
Luiz Carlos Sá, o Sá da dupla Sá & Guarabyra, lembra o contexto exato em que foi realizado o show apresentado no Sesc Consolação em 1º de setembro de 1979 — e agora lançado como álbum dentro do projeto Relicário, do Selo Sesc. “Em 1977 a gente lançou o disco ‘Pirão de peixe com pimenta’, que fez um sucesso enorme com ‘Sobradinho’, ‘Espanhola’. Tocamos um monte nas rádios, fizemos muito show”, recorda.
Naquele 1979, quando subiram ao palco do Sesc, eles lançavam “Quatro”, sucessor de “Pirão de peixe com pimenta” — não à toa, 11 das 19 músicas do roteiro vêm do disco então recém-saído do forno. Ambicioso, de produção demorada, o álbum concentrava ideias diversas e apontava para além do que a dupla havia construído até ali. Muitas vezes, porém, esse olhar se dividia em direções opostas.
“Eu estava pensando muito numa continuidade do ‘Pirão de peixe com pimenta’”, diz Sá. “Cheguei com ‘Sete Marias’, por exemplo. E acho que o Guarabyra estava pensando muito em ‘Espanhola’. Eu estava talvez mais regional do que o próprio representante do regional, que era o Guarabyra. E Guarabyra estava mais urbano do que o urbano, que era eu”. O palco do Sesc registra justamente esse ponto raro de equilíbrio instável — e, por isso mesmo, fértil, alimentando a música em vez de fraturá-la.
Essa equação entre o regional e o urbano se materializava também na formação que acompanhava a dupla. Na guitarra, Beto Martins evidenciava o diálogo com o rock, enquanto Constant Papineanu ampliava o espectro sonoro com piano elétrico, órgão Hammond e clavinete. A base rítmica, sustentada por Nonato Teixeira na bateria e por Pedro Jaguaribe no baixo — que também assume a gaita em momentos pontuais — dava ao show um corpo flexível, capaz de alternar lirismo e pulsação, roça e psicodelia.
O estado de tensão criativa ajuda a entender também a relação ambígua da dupla com o rótulo de “rock rural”. Sá se refere ao incômodo de forma direta. “A mim incomodava. Eu acho que o Guarabyra era indiferente, eu não comentava isso com ele. Mas eu era muito incomodado. Porque, na realidade, não tinha tanto de rural assim, era só rótulo, sabe? Para um trabalho muito diversificado”. Com o tempo, reconhece, o termo acabou colando, independentemente da vontade dos artistas. “As pessoas sabem mais o que é o rock rural do que o total do nosso trabalho. A gente arrasta o rock rural até hoje. Acabou a dupla e o rock rural continua”.

O show se inicia com “Pássaro”, canção curta e direta, marcada pela imagem do tocador de violão que quer “virar pássaro e sumir”, num clamor por liberdade mais próximo da evasão do que do confronto. Antes de ser liberada em 1979, a música enfrentou problemas com a censura e chegou a circular com outro título — originalmente, chamava-se “Um cantador”. “Na verdade, ela não bate de frente com a ditadura. Ela insinua”, observa Sá, lembrando que esse jogo de sugestão era recorrente nas canções do período. Segundo ele, a composição já nasceu fechada, sem margem para expansões: “A gente nunca conseguiu colocar outra parte, porque ela é perfeita, redonda, do jeito que ela é”. Um comentário ouvido de Rogério Duprat — “o maestro da Tropicália” — ficou como guia: “Ele chegou pra mim e falou: ‘Você tem mais alguma coisa pra falar?’ Eu disse que não. Ele falou: ‘Então não fala’”. No Sesc Consolação, “Pássaro” estabelece desde o início o horizonte de liberdade que atravessava aquelas canções e aquele momento histórico.
A melancolia e a sensação de abandono ganham corpo em “Esses cabides vazios”, traduzidas tanto na letra quanto no arranjo. A origem da música está ligada a um personagem real: um homem considerado louco na cidade onde Guarabyra vivia, conhecido por repetir frases desconexas pelas ruas. A partir de uma dessas frases, a canção se construiu como ficção imaginada em torno de alguém que teria enlouquecido depois de um abandono. A tristeza era tão evidente que provocava reações curiosas. “Minha mãe não gostava dessa música, reclamava quando a gente a incluía no show”, lembra Sá, rindo. No palco do Sesc, a faixa reforça o clima de vazio e perda, aprofundando o lado mais introspectivo do repertório.
