural artística em que estamos inseridos. 

A ideia de construir um centro cultural na periferia está relacionada diretamente com a minha viagem à Europa, nos caminhos traçados pelo dito “velho continente” evidenciando como a cultura brasileira é potente e diversa. Como na antropofagia elaboramos algo único, com características que fazem a gente entender e se surpreender com a produção artístico-cultural, com letras desenvolvidas numa relação direta com os aspectos da natureza e o que ela oferece, combatendo diretamente o racismo ambiental. 

Mas, não vivemos um conto de fada. As mesmas ausências do poder público nas questões de saúde, educação e cultura que inspiram jovens a produções artísticas ímpares e potentes os paralisam em uma emancipação das consciências para uma vida mais digna da comunidade. A frase A favela venceu, acredito que é mais uma artimanha do capitalismo para separar as pessoas nas suas elaborações de uma construção coletiva. 

Gerar um espaço cultural livre e autônomo é passar por diversos desafios, tendo a nossa diversidade como fator pulsante da nossa força, mas muitas vezes pode nos enfraquecer em contraponto com as propostas hegemônicas culturais. 

Propor novos olhares sobre o mesmo assunto e receber com generosidade os que desconhecemos é o nosso maior desafio. Muito do que se vê é o tal “mais do mesmo”, onde o novo se é rejeitado rapidamente, não dando tempo para um saborear com calma, dizem que são os novos tempos. Mas é urgente nos aprofundarmos na produção de quem veio antes. 

Na Vila Nhocuné, bairro onde nasci e vivo, desde muito cedo venho sendo acalantado por ritmos musicais variados. O grupo de Folia de Reis Estrela do Oriente é um deles. 

Lembro que, todo começo de ano, esperávamos sua visita nas casas para tocarem, com palhaços, viola e batuques. Tudo era um olhar interiorano que a periferia preservava e se tornava alimento para o meu inconsciente. 

Nas quermesses do meio de ano, na igreja Nossa Senhora Aparecida, todos iam ver a banda Raça Negra, que de certa forma misturava Tim Maia, Bebeto, Roberto Carlos e Zezé de Camargo e Luciano. Num caldeirão que emocionava e alegrava o público presente, o evento reunia todo o bairro que se juntava com visitantes das vilas vizinhas e se tornava a trilha sonora de uma periferia em transformação e produzia um esperançar de transformação política. 

Hoje, muita coisa se transformou, mesmo com a suposta decadência das grandes gravadoras, vemos que a música ainda faz circular dinheiro em grandes quantidades, mas nas mãos das mesmas pessoas que administravam antes. Mas, coletivos periféricos se fortaleceram e criaram seus próprios centros de produção artística com identidade e organização, acessando fomentos ligados ao poder público. Com isso, eles potencializam comunidades e novos acessos, entre eles: Sucatas Ambulantes, Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes, Samba de Roda de Recôncavo e Slam da Guilhermina, entre outros. 

Uma possível cena 

No decorrer da minha formação musical, algo que me chamou muito a atenção foi a quantidade de movimentos musicais que impulsionaram carreiras de artistas que tanto influenciaram gerações. 

Tropicália, Movimento Bossa Nova, Jaguaribe Carne, Movimento Hip Hop, Mangue Beat, Movimento Cabaçal, Lira Paulistana, Jovem Guarda, Black Rio, Clube da Esquina e outros tantos que perdemos a conta com a diversidade de características diversas e belezas. 

Como um rio caudaloso, esses movimentos seguem nos hidratando, nos ajudando a entender os caminhos que estamos trilhando, referendando o nosso fazer artístico. Com isso, venho identificando na colina da Penha de França em São Paulo, mais precisamente no Largo do Rosário, algo que me encanta, um movimento de artistas de diversas áreas que têm no território um lugar fértil para florescer. 

As ações nascem do Movimento Cultural Penha que faz do patrimônio caminho de ancestralidade, pavimentando nossa arte através das histórias do território. O alimento que junto com a saudosa Adriana (chef de cozinha que trabalhou na Comunidade do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França) e hoje com Sol, Cida, Dener e equipe, resultou em uma cozinha montada no CCP (Centro Cultural Penha), um motor para fortalecer a caminhada, com seus temperos e criações que alimentam o corpo e suavizam a alma. Agora, nas artes plásticas, música, teatro, poesia, o conjunto de pessoas produzindo é “insano”, uma gira que faz as lágrimas molharem a palma da mão gerando um estampido que dá a rítmica do nosso samba, elevando a nossa consciência a observar que é no fazer coletivo que curamos nossa individualidade. 

Acredito que com todas essas características, vivo um movimento artístico. Mesmo sem ter um nome específico ou sem que eu tenha uma visão nítida dos acontecimentos pois estou dentro da roda, mas sinto estar em uma cena. 

Florescer 

O coletivo Sá Menina traz em seus 10 anos de existência uma necessidade de produzir arte, construir uma narrativa onde todas e todos podem transformar o lugar onde vivem através das suas potencialidades. Por estar localizada em um bairro que até a década de 90 figurava entre os mais violentos de São Paulo, a Vila Nhocuné, compartilha iniciativas culturais construídas pelo coletivo que sabemos por dados seguros ser uma das maneiras mais eficazes para a diminuição da violência. Por trazer no seu DNA o teatro, a literatura e a música, a Sá Menina vêm amalgamando saberes populares produzidos pela comunidade, onde se sabe que dialogar com o campo de futebol, as igrejas e praças públicas é reconhecidamente uma forma de potencializar a produção cultural. 

Traz na sua composição pessoas de faixas etárias diversas: do grupo Pastoras do Rosário, formado por mulheres pretas septuagenárias, possuidoras de saberes populares inestimáveis, ao espetáculo O diário de André Rebouças, com um elenco recheado de jovens. 

Isso é semear arte, criar estratégia de viver com dignidade, elaborar caminhos de forma horizontal, acessar tecnologia dos afetos, produzir discos, peças e escrever livros como direito de apresentar nossa história, porque, só assim, conseguiremos florescer.  

“Olha aqui meu povo
A luta é florescer
Caminho forte, pele em brasa
Dizendo: não vamos morrer” 
(Renato Gama) 

Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.