
Artistas da cena Ballroom refletem sobre presença, performatividade e a criação de novas narrativas para o corpo na cena contemporânea
A cultura Ballroom nasceu como espaço de acolhimento, criação e resistência para pessoas negras, latinas, trans e dissidentes de gênero nos Estados Unidos. Ao longo das décadas, transformou-se em uma linguagem artística própria, com seus códigos, categorias, performances e modos de existir coletivamente. Mas, para quem observa de perto, a Ballroom também compartilha muitos territórios com o teatro.
Essa aproximação esteve no centro de Corporeidades Ballroom, curso realizado no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), no Sesc Consolação, ministrado por Eva Bessa e Puri Yaguarete. Os encontros se transformaram em um espaço de investigação sobre presença, criação cênica e novas possibilidades para o corpo em cena.
Para Eva, a relação entre Ballroom e teatro aparece já no momento da performance. “Dentro da Ballroom a gente aciona uma persona. Quando estou batalhando, preciso sustentar uma presença, uma postura, uma confiança. Tem uma teatralidade ali. São linguagens que caminham muito próximas”, afirma.

Puri, que iniciou a trajetória artística pelo teatro antes de se aproximar da Ballroom, identifica na presença um dos principais pontos de encontro entre esses dois universos.
“Uma coisa muito semelhante entre o teatro e a Ballroom é esse corpo presente. Quando eu entro no espaço, ele ganha outra dimensão. É um corpo que amplia o lugar onde está. Tanto no teatro quanto na Ballroom existe essa potência”.
Se o teatro trabalha a construção de personagens e situações cênicas, a Ballroom desenvolve um jogo constante entre improvisação, escuta e invenção. Nas balls, os participantes respondem aos estímulos do momento, constroem imagens, disputam categorias e criam cenas efêmeras diante do público.

“A Ballroom tem uma riqueza cênica muito grande. Você vai a uma ball e vê pessoas criando mundos a partir do nada. É uma cultura construída por pessoas que muitas vezes viviam na precariedade, mas que encontraram naquele espaço a possibilidade de sonhar, de ser celebradas, de existir por inteiro”, diz Puri.
Essa capacidade de imaginar outros mundos também interessa ao teatro contemporâneo. Ao trazer para a cena corpos, experiências e narrativas historicamente invisibilizadas, a Ballroom amplia o repertório de histórias possíveis.
“Pensar a Ballroom dentro do teatro também é pensar outras corporalidades, outras dematurgias. Histórias de pessoas trans, negras, indígenas. Onde estão essas histórias? Como a gente cria esses imaginários?”, questiona Puri.
Embora possuam origens e contextos distintos, teatro e Ballroom compartilham um entendimento fundamental de que o corpo não é apenas um instrumento de expressão, mas também um território de construção simbólica, de pertencimento e de transformação.
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