
Dirigida por Esmir Filho e apresentada por Márcia Tiburi, série tenta desmistificar a filosofia e levá-la para o debate cotidiano
Pensar não precisa ser um gesto solitário nem enclausurado na academia. Pode acontecer no meio do caminho, em uma oficina, num vestiário, numa piscina, numa praia ou em qualquer espaço onde a vida esteja em movimento. É dessa aposta que nasce Filosofia Pop, série que aproxima o pensamento filosófico do cotidiano e o coloca em circulação, em diálogo direto com o público.
Idealizada a partir do encontro entre o diretor Esmir Filho e a filósofa Marcia Tiburi, a série parte de uma pergunta simples e radical: como discutir temas universais, como Deus, família, futebol, poder, amor, identidade e ética, sem recorrer ao tom professoral ou ao distanciamento acadêmico? A resposta veio na forma de conversas francas, abertas, realizadas fora do estúdio tradicional, em ambientes que dialogam simbolicamente com cada tema, nos prédios e espaços das unidades do Sesc São Paulo.
Ao longo de duas temporadas, Filosofia Pop consolidou uma proposta rara na televisão brasileira: transformar a reflexão em experiência compartilhada. Em vez de aulas, encontros e conversas despretensiosas. Em vez de respostas fechadas, perguntas que ecoam.
A série reafirma que a filosofia não é um território restrito, mas uma ferramenta para compreender o presente, com suas tensões, afetos e contradições. E que pensar pode, sim, ser pop: próximo, instigante e necessário.
O diretor Esmir Filho conversou com a equipe do SescTV no durante o lançamento da série e contou como se deu parte do processo de produção do programa.
Quando criança, Esmir criava suas próprias histórias e pedia a seu pai que as contasse para fazê-lo dormir. A paixão pela criação ou pela transformação das coisas que tinha vivido ou ouvido amadureceu e o levou a fazer cinema. Estudou, dirigiu vídeos experimentais e curtas-metragens, como o hit “Tapa na Pantera” e “Alguma Coisa Assim”, que conquistou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes, em 2006. Com seu primeiro longa, “Os Famosos e Os Duendes da Morte”, ganhou o Festival do Rio, em 2009, e conquistou diversos prêmios nacionais e internacionais. Em 2025, seu filme “Homem com H” levou mais de 600 mil espectadores ao cinema e foi considerado uma das melhores cinebiografias brasileiras, com destaque para a atuação de Jesuíta Barbosa como Ney Matogrosso. Na TV, dirigiu a série “Tudo O Que É Sólido Pode Derreter”, exibida pela TV Cultura de São Paulo, programas para o canal GNT e a série Filosofia Pop, realizada pelo SescTV.
Esmir, o que é fundamental para se fazer cinema?
O mais importante, sem dúvida, é a formação do olhar. Aproveitei muito da estrutura da faculdade e dos exercícios propostos pelos professores para poder realizar meus primeiros trabalhos, mesmo que fossem experimentais, porque para mim cinema é exercício. O meu grupo era muito interessado. Trocávamos filmes, discutíamos sobre eles, faltávamos às aulas para ir às mostras. A faculdade é um meio de exercitar, é o espaço de trabalhar em equipe, de discutir, de usar os meios de produção e usar as ideias como gatilho. Cinema, para mim, é o exercício do olhar.
A repercussão de seu vídeo “Tapa na Pantera” o ajudou a produzir seu primeiro longa-metragem, “Os Famosos e Os Duendes da Morte”?
Na verdade, o que me ajudou a fazer meu filme foram os festivais de cinema, porque eles são um ingresso: você entra, ganha e aí é chamado para mais trabalhos. Os festivais gostam de formar pessoas. Conheci a produtora Sara Silveira em festivais, através dos meus curtas, e também José Carlos Oliveira, que na época trabalhava na Warner e foi quem me bancou. Ele gostava muito do meu trabalho, sabia que eu tinha alguns projetos e queria experimentar. Apostou e me deu liberdade, eu queria fazer um filme em que acreditasse. Ele foi muito aberto. Tanto que “Os Famosos e Os Duendes Da Morte” tem um tempo próprio, uma experimentação de imagem e som. Eu me senti muito livre em fazê-lo e talvez nunca mais tenha essa oportunidade, porque era uma época em que as produtoras ainda experimentavam muito e os distribuidores não sabiam o que ia fazer sucesso. Agora eles sabem o que dá grana certa, seja em um drama ou comédia.
