
Por Bas’Ilele Malomalo*
Defendo, neste texto, que o conceito de herança tem suas raízes no berço civilizatório africano. Essa tese contraria a explicação eurocêntrica que o vincula apenas ao latim hereditas, associado ao direito de herdar bens. Herança, para mim, não se limita à posse material: envolve a transmissão de memórias, saberes, valores, lutas e modos de existir.
A origem africana da herança nos convida a sankofar: gingar/girar nosso corpo-mutuê-orí em direção aos conhecimentos do Vale de Hapi (Nilo). Recorro ao método Kuma de Dibombari Mbock (2025), que lê os ideogramas keméticos com apoio do copta e de línguas africanas contemporâneas. Os hieróglifos são vistos como metáforas, cujos sentidos se ampliam por meio de semelhanças homófonas entre palavras dentro das línguas africanas.
Trago dois textos keméticos (Figuras 1 e 2). A Figura 1 apresenta Heru, chamado Hórus pelos egiptólogos, transliterado Hr. O primeiro ideograma remete ao falcão, ligado à realeza e à divindade; e o segundo representa o caminho, o deslocamento, a viagem e a passagem. Pela leitura de Mbock (2025), esses signos ganham sentidos próprios no universo cultural e linguístico africano.

A linguística histórica africana relaciona Hr/Tl/Kr/Gr ao gavião e ao falcão. No copta, kor, do qual derivam o grego Hôros e o latim Horus, remete ao gavião ou falcão, associado à divindade e ao faraó do Kemet. Mbock (2025) aproxima essas formas de palavras que expressam rapidez: téré, em beni; télé, em tombo so; e ntinu, em kikongo. Nesta última língua, ntinu também se liga à figura do rei. Assim, o falcão reúne velocidade, liderança e autoridade.
Outras aproximações reforçam essa leitura: em soninké, hóoré significa “nobre”; em suaíli, huru é “livre”; e uhuru, “liberdade” e “independência”; em fang, kôré remete a libertar e salvar; em ewondo, kode também significa libertar e resgatar (Mbock, 2025). Não se trata apenas de palavras: esses sentidos evocam a defesa da vida e a emancipação.
O signo do caminho aparece em diferentes línguas: kwere, nzila; bende, nsila; fipa, inzila; embu, njira; doe, nzila; e n-mandé, kira. Essas palavras significam “caminho” (Mbock, 2025). A herança africana pode, portanto, ser compreendida também como abertura de caminhos entre gerações passadas, presentes e futuras.

Na Figura 2, Mbock (2025, p. 338) aproxima Hr/Kr de kure, kule, kula e kore, formas ligadas ao que está “longe” em línguas africanas. Em malinké, koli remete ao “pássaro místico”; em oromo, k’oree nomeia o falcão. Essas relações ajudam a entender Heru como “O Distante” e “O Altíssimo”.
Os ideogramas da Figura 2 apresentam cabeça, caminho e boca. Em lingala, munoko (“boca”) lembra a força da palavra; em yorubá, orí é “cabeça”; no pretuguês (Gonzalez, 1988), mutuê se aproxima de mutu, “cabeça”, e muntu, “pessoa humana”. Ser cabeça é vir antes, orientar, abrir passagem. Aproximo ainda Kr/Kl do kikongo kulu, ancestral venerável, e bakulu, ancestrais que habitam Orun-Mpemba. Pelo seu nguzu-axé, os ancestrais protegem a descendência e permanecem vivos na memória coletiva.
No papiro Chester Beatty I, Heru enfrenta Seth, que usurpou o trono de seu pai, Ausar/Osíris. Depois de sucessivos combates, Heru recupera o trono com o reconhecimento do Conselho dos Deuses. A narrativa afirma a vitória da justiça e da vida.
Esse mito dialoga com Mveng (1974), para quem as artes negras expressam a vitória da vida sobre a morte. Na experiência da Maafa (Ani, 1994), gingar na linha de Kalunga significa resistir à violência da branquitude e afirmar a (re)existência negra. Liberdade, emancipação e transformação tornam-se caminhos de ancestralização, vitalidade (ankh), prosperidade (udja) e saúde plena (seneb) (Malomalo, 2024).
