
Centros urbanos podem se tornar territórios de brincadeira, conexão com a natureza e exercício de cidadania a partir da escuta das infâncias (foto: Nilton Fukuda)
Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.
POR MARIA JÚLIA LLEDÓ
Era uma vez uma cidade onde as crianças podiam brincar livremente e sem medo. Nela, jogar bola, subir em árvore, correr, fazer estrelinha ou passar horas de olho numa fila de formigas carregando pequeninos pedaços de folhas na praça eram ações corriqueiras. Atravessar a rua não era um problema, nem andar de bicicleta na vizinhança. Deitar-se na grama, sob a copa de uma árvore, era algo comum depois do pique-pega. Esse cenário que parece ter saído das páginas de um conto de fadas, na realidade, vem minguando ano após ano no Brasil, com a verticalização das cidades, o aumento do medo da violência, a substituição de parques e praças por condomínios fechados e a valorização de áreas de lazer privadas. Sem espaços naturais, nem meios para brincadeiras, trocas e descobertas, as infâncias são mediadas por telas, entre quatro paredes. Em resposta, um movimento amparado pelo trabalho do psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, 85 anos, volta-se para a escuta e o protagonismo infantil como ferramentas de transformação do planejamento urbano.
Criado e implementado em 1991 – primeiramente, na cidade italiana de Fano, onde nasceu Tonucci – Cidade das Crianças é um projeto político que visa mudar os centros urbanos, tendo meninos e meninas como parâmetros de mudança. No documentário Cidade Sonhada, lançado em 2025, produzido pela Allma Hub, dirigido por Luiza Campos e Pedro Paulo de Andrade, o educador parte da reflexão: “como seria se o olhar infantil moldasse o futuro das nossas cidades?”. Em depoimento, recorda como a própria infância serviu de referência para o trabalho que desenvolveria quando adulto.
“Na minha infância, então há 80 anos, e na infância dos meus filhos, ou seja, há cerca de 50 anos, todas as crianças, pela tarde, depois de terem comido e terem feito a lição, saíam de casa. A rua era como o ‘terceiro tempo’, digamos, uma terceira oportunidade. Eu acredito que havia ali uma grande importância para o nosso desenvolvimento. Porque aquele era o momento em que a criança poderia viver a experiência da autonomia e da transgressão. Às vezes, escolhíamos violar as regras e pagar as consequências, mas tudo isso ajudava a construir um senso moral”, conta.
Segundo Tonucci, se uma cidade é boa para as crianças, ela é boa para todos. Para isso, é necessária a participação de meninos e meninas na prefeitura, como consultores, bem como o cumprimento dos direitos das crianças de circular com independência pelos espaços públicos, de brincar livremente e de exercer autonomia. “Dessa forma, os governos passariam a considerar a infância como o indicador de uma cidade saudável e sustentável”, explica a educadora peruana Lorena Morachimo, coordenadora da Rede Mundial de Cidades das Crianças, que esteve no Brasil em outubro do ano passado, no Sesc Piracicaba [leia mais em Lá fora e aqui dentro].
O atual modelo urbano, explica Morachimo, foi desenhado logo depois da Segunda Guerra Mundial para a reconstrução das cidades europeias, e projetado para um cidadão em particular: “homem, trabalhador e motorizado”. A educadora explica que se essa cidade moderna foi feita para esse tipo de cidadão, é porque ela atende apenas os direitos dessa categoria, atentando contra os direitos de mulheres, idosos, crianças, imigrantes e pessoas com deficiência.
“Tonucci diz que se depositamos toda a decisão política nas infâncias, podemos ter meninos e meninas como garantia de bem-estar para todos. Então, precisamos assumir as crianças como parâmetro de mudanças para a transformação que queremos. E se antes dizia-se que tínhamos que investir na infância porque ela é o futuro da humanidade, hoje sabemos que as crianças são o presente. Temos que dar uma resposta às crianças hoje”, enfatiza.

