
Foto: Fernanda Luz
Como vocês transformaram esse absurdo burocrático e jurídico em metáfora para discutir o controle colonial sobre os corpos e a alegria na América Latina?
Nos debruçamos sobre a absurdidade com formulações cênicas capazes de revelar nossas contradições sociais. Tentamos expandir o entendimento sobre a realidade a partir de uma ficção sobre a proibição da dança no deserto. A dança em ¡CERRADO! não se restringe aos passos e às brincadeiras dos pés, mas se expande ao baile de ideias.
De que forma a apropriação de saberes ibero-americanos por países colonizadores e o isolamento histórico do Brasil de seus vizinhos atravessa a criação de vocês?
O projeto colonial foi marcado pelo afastamento cultural entre a matriz portuguesa imposta ao Brasil e a espanhola imposta ao resto do continente. Esse afastamento resulta em processos violentos que, apesar de semelhantes, promoveram diferentes formas de socialização e percepção. O “processo civilizatório” distanciou aqueles que poderiam estar rabiscando outras formulações. A nossa criação propõe empurrar essas linhas de isolamento, permitindo encontrar as frestas de aproximação.

Como o portunhol foi usado na dramaturgia?
O portunhol é um dialeto precário. É por vezes mistura e colisão entre as línguas; por vezes é a predominância de uma em detrimento da outra; por vezes é algo que nem sequer existe como fonema. É na distância entre não se entender tudo e entender alguma coisa que existe uma potência.
Caio Silviano é autor de ¡CERRADO!.
Inspirado em uma legislação chilena que proíbe a dança de rua sem licença, o espetáculo explora os mecanismos coloniais de controle sobre a festa e os corpos na América Latina. A trama acompanha a fundação da cidade fictícia de San Pablo del Desierto, onde um guia turístico faz um feitiço de prosperidade que gera de sua própria garganta um boneco tirânico, figura que assume o poder e restringe as celebrações para lucrar de forma exclusiva. Conduzida em “portunhol”, a peça usa o realismo fantástico e o teatro do absurdo para discutir o isolamento cultural do Brasil. A música ao vivo funde ritmos andinos e murgas à sonoridade brasileira, num convite a engajar o público nesse baile contra o desencanto.
O espetáculo ¡CERRADO! foi apresentado nos dias 4 e 5/09 às 20h no Mercado Municipal, em Santos.
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