Das Per Ankh, Casas de Vida do Kemet, às escolas de samba, associações e terreiros de candomblé no Brasil, o Rekhet, filosofia africana-kemética, ensina que o autoconhecimento e o conhecimento coletivo são práticas de liberdade e emancipação biocósmica (Malomalo, 2024). Sankofar é recuperar a herança ancestral para transformar o presente. Como mostram Munanga e Gomes (2006), a identidade negra se constrói na resistência e em projetos de mudança social.
A ancestralidade permanece como força de transformação e de cuidado coletivo. Simone Santos (2026) apresenta a giralidade como movimento do corpo negro conduzido pela ancestralidade: da avó à mãe e às novas gerações. O Falcão, Neter-Nkisi-Orixá, enfrenta o impossível e faz nascer outras possibilidades de existência. Kheper (k.p.r) é tornar-se e transformar-se. Herdar é assumir as realizações e lutas dos/as ba-Kulu, aqueles/as que vieram antes de nós, para nos tornarmos mu-Kulu: ancestral-divinizado/a e venerável pela memória da comunidade. Como ensina Nego Bispo:
“A geração avó é o começo, a geração mãe é o meio e a geração neta é o começo de novo.” (Santos, 2023, p. 102)
Referências
ANI, Marimba. Yurugu: uma crítica africano-centrada do pensamento e comportamento cultural europeu. Trenton: Africa World Press, 1994.
GONZALEZ, Lélia. A categoria político-cultural de amefricanidade. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, p. 69-82, jan./jun. 1988.
MALOMALO, Bas’Ilele. Filosofia do Ntu: direitos e deveres no despertar da consciência biocósmica. 2. ed. São Paulo: PoloAfricanidades, 2024.
MBOCK, Dibombari. Le Chist volé. t. 1. Québec: Editions Aire de Battage, 2025.
MUNANGA, Kabengele; GOMES, Nilma Lino. O negro no Brasil de hoje. São Paulo: Ação Educativa, 2006.
MVENG, Engelbert. L’art d’Afrique noire: liturgie cosmique et langage religieux. Yaoundé: Clé, 1974.
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora; PISEAGRAMA, 2023.
SANTOS, Simone Gonçalves. Giralidade: epistemologias do corpo e reinvenções curriculares em práticas de afrohouse/kuduro e afrobeats na escola pública – epistemologias afrodiaspóricas. 2026. 181 f. [Tese ou dissertação] – [Instituição], São Paulo, 2026.
Bas’Ilele Malomalo
Pós-doutor em Segurança Alimentar e Nutricional e Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), docente e líder do grupo de pesquisa “África-Brasil: Produção de Conhecimento, Sociedade civil, Desenvolvimento e Cidadania Global” (UNILAB/CNPq), do programa Latitudes Africanas/UNILAB. Pesquisador do Centro dos Estudos das Culturas e Línguas Africanas e da Diáspora Negra (CLADIN-Unesp), do Centro Internacional de Civilização Bantu (CICIBA) da Rede para o Constitucionalismo Democrático Latino-Americano/Brasil. Membro do Comitê Internacional da Cadeira da Unesco Educação Transformadora, Democracia e Cidadania Mundial, da UQO/Canadá e expert da plataforma Harmony with Nature/ONU. Fundador do Instituto da Diáspora Africana no Brasil (IDDAB) e da Per Ankh Ntu, escola filosófico-teológica que visa preservar e promover o legado científico espiritual Bena CiKam.
De 5 a 15 de novembro de 2026, o Sesc São Paulo realiza a terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras, que traz como tema a herança do povo negro. Mestras e mestres tradicionais, artistas, pesquisadoras, pensadoras e pensadores compõem a programação, que leva apresentações artísticas, conversas, oficinas e encontros a diversas unidades.
Saiba mais em sescsp.org.br/culturasnegras
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