Em “Alucinante Alice”, o amor aparece atravessado por referências literárias e por uma atmosfera psicodélica, mas ancorado numa experiência pessoal. Embora assinada pela dupla, a faísca inicial partiu de Sá, num cruzamento entre a leitura de “Alice no País das Maravilhas” e um relacionamento que vivia naquele período. “Eu sempre achei que o Lewis Carroll tinha uma paixão secreta pela Alice”, comenta, imaginando a personagem já adulta, “em idade de casar”. Naquele momento, ele namorava uma mulher chamada Alice, e a canção acabou funcionando como projeção desse encontro entre fantasia e realidade. No show, surge como uma das faixas novas do repertório, trazendo deslumbramento amoroso e ampliando o espectro temático do roteiro.
A memória afetiva dos verões no Rio de Janeiro e das noites passadas na praia de Ipanema, no início da década de 1970, aparece condensada em “Peixe voador”. A imagem do peixe que voa funciona como metáfora para o prazer, o deslumbramento e a suspensão momentânea da realidade. “É uma noite na praia de Ipanema, quando a gente passava tocando violão”, resume Sá.
A evocação de um território concreto — e ao mesmo tempo imaginado — atravessa “Baquiá”, canção de Guarabyra inspirada numa família com quem ele conviveu de perto, ligada a uma grande extensão de terra no Pará. “Baquiá era uma terra que eles tinham”, recorda Sá, descrevendo o lugar como uma espécie de país dentro do país, preservado pelos próprios donos num momento em que a região começava a sofrer com o avanço da devastação. Para ele, a música carrega a ideia de refúgio e organização própria, quase uma Pasárgada rural, construída a partir de valores de convivência, posse coletiva e cuidado com a terra.

Exceção dentro do repertório autoral da dupla, “Falso inglês (Wonder Woman)” nasce de uma anedota criada por Fernando Brant, amigo próximo e figura central daquele círculo criativo, com a qual Sá se identificou de imediato. “Era uma coisa que eu tinha vivido”, diz, ao lembrar da experiência de ouvir e cantar músicas em inglês sem dominar o idioma, mas ainda assim ser profundamente afetado por elas. No estúdio, a gravação virou celebração coletiva, com arranjos e coros elaborados, e acabou incorporada de vez ao repertório. No palco, amplia o leque estético do show, apontando para a influência da música pop internacional.
O vínculo da dupla com o universo rural e com a memória do interior como fundamento simbólico da obra se reafirma na dobradinha “Chão de poeira / Cigarro de palha”. “Cigarro de palha” vem do período do trio Sá, Rodrix & Guarabyra e ganhou, para este show, um complemento. “Ela já existia, mas a gente precisava completar”, conta Sá, lembrando que escreveu uma parte nova para dar outra dimensão à música. Para ele, funcionava quase como um manifesto: “Era um declaratório de morte rural, na época”, diz, referindo-se ao desaparecimento progressivo de modos de vida ligados ao campo.
Mais introspectiva, “Cinamomo” está ligada a uma experiência pessoal vivida às margens do rio São Francisco. A música é de Sá, mas ganhou forma definitiva a partir de uma sugestão de Guarabyra. “Ela tinha outra levada”, lembra, até que o parceiro propôs um clima mais misterioso. A mudança de andamento transformou a canção, aproximando-a de um registro contemplativo. No show, aprofunda o lado sensorial do repertório, reforçando a busca por paisagens interiores — físicas e emocionais.
A descoberta do desejo e a experiência da primeira vez, marcadas mais pela timidez e pelo descompasso emocional do que por qualquer idealização, estão no centro de “Polaca mineira”. O ambiente do bordel, frequentado por mulheres imigrantes conhecidas genericamente — e de forma preconceituosa — como “polacas”, aparece como cenário de observação e imaginação, com atenção aos gestos e à vulnerabilidade daquele momento. A faixa reforça o interesse da dupla por personagens marginais e cenas pouco romantizadas.
