Entrevista Exclusiva com Fernanda Pessoa

15/09/2026

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Por Duda Leite*

Fernanda Pessoa é uma cineasta com alma de pesquisadora, desde que se formou em cinema pela FAAP. Aliás, foi justamente na filmoteca da FAAP que Fernanda se debruçou sobre um raro arquivo de imagens das pornochanchadas dos anos 1970. O resultado deste encontro foi o filme “Histórias Que o Cinema Não Contava”, um dos destaques da Mostra Amor ao Cinema.

Leia a seguir as dez perguntas com Fernanda Pessoa.

DUDA – Qual foi a origem desse projeto? Você chegou a gravar entrevistas com atores e diretores antes de decidir montar o filme apenas com as imagens de arquivo, ou isso já estava previsto no conceito inicial do projeto?

FERNANDA PESSOA – O filme começou cinco anos antes de ficar pronto, quando eu estava no meu último ano de formação em Cinema na FAAP. Eu trabalhava na filmoteca. O meu chefe era o Máximo Barro, que foi o montador de vários desses filmes da Boca do Lixo, e um dos fundadores do curso de cinema da FAAP. Eu ficava catalogando os materiais de acervo que eles tinham de cinema brasieliro, e havia vários filmes que eu não conhecia, que eu não tinha visto nas minhas aulas de história do cinema. Fiquei curioso para saber quem eram aqueles atores. Comecei a assistir a esses filmes e fiquei muito interessada em descobrir que havia uma filmografia dos anos 1970, que era muito interessante, e sobre a qual a gente falava muito pouco. Fiquei com essa pesquisa na cabeça. Fui fazer meu mestrado na Sorbonne Nouvelle, em Paris. E lá fiz uma matéria sobre a utilização de filmes no Cinema Experimental. Comecei a ver estes filmes de arquivo, com essas imagens de filmes que já existiam, para contar alguma história e que revelavam algo sobre estes filmes, que não estava na versão original. Foi aí que eu tive a ideia. E que fazendo uma montagem cruzada das cenas desses filmes, talvez eu conseguisse descobrir algo não apenas sobre essa cinematografia, mas sobre esse período histórico, da ditadura militar nos anos 70. Então o filme nasceu como um projeto de arquivo. A ideia era que a própria Pornochanchada contasse sua história.

DUDA – Algumas das pornochanchadas tinham tiradas bem machistas e até misóginas. Como você lidou sobre isso?

FERNANDA PESSOA – A primeira coisa que a gente pensa quando pensa em Pornochanchadas é “filmes machistas”. É o grande estereótipo quando a gente pensa em pornochanchadas, e que, em geral, tem um fundo de verdade. São filmes que, em geral, as mulheres são objetificadas, e que aparecem só como um objeto do desejo. Mas, eu fiquei muito surpresa em ver alguns filmes que invertiam essa lógica. Em que a gente tinha mulheres desejantes, mulheres complexas, que tinham um arco de libertação, que queriam se divorciar. Uma personagem típica da personagem desse momento, a Era de Aquarius, é a filha da família tradicional, que sai e vai viajar, ou vai para a capital, e volta transformada. E que volta trazendo novas ideais da revolução sexual. Mas, é claro que, em geral, a gente vê uma representação feminina muito complicada. Muitas vezes era difícil de assistir. Às vezes eu assistia a 4 ou 5 pornochanchadas em um dia, quando eu tinha um tempo livre, e era muito complexo. E no início, eu achava que ia fazer um filme ainda mais crítico do que é o “Histórias”. Eu tinha uma visão muito pejorativa. E eu fui me surpreendendo. A minha pesquisa foi saber lidar com um objeto que é complexo. Ele é um objeto carregado com as questões do seu tempo. Os filmes são misóginos, homofóbicos, muitas vezes têm piadas machistas, eles têm essa carga. São filmes que são um retrato do Brasil dos anos 1970. E que ainda são do tempo atual. São filmes que revelam algo sobre a gente. Eu fui aberta a encarar estes filmes sabendo que eles são complexos. Muita gente queria que estes filmes ficassem na lata de lixo da história. Muitas pessoas perguntaram: “por que trazer de volta estes filmes?” Porque estes filmes existem e foram os filmes mais vistos deste período. Se a gente não olhar para a nossa história, eles voltam para nos assombrar. Como a gente tem visto nos últimos tempos.

DUDA – Quais filmes te surpreenderam positivamente sobre este tema?

