
Cartunista, escritor, jornalista e artista gráfico, Ziraldo marcou gerações de leitores brasileiros com senso de humor afiado e generosidade com seus pares (foto: Instituto Ziraldo)
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POR VANESSA D’AMARO
Poucas cidades brasileiras foram tão amadas por um artista quanto Caratinga, no interior de Minas Gerais. A terra natal do cartunista, jornalista e escritor Ziraldo (1932–2024) foi, ao longo de sua vida, uma fonte inesgotável de inspiração. “Caratinga foi a minha maior fantasia”, disse no documentário Ziraldo – Era uma vez um menino (2022), dirigido pela filha, a cineasta Fabrizia Pinto. Esbanjando carisma, o menino Ziraldo perambulava pelo centro durante as décadas de 1930 e 1940, fazendo amigos, inventando brincadeiras e observando o mundo com curiosidade. Amava tanto aquele lugar que guardou uma memória cartográfica. “Sou capaz de desenhar as casas da rua principal de Caratinga uma por uma, de um lado e do outro, e dizer quem morava nelas”, declarou em entrevista ao Museu da Pessoa.
O próprio nome nasceu bem-humorado, tal qual um traço de sua personalidade: Ziraldo é a junção de Zizinha, a mãe costureira, e Geraldo, o pai guarda-livros. A invenção, inclusive, dá pistas da capacidade imaginativa da família Alves Pinto. Ziraldo aprendeu a ler cedo com a mãe, que transformava o desenho das letras do alfabeto em brincadeira — método que ele próprio usaria anos mais tarde com os filhos Daniela, Fabrizia e Antonio. Começou a desenhar aos 6 anos e não demorou para se apaixonar pelos quadrinhos, sempre ansioso pelos exemplares que chegavam à banca local. Lia títulos como O Gibi, O Globo Juvenil, Mirim, Tico-Tico e O Lobinho. Na literatura infantil, acumulava exemplares de Monteiro Lobato, Viriato Correia, Ofélia e Narbal Fontes. “Os quadrinhos eram a minha janela para o mundo”, afirmou. Aos 12 anos, descobriu a caricatura e passou a brincar com o exagero dos retratos, incentivado pelo pai. Aos 16, em 1948, tinha certeza de que queria ser cartunista e trabalhar em um jornal. Mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e conseguiu estágio em publicidade.
Retornou a Caratinga em 1952 para servir ao Exército. E, na sequência, se mudou para Belo Horizonte, onde estudou Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na época, já desenhava para algumas publicações – e seu traço único capturava o olhar de futuros colegas e amigos. “Eu e Ziraldo tínhamos 9 anos de diferença. Quando era criança, eu adorava os quadrinhos da revista Sesinho”, lembra o escritor Pedro Bandeira. “Quando contei isso para o Ziraldo, ele me contou que começou desenhando para essa revista. Sou fã dele há 75 anos!”.
Em 1958, já casado com Vilma Gontijo Alves Pinto (1934–2000), partiu novamente para o Rio de Janeiro. “Meu avô deu para o meu pai um cartão postal de Copacabana nos anos 1940. E ele era tão determinado que decidiu alugar um apartamento em um dos prédios que viu nesse cartão postal”, conta Daniela Thomas, a filha mais velha, sobre a infância na praça do Lido.

Brasil nos quadrinhos
Ziraldo entrou definitivamente no mundo editorial no fim dos anos 1950. Publicou charges, tiras e cartuns no Jornal do Brasil e em O Cruzeiro Internacional. Em 1960, realizou o sonho de se tornar autor de quadrinhos com a revista Pererê. O Saci, o indígena Tininim, a onça Galileu, o jabuti Moacir, o tatu Pedro Vieira, o coelho Geraldinho e o macaco Alan — muitos deles batizados com nomes de amigos de Caratinga — formavam um universo profundamente brasileiro. Ali estava a preocupação com o meio ambiente e o folclore nacional, tratados com humor e inteligência.
Foi nesse período que recebeu a visita de Mauricio de Sousa, interessado em publicar suas próprias histórias. A generosidade de Ziraldo se tornou um impulso para o cartunista lançar futuramente a Turma da Mônica. “O Ziraldo tinha uma ousadia, uma confiança no humor brasileiro e uma visão muito autoral que encorajaram o meu pai”, conta Marina Sousa, filha de Mauricio e diretora executiva da Mauricio de Sousa Produções. A conversa foi tão boa que Ziraldo convidou Mauricio para desenhar algumas tiras do Pererê. “Houve ali admiração mútua e, principalmente, a sensação de que era possível fazer quadrinhos brasileiros com identidade, com alma”, fala Marina. Os dois permaneceram grandes amigos a vida inteira, colaborando inclusive juntos em algumas ocasiões, como foi o caso dos livros O maior anão do mundo (2011) e O reizinho e o castelo perdido (2013). “Na arte, ambos tinham traços muito próprios, mas compartilhavam uma coisa essencial: o desenho como extensão da personalidade. O humor também vinha desse lugar afetuoso, que faz rir e pensar ao mesmo tempo. Eles acreditavam que contar histórias era uma forma de formar cidadãos mais curiosos, mais criativos, mais humanos”, reflete Marina.
