
Na infância, o lúdico estimula a criatividade e abre as portas para o aprendizado. Na fase adulta, o desafio muda: como apresentar todo um universo por trás das letras para quem já carrega décadas de vivência debaixo de sol e chuva em trabalho braçal? A resposta exige um olhar capaz de tocar nas histórias de cada indivíduo. Assim ganha vida o Meu Primeiro Clube do Livro, projeto do Sesc Bertioga, atualmente desenvolvido em parceria com unidades da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da cidade.
Para a animadora cultural da unidade, Marcela Oliveira Fonseca, a raiz da iniciativa é o resgate biográfico. “Ele nasceu de um outro projeto que se chamava Minha Primeira História, onde nós pensávamos em proporcionar um curso onde as pessoas que não eram alfabetizadas ou com pouca alfabetização pudessem escrever sua própria história”. Com o amadurecimento do projeto, houve um processo natural de compreensão textual e leitura de mundo, introduzindo os participantes no universo da literatura.
O passado dos alunos partilha semelhanças muito antes do encontro em sala de aula. Antônio Auriel Cabral, Selma Maria dos Santos e Carlos Roberto da Silva possuem a mesma idade — 55 anos — e trajetórias moldadas pela urgência do trabalho físico, que empurrou as letras para longe.
É nesta toada que o jardineiro Auriel olha para trás e vê o sertão do Ceará. Ele se criou na roça, e somente ali via o seu futuro se desenhar, a ponto de apontar como escolha própria o abandono dos estudos. “Eu que não levei a sério, achava que nunca ia sair da roça. Com 18 anos vim para cá e, quando cheguei, cadê o estudo? [Então] o que eu fiz? Fui desmatar terreno, trabalhar no pesado – trabalho até hoje – mas não me arrependo do que eu faço, eu gosto do que eu faço”, comenta.
A infância na roça também é lembrada por Selma. Ela traz à memória o sino que marcava a lida com os animais. “Aí, quando tocava lá, eu passava no rio e ia embora para a escola com chinelo no pé. Só que não dava para fazer a lição de casa. Não dava para fazer nada porque, quando eu chegava em casa, eu ia buscar a cabra, buscar água na cabeça, tomar conta dos bichos”, relembra ela, que parou os estudos aos 10 anos.
Para Carlos Roberto, a memória assume a forma de proteção à lavoura do avô. Ele cresceu em fazendas com tarefas rígidas. “O chupim é uma ave que ataca os campos na época da colheita, que eles comem o arrozal. Então a função das crianças na fazenda era espantar eles pra eles não estragar muito a plantação”, detalha.
A interrupção dos estudos por questões familiares dita o ritmo das mulheres em qualquer idade. A jovem Caroliny Rinelli Souza Santos precisou abandonar a escola na juventude devido a uma gravidez precoce. “Tô aqui por causa do meu trabalho, a oportunidade de vida é melhor aqui, eu posso dar uma qualidade de vida melhor pro meu filho”, afirma a jovem.
Identificação como cura
A mediadora Letícia Reina Gonçalves atesta o impacto da aproximação com os livros. “A literatura serve como um caminho, como um meio também para desenvolver esses leitores. O que a gente escuta de relato é que a leitura trazida promove uma maior reflexão mesmo sobre a vida. Melhora o jeito deles se comunicarem, de conversar, de pensar”, aponta.
Na roda, o livro vira um espelho. Carlos reconhece naqueles contos de pássaros a própria infância. Essa fascinação pela fauna ganha eco em Ana Rosa Santos, que dedicou seis décadas aos serviços de faxina e hoje ocupa a biblioteca com um objetivo claro. “Gosto muito de história, gosto muito de livros de pássaro. Eu adoro um livro de pavão… só que não achei ainda que eu queria ler”, confessa com humor. Sobre a possibilidade de abandonar o curso, ela é enfática: “Vai ser muito difícil eu parar. Porque não tem previsão de parar não. Se depender de mim, de jeito nenhum”.
A literatura encurta distâncias. Ao ouvir “Asa Branca”, a conexão de Caroline com a terra natal irrompe. “Recordo muito essa música que ela trouxe maravilhoso sobre o meu sertão, sobre o meu povo, sobre minhas culturas”, diz.
A sala de aula afasta a solidão da idade. Terezinha da Conceição descreve a escola como um resgate social. “Se eu não viesse estudar, eu ficaria em casa de bobeira só olhando pras paredes e aqui não. Vocês vem, estuda, tem as matérias, vocês se diverte, conversa com um, conversa com outro. É uma união, é como se fosse uma família, né?”, compara.
Teatro que ilumina
O ápice dessa jornada de reconhecimento surge quando a literatura salta do papel para o palco. Pela primeira vez na vida, muitos destes adultos ocupam a plateia para assistir ao espetáculo “A Luta”, da Cia Madeirite Rosa. A emoção é palpável, um reflexo da própria trajetória de superação, como explica Vanusa Lima Sasaki, chefe da EJA. “Os alunos, às vezes, chegam na escola e falam para a gente que as pessoas não dão oportunidades… E hoje eles são empoderados, eles falam: eu posso”.
Essa confiança inunda a rotina doméstica. O pintor Francisco Germano Pilar, que se sentia “cego para o mundo” por não dominar a leitura de letreiros de ônibus, hoje lê histórias para os netos.
Para dar conta dessa fome de leitura, a estrutura cresceu. Neste ano, o projeto passa a abranger todas as escolas da rede municipal de Bertioga com turmas de EJA e atende, de forma direta, 80 alunos da cidade.
O projeto Meu Primeiro Clube do Livro ensina que a alfabetização é apenas o começo. O verdadeiro objetivo é a posse da própria narrativa. Como bem sintetiza José Caetano da Silva, como inspirado por Ray Bradbury: “Não é uma biblioteca que a gente vai lá e busca a resposta. Eu, como aluno, sou uma biblioteca ambulante. Porque além de eu ler, eu passo pros outros”.
* Mayumi Kitamura é jornalista e técnica em Processamento de Dados, com mais de duas décadas de atuação na área de comunicação. Com passagens pela TV Cultura e TV Costa Norte, seu trabalho investiga as intersecções entre o jornalismo, as novas tecnologias e o meio ambiente. Atualmente é graduanda em Engenharia de Software, onde aprofunda seus conhecimentos em sistemas e códigos que impactam a sociedade e a comunicação contemporânea.

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