FERNANDA PESSOA – Tem alguns: “O Palácio de Vênus”, do Ody Fraga. Onde tem uma greve das prostitutas, que é baseado numa peça grega, onde as mulheres fazem uma greve de sexo. E que era baseado nas greves do ABC. São mulheres que querem tomar os meios de produção, que no caso, são seus próprios corpos. Tem um outro filme, que eu até tenho dificuldade em dizer que ele é uma pornochanchada, mas que eu acabei trazendo. “As Aventuras Amorosas de Um Padeiro” (1975), do Waldir Onofre, que é um dos primeiros longas-metragens de ficção dirigido por um homem negro e lançado comercialemmte no Brasil. Que tem uma mulher que se casa virgem, e ela tem um amante, que é um homem negro. Ela engravida, e ela não sabe se o filho é do marido ou do amante. Ela quer fazer um aborto, e essa personagem me pareceu super interessante. E, entre os filmes que não estão no “Histórias”, a gente tem “A Mulher que inventou o amor”, do Jean Garret, com a Aldine Muller, que é uma personagem que passa por várias transformações e que tem muitas camadas. E dentro do “Histórias”, tem a personagem da Nádia Lippi, no “A Árvore dos Sexos”, do Sílvio de Abreu, que também me parece ser uma personagem super interessante. Que vem e senta na mesa, e começa a falar para todo mundo que as pessoas deviam falar de onde vem os bebês.

DUDA – Você mostra alguns filmes que traziam personagens LGBTQIA +, como “Nos Embalos de Ipanema”. Como era a representação dos personagens LGBTQIA +, nas Pornochanchadas?

FERNANDA PESSOA – No geral, a gente tem uma coisa que é comum até hoje na teledramaturgia brasileira, que é, estes personagens aparecem como o alívio cômico. Temos um personagem que é “o gay engraçado”. Ou a drag queen ou a travesti que são engraçados e marginalizados. E isso está muito presente nos filmes. Mas, aí, a gente também tem versões bem complexas, você citou o “Embalos de Ipanema”, mas tem também um do Alfredo Sternheim, que é muito interessante que é “Corpo Devasso”, que o David Cardoso produziu e estrelou. O David Cardoso faz um cara que é do interior e vem para a capital, e ele tende homens, e tem uma cena em que ele aparece abraçado de conchinha com o Arlindo Barreto, que aquele ator que fez o Bozo depois, e que era um ator que fez muitas porincihcanchadas. E o filme mostra os dois abraçados e pelados, que é uma cena que eu acho muito ousada até hoje. Então, tem alguns momentos que me surpreenderam neste sentido. Inclusive, o Alfredo Sternheim veio conversar comigo após uma exibição˜µao no CineSesc do “Histórias”, e ele veio me perguntar como eu tinha conseguido liberar esse filme. Ele me disse: “o David Cardoso não gosta dessa cena”. Ele liberou. Mas é um filme muito interessante. Então, a gente tem filmes nos quais os personagens gays são o alívio cômico, mas a gente tem casos que surpreendem a gente. A Andrea Ormond, também analisa isso. A diferença que esses filmes dão para personagens homens gays, e mulheres lésbicas. Os filmes tratavam muito as mulheres lésbicas como doentes, e os personagens gays masculinos como o alívio cômico. O que é um dado curioso para a gente pensar em representatividade LGBTQIA+.

DUDA – Você usou Gal Costa, Nat King Cole, The Supremes, Kraftwerk, Tim Maia. Como foi a escolha das trilhas?

FERNANDA PESSOA – Quando a gente começou a montar o filme, junto com o montador, que é o Luis Cruz, a gente teve que fazer essa escolha: a gente vai trazer coisas de fora, como trilhas sonoras de outros lugares, ou voz off, ou vai ser tudo de dentro dos filmes? E optamos por usar apenas trilhas que já estavam dentro dos filmes. Havia uma gama de trilhas super interessante, que eu tenho quase certeza de que não estão com os direitos liberados. Essa é uma questão, eu acho que naquela época, eu duvido muito que o Kraftwerk tenha autorizado a música para o filme. Também queríamos escolher músicas que fossem simbólicas daquele momento. Então, temos muitas músicas patrióticas, como “20 milhões em ação”, que era como as músicas eram usadas para isso. Mas a gente tem muitas músicas de cultura POP, e de muito bom gosto, surpreendentemente. Fomos escolhendo a partir dos filmes que a gente tinha selecionado. E músicas que representassem alguma coisa da cultura POP daquele momento.

DUDA – Você acredita que “toda nudez deve ser castigada”?

FERNANDA PESSOA – Com certeza, não! Aliás, eu gosto muito da forma como os corpos masculinos e femininos são representados. O João Avelar, o crítico de cinema, falava que todos os filmes do cinema brasieliro têm a herança maldita da Pornochanchada. Todos têm cenas de sexo, e que isso seria uma espécie de herança maldita. Eu penso o contrário. Se isso é uma herança da Pornochanchada, isso é uma herança boa. Esses filmes têm uma forma de lidar com o corpo que, às vezes, me parece mais saudável do que a gente tem hoje. A gente tem uma visão muito puritana, algo que não é saudável. Claro que há a questão do male gaze, ou o olhar masculino, essa é uma questão que temos que observar. Mas eu me interesso muito pela forma que cineastas mulheres filmam outras mulheres como objeto de desejo. Mas isso não aconteceu nos anos 1970. Havia pouquíssimas diretoras que dialogavam com o gênero. Teve a Rosângela Maldonado, que dirigiu A Mulher que tem a Pomba no Ar. Tem a Teresa Trautman que dirigiu Os Homens que eu Tive, mas que não é exatamente uma pornochanchada, que de alguma forma está lidando com o corpo feminino. Mas se a gente for pensar no gênero sexploitation, nos Estados Unidos, que era um gênero que tinha muitas cenas de sexo, e que influenciou as pornochanchadas. A gente tem diretoras mulheres trabalhando, a Stephanie Rothman, a Doris Wishman, que é super interessante. Entender como essas mulheres podem ser corpos que podem ser o objeto do desejo, e ao mesmo tempo sujeito do desejo. Eu mesma, no meu terceiro filme, chamado Vai e Vem, que eu co-dirige com a Zita Barbosa, uma troca de videocartas. E eu me coloco em cena, e aparece bastante nua. Meu corpo está para jogo. Muitas cineastas femininas fazem isso de mostrar seu próprio corpo na frente da câmera. Então, tem aí uma nudez que é muito interessante e muito desejada.

