Espetáculo ME·DE·AS faz releitura da maternidade a partir do mito grego

08/09/2026

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Em apresentação no MIRADA 2026, coletivo equatoriano Mitómana discute solidão materna, ausência paterna e as dores impostas pelos papéis tradicionais de gênero

O que significa ser mãe? Essa pergunta atravessa os 70 minutos de ME·DE·AS, espetáculo do coletivo equatoriano Mitómana, que abriu a edição 2026 do MIRADA — Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, em Santos, no dia 3 de setembro. Como o título sugere, a obra parte da personagem clássica da mitologia grega para instigar o público a pensar a maternidade diante da contemporaneidade.

“Medeia é um clássico e, como todo clássico, nos permite interpretar o presente considerando o passado. Usamos um mito importante no imaginário do Ocidente para reimaginá-lo e, sobretudo, atualizá-lo no contexto contemporâneo. Tomamos a figura de Medeia para questionar os papéis da maternidade e as ideias que têm sido dominantes quando se fala desse assunto”, explica a diretora do espetáculo, Gabriela Ponce.

Nesse contexto, Medeia é reencarnada por 12 atrizes, que constroem no palco um mosaico de cenas, em um exercício em coro e narrativa fragmentada. As diferentes versões da mulher que mata os próprios filhos para se vingar da traição e do abandono do marido, Jasão, discutem a reconstrução de mulheres migrantes, morte, solidão materna, ausência paterna, violência e despedidas, entre outros temas.

Dolores Ortíz, co-diretora da obra, que divide experiências próprias na dramaturgia de ME·DE·AS, assim como as atrizes, conta que investigar essas dores na construção do trabalho não foi uma experiência fácil.

“Escutar e compilar histórias tanto de mães quanto de filhas me fez compreender o peso enorme sobre as mulheres quando se diz que é natural abraçar a maternidade. Nossas experiências são muito duras”, conta Dolores. “É muito importante compartilhar com outras mulheres e homens como esses papéis pré-estabelecidos limitam nossas possibilidades como seres humanos”, completa.

O repensar das formas de maternar surpreendeu até as próprias atrizes, como Valentina De Howitt: “Eu não sou mãe, mas ME·DE·AS ampliou meu ponto de vista sobre o assunto, inclusive sobre a maternidade que eu exerço sobre minha própria mãe.”

Sem fronteiras

As duas apresentações do espetáculo, que aconteceram no teatro do Sesc Santos, emocionaram Gabriela Ponce, que se questionava se o assunto discutido e as particularidades vividas pelas mulheres equatorianas encontrariam eco no Brasil. 

“Foi muito emocionante para todas nós estar no MIRADA, que é uma referência para a América Latina e para o teatro contemporâneo. Chegar aqui foi um desafio imenso; tínhamos o temor de a obra estar demasiadamente contextualizada no Equador e na nossa realidade. Sempre nos questionamos como o público ia dialogar com nosso trabalho. Foi muito lindo e rico ver que o público trocou com a gente, isso nos fez entender que nossa leitura pode ser compartilhada com públicos diversos”, pontua a diretora.

O coletivo dirigido por Gabriela atua desde 2013 em processos que somam criação transdisciplinar, experimentação cênica e pesquisa em metodologias de criação colaborativa. O Mitómana é formado por artistas provenientes de diferentes disciplinas da arte e das humanidades.

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