O golpe militar de 1964 interrompeu a experiência do Pererê. Em 1969, após o AI-5, Ziraldo se uniu a Jaguar, Tarso de Castro, Sérgio Cabral e Luiz Carlos Maciel para fundar O Pasquim. O jornal se tornou espaço de resistência e humor em meio à censura. “O Pasquim era um veículo em que as pessoas conseguiam se expressar. Então, esta foi uma época muito intensa porque vivíamos sob um medo constante”, lembra Fabrizia. Muitos dos grandes personagens de Ziraldo ficaram populares nesse período, como The Supermãe, Jeremias o Bom e Os Zeróis. “Acho que o traço do meu pai é eternamente contemporâneo. O desenho dele nunca ficou datado”, afirma Fabrizia.
Entre 1968 e 1970, o cartunista foi preso três vezes. “Eu e Daniela temos algumas lembranças dessas passagens, de ficarmos sem ele em casa, sem saber se ele ia voltar ou não”, comenta Fabrizia. “Em uma das prisões, meu pai ficou um mês numa solitária, o que para mim foi das coisas mais violentas porque ele sempre esteve rodeado de gente, nossa casa vivia sempre cheia”, recorda Daniela. “Nós fomos visitá-lo em todas as prisões. Para nós, ele sempre amenizou a situação. Dizia que ficava lá jogando cartas, que era superdivertido. Hoje, lendo os antigos diários e cartas dele, entendemos as angústias que ele sentiu”, reflete Daniela. A irmã, Fabrizia, vem reunindo esses textos em um livro que deve ser publicado pela família ainda em 2026.
Felizmente, Ziraldo retornou à casa todas as vezes – diferente do que aconteceu com Rubens Paiva, cuja família é retratada no filme Ainda estou aqui (2024), do qual Daniela foi produtora executiva. “Na última prisão, em 1970, ficamos bastante tempo sem saber onde meu pai estava. Mas o Sérgio Macaco [Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, capitão paraquedista da aeronáutica] veio nos procurar e contou que todos eles [a equipe de O Pasquim] estavam em um quartel em Marechal Hermes. Minha mãe organizou uma visita e fomos até lá”, conta Daniela. “Na noite anterior à nossa visita, as celas onde eles estavam foram invadidas por baratas e eles travaram uma batalha com elas. Sem saber, jogaram creme de barbear achando que era inseticida. Eles nos contaram tudo, rindo, brincando… Até nesse momento, eles estavam fazendo piada”, lembra.

Ziraldo, que ao longo da carreira publicou cerca de 200 títulos, dizia que a sua terra natal, Caratinga, em Minas Gerais, era a sua fonte inesgotável de inspiração. (foto: Instituto Ziraldo)
Literatura infantil
Em 1969, mesmo ano de fundação de O Pasquim, Ziraldo lançou outro trabalho emblemático: Flicts, seu primeiro livro infantil. Criado em apenas dois dias, ele conta a história de uma cor rara e triste chamada Flicts. Sem lugar neste mundo, ela acaba encontrando o seu destino na lua.
Flicts se tornou marco da literatura infantil brasileira. Em uma resenha ao jornal Correio da Manhã, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) foi só elogios à narrativa, afirmando que Ziraldo “abriu mão de suas artimanhas”, no caso os seus desenhos autorais, para revelar a festa da cor como realidade profunda. “Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo”, escreveu o poeta. “Eu acho que foi um livro revolucionário. Com uma história tão simples, ele tocou em tantos temas importantes”, comentou Fabrizia, que completou: “Ali, ele entendeu que a literatura infantil era o lugar dele.”
O livro correu o mundo e foi traduzido para diversos idiomas, vencendo o Prêmio Andersen – Il mondo dell’infanzia, na Itália. Foi tão longe que chegou até os astronautas – outra grande referência para Ziraldo. Quando Neil Armstrong (1930-2012) visitou o Rio de Janeiro, recebeu o livro, leu junto a Ziraldo e disse que a lua era, sim, Flicts, como descrito pelo escritor. Este episódio, inclusive, Daniela recorda com carinho. “Eu voltei para casa pisando em nuvens pensando que meu pai tinha me levado para conhecer um astronauta”, conta.
O Menino Maluquinho
Em 1980, criou O Menino Maluquinho, seu maior best-seller. O autor conta no documentário Ziraldo – Era uma vez um menino (2022) que partiu de uma premissa muito simples: queria mostrar que uma criança feliz se torna um adulto legal.
