
Das raízes da ancestralidade africana, o feminino e a espiritualidade orientam as criações da artista visual baiana
Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.
POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA
Em um momento de incertezas, a artista visual baiana Nádia Taquary teve um encontro com Ogum. O orixá mostrava a necessidade de entender o medo como uma energia que, em vez de paralisá-la, poderia ser transmutada e colocá-la em movimento. Enquanto assimilava a orientação de Ogum, começou a surgir o projeto de uma sala imersiva, espelhada e com trilhos de trem, que evocasse o “mistério do caminho”. “Ali, para onde se olhasse, não faltaria caminho, você só precisaria decidir caminhar”, conta a artista. O ambiente teria pouca luz, porque “tudo é muito velado, a gente não tem certeza, não sabe o que acontecerá”. O importante, ela explica, “é saber que o futuro está revelado no presente, como uma possibilidade de seguir em frente”.
O projeto foi compartilhado com Amanda Bonan e Marcelo Campos, do Museu de Arte do Rio (MAR), na cidade do Rio de Janeiro, que, junto ao artista e curador Ayrson Heráclito, sugeriram expandir a instalação naquela ocasião para receber, entre os trilhos, a trajetória da artista, com a prata, o bronze e o cobre, metais que também representam Ogum, orixá que tem o domínio da metalurgia, do ferro e das ferramentas. Assim, os três curadores conceberam Onà Irin: caminho de ferro, primeira exposição individual de Nádia Taquary, inaugurada em 2023, no MAR, que passou pelo Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, no ano de 2024, e que chegou ao Sesc Belenzinho, em outubro de 2025.
“Os trilhos não são cenográficos. A exposição acontece dentro da instalação, o que também é interessante porque não é usual ver uma artista mulher com uma instalação deste porte”, comenta Amanda. A expografia conduz o público por um ambiente onde as sensações de sonho e realidade se misturam, assim como estão embaralhadas as fronteiras do mundo físico e espiritual – o que ressalta a cosmopercepção iorubana, segundo a qual todos os universos estão conectados.
O diálogo entre as obras também se estabelece a partir da reverência ao feminino ancestral, recorrente nas pesquisas e nas produções de Taquary. Em Mulher Pássaro e Menina Pássaro, por exemplo, as peças destacam a importância do poder feminino como equilíbrio do mundo e apresentam as Ìyámis, mães ancestrais, associadas aos pássaros, guardiãs do poder de criação, da grande cabaça da existência. “São esculturas muito bem executadas, em que há beleza, mas aquilo atinge outros níveis de sensibilidade. As pessoas são tocadas de forma artística-espiritual”, descreve a curadora.
A série Oriki, é o que não se vê traz inspirações das máscaras Geledés (artefato cultural iorubá utilizado em rituais) e provoca o público a saudar legados. Na face espelhada de bronze de cabeças adornadas com búzios, miçangas, plumas e palhas, é possível reconhecer identidades. “Cada conta encaminha para um entendimento, uma compreensão do que a obra representa. A palha vai levar para Obaluaê, o lagdba para Omulu. Cada material é um elemento vivo desse sagrado, um signo africano. Eu não conseguiria, realmente, separar nada no meu trabalho dessa identidade, dessa presença negra”, conclui a artista.










Encanto e poder
Experiência sensorial e simbólica entrelaça arte contemporânea, ancestralidade e espiritualidade afro-brasileira em exposição no Sesc Belenzinho

Em cartaz no Sesc Belenzinho, a exposição Onà Irin: caminho de ferro, de Nádia Taquary, homenageia mulheres negras que trilharam caminhos de liberdade e resistência. Na trajetória da artista baiana, que parte de investigações sobre a joalheria afro-brasileira e a arte tradicional africana, objetos que emanam beleza transcendem o caráter de adorno para afirmar identidades. É o caso da videoinstalação Abre caminhos, que traz uma grande penca de balangandãs, item utilizado como pecúlio (poupança), não à toa, no próprio corpo das “escravizadas de ganho” durante a luta, para a compra de suas alforrias.
A curadoria de Amanda Bonan, Ayrson Heráclito e Marcelo Campos apresenta 22 obras de diferentes momentos da carreira da artista, entre esculturas, objetos-esculturas, instalações e uma videoinstalação, além de uma paisagem sonora com a voz da cantora Virgínia Rodrigues, criada pelo músico e pesquisador Tiganá Santana.
Para Juliana Braga, gerente na Gerência de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo, a exposição é um espaço de encontro com a “poética onírica” de Nádia Taquary. “A singularidade da prática dessa artista ressalta a função social que o Sesc São Paulo busca ter em seu cotidiano. Partindo da tradição da escultura, ela nos ensina, coletivamente, a força e o poder de mulheres negras, em um caminho de emancipação e resistência.”
Entre trilhos infinitos que encaminham as energias de Exu Olónan (o dono dos caminhos) e de Ogum (o senhor dos caminhos), a potência feminina ancestral se apresenta com altivez e encantamento, como na série de esculturas Yabás, que representa mulheres conectadas com o sagrado, como Iemanjá e Iansã. “Elas estão de olhos fechados porque o centro é para dentro. É preciso muita concentração para saber quem você é e não se perder, não se paralisar diante do medo e continuar seguindo naqueles caminhos de ferro, quando muitos acessos e reconhecimentos são negados”, explica Nádia Taquary.
SESC BELENZINHO
Onà Irin: caminho de ferro
Até 22/2. Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos e feriados, das 10h às 18h. Grátis. Saiba mais em sescsp.org.br/belenzinho
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