Do cinema para a televisão e o teatro. Como é dirigir para diferentes plataformas?
Cinema é uma expedição, é uma questão de tempo. Você vai levar uns anos da sua vida entendendo e amadurecendo seu projeto. Fazer cinema é muito íntimo, porque parte da sua própria inquietação, de um delírio seu que se torna um delírio coletivo e faz com que todo mundo entre no mesmo barco. Isso também acontece com o teatro, mas há algo nele que me incomoda, que é sua finitude. Teatro é temporário. Quem viu, viu, quem não viu não vê mais. Tem gente que gosta disso, do momento. Eu gosto de posteridade, de ver, rever. Eu gosto muito do feedback. Talvez por isso prefira o audiovisual. Mas seja qual for a plataforma, o papel do diretor é manter a harmonia do grupo.
Como foi dirigir para a televisão?
Dirigir para TV foi algo diferente para mim, pois foi a primeira vez que eu me abri para o sonho de outras pessoas. Por exemplo, eu trabalho muito com a minha irmã, Sara Oliveira. Ela já era da TV e tinha essa vontade de criar os próprios programas. Então, aproveitamos um momento em que o mercado estava aberto a novas produções e precisava de novas ideias. Na TV eu consegui canalizar, construir e desenvolver o desejo do outro. Desejo do outro, em encontro ao meu. Consegui produzir alguns projetos com a Sara para a GNT, como o Viva Voz e o Calada Noite. Depois vieram outros com outras pessoas, como o Filosofia Pop, com a Marcia Tiburi.
De onde partiu a ideia do Filosofia Pop?
Conheci a Marcia Tiburi através de um amigo, o Ismael Caneppele. Conversamos bastante, sobre vários assuntos, mas principalmente sobre como poderíamos levar essas discussões contemporâneas, e ao mesmo tempo atemporais, com um viés mais filosófico para a TV. Queríamos fugir dos formatos já existentes, em geral, acadêmicos e formais, um pouco antiquados, que nos incomodavam. Nosso desejo era fazer algo mais pop, que discutisse o estar hoje no mundo, e conseguisse tomar distância para refletir. Então, começamos a desenvolver em conjunto.
Como se deu a escolha do formato do programa?
A primeira coisa que a Marcia falou era que ela queria discutir abertamente os temas com as pessoas e que os convidados estivessem próximos do público, mas em um ambiente que não fosse convencional. Então sugeri sairmos do estúdio e ela apoiou a ideia. Fomos visitar unidades do Sesc em busca de locais para gravar. Procuramos lugares que tivessem alguma relação com os temas dos episódios, para que eles fossem potencializados. Deus, por exemplo, foi gravado em escombros, durante a reforma de uma cozinha. Família foi em uma oficina de cerâmica. Gravamos o episódio Futebol em um vestiário. Enfim, acredito que o espaço diz muita coisa. Isso conduziu os bate-papos, mesmo que inconscientemente.
No ponto de vista da linguagem, como um diretor consegue traduzir o conceito de um projeto para uma determinada plataforma?
Acho que a plataforma já está prevista no desenvolvimento do projeto. Por já ter trabalhado com teatro, cinema e televisão, hoje consigo analisar em qual dos meios a ideia funcionará melhor e como tem que ser a abordagem. Por exemplo, um tema como filosofia. Eu posso fazer um documentário, que vai atingir um determinado nicho. Mas acho muito mais interessante falar sobre filosofia na TV, que pode alcançar um público maior.
Como você analisa a internet e a produção audiovisual contemporânea?
Desde que comecei a fazer cinema, as coisas mudaram muito rápido. Eu vejo a internet como agregadora. Hoje, muitas coisas são produzidas e podem ser distribuídas online também. As de boa qualidade continuam sendo proporcionalmente poucas. Só que agora a criação não fica só na mão de quem detém os meios de produção. Isso é muito bom. Ao mesmo tempo em que aparece muita coisa descartável, a gente tem a possibilidade de descobrir trabalhos maravilhosos também.
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Texto original em medium.com
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