
Foto: Vanessa Rodrigues
O que é uma “farândula”?
É uma farsa, um estilo de atuação e encenação em que o nível de jogo é muito alto, a gestualidade física e a simbologia são acentuadas, provocando certo caos que pode quebrar uma racionalidade muito rígida. No Equador, tem relação com os sainetes e com formas autóctones da festa popular, em que formas cênicas também fogem do realista e brincam, quebrando o cotidiano. Existem também a comédia e a tragicomédia, que, em países como Equador e vizinhos, incorporam esse matiz mais farsesco, na minha visão.
Como o clássico de Beckett inspirou a obra e como foi o processo criativo do grupo para chegar à montagem?
Em Beckett, há uma espera por um algo/alguém salvador que não se sabe quem é. Por outro lado, em vários períodos no Equador, a migração tem sido vista como uma salvação, mas não é fácil devido às restrições desiguais entre o Norte e o Sul. Então, surge a figura do Coyote, um personagem misterioso que se torna necessário para quem quer migrar – daí a referência.

Como você amalgama os temas da travessia ilícita com a arte popular?
Os artistas populares são marginais até mesmo dentro do já marginal setor artístico. Sempre tive fascínio por eles. Essa arte popular é celebrada na obra. Existe uma lógica no fato de esse setor tão vulnerável ser protagonista da migração ilegal; seus integrantes são os esquecidos, os que têm poucas oportunidades, a quem a migração ilegal seduz.
Juan Andrade Polo é dramaturgo e diretor de Esperando al Coyot – Tragicrónica de la Farándula Criolla.
Trancadas em um contêiner, uma recitadora de trovas, uma vendedora de ervas e milagres e uma cantora de bar no submundo marginal aguardam o coiote que prometeu levá-las ao triunfo no primeiro mundo, embora nunca tenham visto o rosto dele. Enquanto esperam, as três artistas populares narram suas origens, ensaiam seus números artísticos e evocam seus melhores e mais divertidos momentos em cena.
Seu refúgio: “retratos e espelhos, cartas mofadas e lembranças perfumadas”. Colocam-se também em cena visões midiáticas que revelam culturas à margem, diante de um dos fatos transversais de maior repercussão para a sociedade equatoriana: a migração ilegal. O título faz referência deliberada a Esperando Godot, obra-prima do teatro do absurdo do escritor irlandês Samuel Beckett. Esboça-se um paralelismo na espera por um misterioso personagem salvador e pela promessa eterna que habita um não lugar de passagem. Deus, Godot ou o coiote.
No entanto, na obra de Juan Andrade Polo, a narrativa se concretiza na realidade da travessia ilícita, associando o reconhecimento do exercício de artes populares, pouco valorizadas, como um destino transcendente. Alude-se ainda ao fato de que a narrativa das realidades na sociedade atual passa por filtros midiáticos.
O espetáculo Esperando al Coyot – Tragicrónica de la farándula criolla foi apresentado no dia 8/09 às 16h no Teatro Guarany, em Santos, e no dia 9/09 às 20h, no Teatro Serafim Gonzalez (PDA), na Praia Grande.
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