Uma das canções mais conhecidas da dupla, “Espanhola” entra no roteiro carregando sua origem turbulenta. A história vem de um romance vivido por Guarabyra com uma mulher estrangeira. “Foi uma confusão”, resume Sá, lembrando que a letra surgiu de forma inesperada, numa noite fria interminável em São Paulo, quando Guarabyra acabou abrigado na casa de um amigo e compôs sem se dar conta do que estava escrevendo. “No dia seguinte ele não lembrava da letra”. Registrada antes mesmo de o autor ter plena consciência dela, a canção se tornou ponto de equilíbrio entre narrativa pessoal e comunicação direta com o público.
As lembranças de Guarabyra do Tabuleiro, região às margens do rio São Francisco onde cresceu, atravessam “Chuva no campo”. “É ele, na cidade dele”, sintetiza Sá. A chuva funciona como disparador de memória, acionando a ideia de casa, origem e deslocamento entre interior e cidade.
Questões sociais aparecem de forma mais explícita em “João sem terra”, ainda que sem abandonar o registro narrativo. A música chegou a “pisar no sapato dos censores”, mas acabou liberada. “A gente achava que não ia passar, mas passou”. Para Sá, o tema vai além do homem do campo sem lugar para plantar. “Não é só o cara sem terra, é o cara sem país”, diz, lembrando amigos e familiares forçados ao exílio durante a ditadura.
A experiência da dupla no interior da Bahia está na origem de “Xote correntino”. Chegar a Correntina exigia longas viagens de carro e travessias em estrada de areia. “Você tinha que ter um carro 4×4”, lembra Sá, descrevendo o impacto da paisagem e do rio ainda limpo. A permanência ali se estendeu por meses e influenciou decisões criativas do período, inclusive o repertório de “Quatro”.
“Sete Marias” começou a se formar num momento de instabilidade afetiva, quando Sá se envolveu com uma mulher chamada Maria Aparecida e passou a refletir sobre o destino de tantas mulheres do sertão. “Eu fiquei pensando nas Marias e na história delas”, diz, ampliando o ponto de partida íntimo para uma narrativa coletiva, próxima do cordel.

A canção mais antiga do repertório do show é “Pendurado no vapor”, vinda do período do trio Sá, Rodrix & Guarabyra. Nasceu da imaginação em torno das longas viagens de vapor pelo interior do país, especialmente pelos rios do Brasil profundo. “Eu imaginava como seria essa viagem”, conta Sá, a partir das histórias que ouvia de Guarabyra. A canção carrega esse sentido de travessia lenta e descoberta.
O noticiário do fim dos anos 1970 forneceu o gatilho para “Vem queimando a nave louca”. Uma manchete sensacionalista sobre uma nave espacial americana com problemas na reentrada na atmosfera chamou a atenção de Sá. “Eu achei aquilo genial”, diz, referindo-se ao exagero do título. A partir daí, a música mistura ficção científica, humor e comentário sobre o impacto da mídia, com levada próxima do funk e do rock.
Cantada com entusiasmo pelo público, “Sobradinho” reaparece no show como canção já consagrada, mas Sá faz questão de recolocar sua origem concreta. A música nasceu das notícias sobre a construção da barragem no rio São Francisco e do deslocamento forçado de populações inteiras. “Era o cara sendo expulso da cidade dele”, resume. No palco, reafirma o caráter narrativo e crítico que permitiu à canção atravessar o tempo como comentário permanente sobre os custos — e as promessas — do progresso.
O roteiro oficial se encerra com “Flora medicinal”, de tom satírico, motivado por debates da época sobre curas naturais e medicina alternativa. A música também enfrentou problemas com a censura e precisou ter a letra revista antes de ser liberada. A ideia surgiu da observação de pessoas que, confiando apenas em tratamentos naturais, adiavam cuidados médicos essenciais. “Eu achava aquilo meio absurdo”, diz Sá.
No bis, vem “Coração de maçã”. Canção da safra mais antiga do repertório, ela remonta ao período inicial de Sá & Guarabyra, ainda nos anos 1960, num momento de separação e posterior reencontro da dupla. Essencialmente passional, gira em torno da imagem de um coração delicado e vulnerável. “É um coração sensível”, resume Sá, associando a melodia a um universo cigano. A imagem do coração como fruto fecha o show reafirmando os ideais de terra, simplicidade, afetividade e pureza — com atenção às ameaças a esses ideais — que atravessam toda a trajetória da dupla.
Leonardo Lichote é jornalista, crítico musical e curador artístico. Paralelamente, iniciou nos últimos anos um trabalho como letrista de canção.
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