Cheio de episódios quase autobiográficos, O Menino Maluquinho ressoou no Brasil inteiro. Com apenas quatro meses de publicação, já havia vendido mais de 100 mil exemplares. O personagem se tornou um fenômeno editorial e cultural. E não demorou para que o menino vestido de Napoleão com uma panela na cabeça entrasse no imaginário do brasileiro: virou filme, série de TV e até desenho animado.
Como não podia deixar de ser, Caratinga também quis celebrar o personagem e, em 2003, uma estátua de 10 metros de altura, criada por João Rosendo Alvim Soares, foi instalada na praça dos Rodoviários. Foi a primeira – mas não a única – grande homenagem a Ziraldo na cidade. Ele, inclusive, se mantinha sempre informado sobre a política local e contribuía com a vida comunitária, mesmo vivendo no Rio. O coreto da cidade, por exemplo, é uma obra inesperada de Oscar Niemeyer (1907-2012), depois de um pedido do próprio Ziraldo, para a praça Cesário Alvim. “Caratinga foi o amor da vida dele. Aquela praça era o quintal da casa”, lembra Fabrizia.

Em 2025, quando Ziraldo completou o seu aniversário de 25 anos na editora Melhoramentos, convidou três amigos escritores para escreverem três títulos diferentes com ele: Ruth Rocha, Ana Maria Machado e Pedro Bandeira. “Eu escrevi o apólogo Papo de sapato. Para mim, aquela foi uma honra equivalente a um prêmio Nobel. Tenho tantos momentos memoráveis da convivência com esse gênio, que daria um livro dos grossos”, comenta Bandeira.
Desinibido e falante, ele sempre espalhou generosidade: deu conselhos aos mais jovens, ouviu suas histórias e abriu portas. “Ele era muito interessado nas pessoas. Acho que ele tinha um fascínio pelo olhar do outro”, diz Daniela.
Élcio Danilo Russo Amorim, o cartunista Edra, sabe bem disso. Morador de Caratinga, ele começou a acalentar o sonho de se tornar autor de histórias em quadrinhos nos anos 1980. Seguiu os passos do conterrâneo e acabou desenhando para o Correio Braziliense. Quando lançava Se rir eu choro (1998), foi atrás do mestre para escrever o prefácio. O pedido ocorreu quando Ziraldo organizou uma festa de aniversário para seu pai em Caratinga e um conhecido os apresentou. Ficaram de conversar depois por telefone. “Ele pediu para eu ligar para ele de madrugada, enquanto ele estava trabalhando. Nos falamos às duas horas da manhã”, conta Edra, rindo.
Edra foi responsável por criar, na década de 1990, o Salão Internacional do Humor de Caratinga com a intenção de trazer cartunistas e chargistas para o local. Mais tarde, fundou a Casa Ziraldo de Cultura, que conta com um grande acervo de Ziraldo e uma gibiteca, além de abrigar exposições, palestras e oficinas culturais. “Sempre admirei Ziraldo porque é muito difícil alguém que fica tão famoso e bem-sucedido ainda manter uma relação tão próxima do lugar de onde veio”, reflete.
De Caratinga à Via Láctea
Ao longo da carreira, Ziraldo publicou cerca de 200 títulos. “Eu não escrevo para crianças, eu escrevo para o núcleo familiar. Nunca um livro meu foi lido só pela criança; a mãe e o pai leem também”, afirmou ao Museu da Pessoa.
Aos 75 anos, ele idealizou a série Os meninos dos planetas, planejada em dez volumes, em que retornou à temática do universo. “Eu descobri que esse é um jeito de eu vencer a morte. Como eu vou fazer um por ano, eu só posso morrer daqui a 10 anos”, brincou no depoimento ao Museu da Pessoa. O primeiro volume foi O menino da lua (2007), finalista do prêmio Jabuti; o último, As cores do escuro e Os meninos de plutão (2018). “Ele sempre foi um apaixonado pelo Espaço: esse amor começou bem antes da corrida espacial, com os quadrinhos do Flash Gordon”, afirma Daniela. “Acho que o astronauta é um símbolo dessa curiosidade pelo novo que ele sempre teve”, reflete Fabrizia.
Após concluir a série, Ziraldo sofreu um AVC, o que o deixou mais recluso. Em 2024, faleceu aos 91 anos. As homenagens foram grandiosas e afetuosas em todo o Brasil. Caratinga decretou oficialmente o dia 24 de outubro, seu aniversário, como Dia do Ziraldo.
“Ele era uma pessoa excepcional: muito amoroso, muito apaixonado, muito provocador”, afirma Fabrizia. “O que eu posso dizer é que, se eu nascesse 20 vezes, escolheria ser filha do Ziraldo em todas elas”, diz, emocionada. Para Daniela, Ziraldo permanece vivo em toda a sua obra. “O momento em que a gente vive é cruel com a memória. O corpo dele parou de funcionar, mas a alma dele está em tudo o que ele fez. Ele continua sendo um livro aberto. E eu acho que o tempo do meu pai é o tempo todo.”

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