“Nós não vendemos nossa mãe”

29/10/2026

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Por Yèyé Òṣunṣade Pópóọlá* 

Tem um provérbio yorubá excelente para nos ensinar o que de fato é herança: 

“Ọmọ tí a kò kọ́ ni yóò gbé ilé tí a kọ́ tà.” 
A criança que não é ensinada acabará vendendo a casa que foi construída. 

Citado por Michael O. Afolayan em Yoruba Studies Review, esse provérbio nos pergunta: de que adianta construir a casa se não ensinamos nossos filhos a reconhecerem-na como casa?  

Há casas feitas de tijolo e casas feitas de memória. Hoje, uma casa popular de tijolos tem portas, janelas e telhados. Parecem mais caixotes de guardar gente. Já a primeira casa da minha família era de sapé, barro e pau a pique, chão batido, e tinha um banheiro no quintal. A decoração eram plantas arrumadas em cima de um paninho branco de crochê, com três ou quatro blocos servindo de apoio. Ficavam nas quinas da casa, aproveitando a parede como escora. Eram trocadas de lugar toda semana. Na cozinha tinha um forno de lenha no chão, deixado por minha bisa, e a água gelada vinha do porrão de barro que eu, a filha mais velha, tinha a obrigação de lavar e encher toda semana. 

Minha linhagem materna vem do quilombo de São Braz, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, mas intuo que acabei de descrever muitas casas ancestrais de leitores que me leem agora pelo Brasil. Fato é que aquelas construções ficaram dentro de muitas pessoas, não somente o barro das paredes e o telhado de palha, mas uma reza que ela sabe inteira, citada pela vó, ou o nome de uma folha que curou uma dor de barriga, uma cantiga que aprendeu na infância, a maneira exata de colocar café no quente-frio, o jeito certo de tomar a bênção, andar sem arrastar os chinelos e dar uma umbigada na roda de samba. 

Muito de nossa herança tem numa casa: coisas que não podem ser esquecidas e também não podem ser vendidas. Em uma visita à aldeia indígena Pataxó Hã Hã Hãe, em Paraty, ouvi do Cacique Hãgüi um ensinamento sobre a terra que nunca mais saiu de mim: 

“Aqui onde estamos é nossa terra. Aqui tem a cachoeira mais preservada da região. Recebemos todos os visitantes que quiserem se banhar, mas não toleramos que deixem lixo aqui. Alguns deles me perguntam por que não coloca uma lixeira para que os visitantes possam depositar seus lixos, e eu disse: nossa terra é nossa mãe e nós não queremos que as pessoas deixem lixo em nossa mãe. Nós não vendemos nossa terra, assim como não sujamos nem vendemos nossa mãe.”

Isso deveria ser óbvio, mas somos uma geração de pessoas predadoras, esperando que a natureza ature nossa arrogância preguiçosa, ansiando por comodidade. Não cuidar da casa que nossos ancestrais construíram, ou abandoná-la até que ninguém mais se lembre de que um dia existiu, é a forma mais rápida que encontramos de autoaniquilação. Justamente como expressão de uma epistemologia afro-indígena sobre educação, continuidade e responsabilidade geracional, eu e minha mãe escrevemos o livro Fé nas Folhas com memória, salvaguarda e manutenção dos conhecimentos de curandeiras e rezadeiras do nosso quilombo. Honrando os ensinamentos de Mãe Bia e o saudoso Caboclo do nosso povoado, Rei Júlio. 

A ideia foi simples e profunda ao mesmo tempo: educar nossos filhos com a mesma água que bebíamos tempos atrás. Nunca sairão da casa dentro de mim as palavras de mainha: 

“Filha, essa folha cura. 
Essa reza apazigua. 
Não se esqueça da voz de sua vó. 
Não se esqueça da sua terra. 
Ame e cuide da sua casa. Sua cabeça é seu guia.” 

Foi dentro de casa que aprendi: amnésia cultural mata. Como tantas pessoas negras em busca de suas origens, fui procurar do outro lado do Atlântico respostas para perguntas que também estavam dentro da minha própria casa. Foi quando minha cabeça reclamou: 

— Yèyé Osunsade, escuta primeiro os mestres e mestras populares da sua casa, escuta as rezadeiras e benzedeiras do Recôncavo Baiano, antes de tentar compreender o que está do outro lado do oceano. 

Essa é uma das armadilhas da memória colonial: nos ensinar a procurar longe aquilo que está dentro de nós. Dessa escuta veio Fé nas Folhas, um livro feito para guardar, transmitir e devolver à circulação saberes que, por muito tempo, sobreviveram apenas na memória dos antigos. A experiência se desdobrou em encontros entre rezadeiras, cursos de benzedeiras e de banho de folhas, formando centenas de pessoas nos saberes tradicionais dentro e fora do Brasil.  

Depois do livro, a memória continuou procurando outros corpos onde morar: encontros, cantigas, conversas, ensinamentos passados de mão em mão. Esse é um saber vivo que não se assenta: circula em espiral, como o desenho do casco de um caracol. Com esse livro, ajudei a garantir que o legado de minha mãe e de minha avó permanecesse de pé: uma casa que não caiu nem cairá. 

Construir bens sem construir pessoas capazes de compreender seu valor põe a própria herança em risco. Fotografar a casa não impede que ela seja vendida. Registrar não basta. É preciso ensinar alguém a habitá-la. 

Herdar é exatamente isso: aprender de cor a planta da casa. Saber onde estão suas paredes, quais delas resistiram ao tempo e quais ainda precisam ser reconstruídas. Reconhecer o que recebemos não como ruína, mas como fundamento. Para que aqueles que vierem depois de nós não encontrem apenas vestígios. Encontrem uma casa. E saibam que ela também lhes pertence. 

*Yèyé Òṣunṣade Pópóọlá, também conhecida como Sueide Kintê, é escritora, jornalista e sacerdotisa de Òṣun. Atua na produção de conteúdos que aproximam espiritualidade, ancestralidade e vida contemporânea, traduzindo saberes tradicionais em uma linguagem acessível, sensível e atual. É autora do livro Fé nas Folhas, no qual articula memória, cuidado, tradição e cotidiano por meio de uma escrita poética e informativa. 

Festival Sesc Culturas Negras 

De 5 a 15 de novembro de 2026, o Sesc São Paulo realiza a terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras, que traz como tema a herança do povo negro. Mestras e mestres tradicionais, artistas, pesquisadoras, pensadoras e pensadores compõem a programação, que leva apresentações artísticas, conversas, oficinas e encontros a diversas unidades.  

Saiba mais em sescsp.org.br/culturasnegras 

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