DUDA – Você acha que o cinema contemporâneo deu uma encaretada?

FERNANDA PESSOA – Eu sinto isso. Eu acredito que até as cineastas mulheres, e até o campo da esquerda, tem esse puritanismo. Como se as mulheres não pudessem mais mostrar o corpo, e de alguma forma retratar isso. Tem muitos filmes que filma o sexo de uma forma muito careta. Tem algumas exceções. Eu diria que os cineastas que mais me interessarm nessa seara do sexo são os cineastas LGBTQIA+. Tem cineastas que são mais ousados, como o Gustavo Vinagre. Tem uma representação do sexo de uma forma mais livre. Principalmente o cinema feito para streaming, tem muitas regras que estão aí podando a imaginação. E que quando a gente olha para estes filmes dos anos 1970, olha o ângulo onde a câmera está, mostrando essa pessoa.

DUDA – Um dos personagens diz em uma cena: “Sexo é uma coisa sagrada”. Como você acha que a religiosidade permeou ou guiou a forma como o sexo era mostrado nas Pornochanchadas?

FERNANDA PESSOA – Quem diz isso é justamente uma personagem do filme “A Árvore dos Sexos”. A Nádia Lippi está dizendo que “as mulheres deveriam mostrar seu instrumento de trabalho”. “Foi com isso que eu criei meu filho”. A gente tem um padre que fala isso: “Filha, sexo é uma coisa sagrada”. Com certeza, a religiosidade está sempre presente. Sempre tem a beata, a virgem, a gente tem essas personagens que são permeadas pela religiosidade. E a relação com o sexo está mediada por isso. Tem uma personagem em “O Palácio de Vênus”, feita pela Helena Ramos, que é uma religiosa e é uma prostituta. E na hora que ela vai fazer o trabalho dela, ela tem um santo, que ela vira para ele não olhar. E isso representa bem a relação entre o sexo e a religião. Está presente nas relações, mas tudo bem se a gen te fechar o olho um pouquinho para poder ter essa brincadeira.

DUDA – Se você tivesse que escolher um filme para representar seu amor pelo cinema, qual seria?

FERNANDA PESSOA – Nossa! Se eu for pensar no contexto dos filmes dos anos 1970, um dos filmes que mais me interessa, é “Aventuras Amorosas de um Padeiro”, do Waldir Onofre. É quase uma lição de como fazer uma comédia popular, de uma forma inteligente, lidando com questões de representatividade da mulher, é uma mulher que não quer casara, e quer fazer um aborto, tem uma relação com um homem negro, então, tem a questão do racismo muito posta. É um filme super engraçado, já fizemos várias sessões. É um filme que bate muito bem com o público até hoje. Produzido pelo Nelson Pereira dos Santos. É um filme super complexo, com o Pereio. É um filme que eu botaria no meu TOP 10 de filmes brasileiros. E é um filme muito divertido.

DUDA – Quem são os herdeiros da Pornochanchada?

FERNANDA PESSOA – Acho que depende um pouco do que a gente acha que é a herança da Pornochanchada, se a gente acha que é uma inventividade, essa liberdade de fazer essas coisas. Ou se é essa vontade de fazer uma comédia popular, explorando estereótipos. Por um lado, a gente vai ter as Globochanchadas, ou Neo-chanchadas, ou ainda o que a Andrea Ormond vai chamar de Money Chanchada. Nas Chanchadas da Globo o sexo foi substituido pelo dinheiro. As personagens estão sempre querendo ficar ricas. Alguém que ganha na loteria, alguém que se casa para ficar rico. Mas esse me parece o lado menos interessante da pornochanchada. E, por outro, temos esses cineastas que estão olhando essas pornochanchadas por um outro ângulo, que gostam do lado inventivo. Que estão interessados pelo cinema da Boca do L:ixo, por esse cinema mais maldito. Tem o Gustavo Vinagre e outros cineastas que estão indo para o Festival de Tiradentes. Estas são as duas vertentes.

Duda Leite é Jornalista, Curador e Cineasta.

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