BRINCAR AO AR LIVRE
Imagine se a sua rua fosse fechada nos finais de semana para jogar bola? E se houvesse uma praça ou um parque perto da sua casa, com muitas árvores e um banco para descansar? Desejar esses lugares sintetiza uma preocupação central: a cidade está oferecendo espaços públicos para as infâncias? E de que forma? Afinal, é no desenho urbano que se prevê a experiência do “lado de fora”, ou seja, do brincar na rua, no parque ou na praça. Essas e outras atividades, no entanto, estão comprometidas pela falta de políticas públicas e de equipamentos bem cuidados e seguros. O resultado? Uma infância dentro de casa, mediada por telas.
De acordo com Isabel Barros, especialista em infâncias e natureza do Instituto Alana, as experiências do lado de fora, em contato com a natureza – “não necessariamente um lugar inacessível e longe, mas áreas próximas” – vem reduzindo cada vez mais. Barros descreve que antes havia os quintais, dentro de casa, onde as crianças tinham acesso ao ar livre e contato com outras crianças. À medida que cresciam, elas eram autorizadas a explorar o seu território: primeiro, a rua, depois, o bairro. Passavam a ir a pé para a escola, para a casa de uma avó ou faziam alguma compra para a mãe.
“Essas experiências são o que a gente chama de ‘raio de ação’, ou seja, o espaço onde a criança tem autorização para se mover com independência, sem precisar de um adulto. No entanto, esse polígono dentro de uma cidade, onde a criança tinha essa mobilidade ativa e autônoma, foi encolhendo ao longo das décadas. Hoje, uma criança de 10 ou 12 anos, nas nossas cidades, não tem autorização para andar 200 metros ao redor da casa”, ressalta. Os impactos desse quadro, segundo a especialista em infâncias e natureza, incidem diretamente sobre “a saúde física e mental, o bem-estar social e até mesmo sobre o sentimento de pertencimento e cidadania”, ressalta.

Atentas à necessidade de qualificação dos espaços públicos para as crianças exercerem o direito de brincar sem interferências, regras e limitações impostas por adultos, a gestora cultural Tatiana Weberman e a produtora audiovisual Juliana Borges criaram a Flora, uma kombi itinerante que faz parte do projeto Slow Kids, nascido em 2013 dedicado às infâncias. Em setembro de 2025, a Flora estacionou, pela primeira vez, na área externa do Museu do Ipiranga e da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, no Parque Ibirapuera. Voltada a crianças de zero a 10 anos, a Kombi carrega a proposta do brincar livre, natural e diverso, a partir de elementos como folhas, sementes, bambus, tintas naturais, instrumentos e livros.
“A gente sentia que, dentro de uma cidade como São Paulo, as crianças estavam cada vez mais distantes de experiências profundas com a natureza. E, ao mesmo tempo, a gente já vinha, há anos, observando, no Slow Kids, como o brincar ao ar livre produz transformações muito potentes no corpo e no emocional das crianças”, explica Tatiana Weberman. Como alternativa ao aparato tecnológico que acompanha as infâncias hoje, a possibilidade de brincar a céu aberto e experimentar texturas, sons, cheiros e cores de elementos da natureza cativa meninos e meninas. “O maior aprendizado é esse: as crianças passam a ler a cidade com outros olhos. Elas entendem que o território tem memória, natureza, ancestralidade, diversidade e vida. E quando uma criança percebe isso, ela começa a cuidar do espaço, do outro, do planeta e de si mesma”, observa Weberman.
PEQUENOS CIDADÃOS
Enquanto iniciativas pontuais buscam atender, paulatinamente, o maior número possível de crianças, o poder público engatinha em ações que levam em consideração as necessidades e as ideias das crianças. No Brasil, o primeiro município reconhecido como integrante da rede internacional Cidade das Crianças foi Jundiaí, em outubro de 2018. A 49 quilômetros da cidade de São Paulo, Jundiaí passou a integrar a Rede Mundial de Cidades das Crianças e, com isso, assumiu como diretrizes: a escuta das infâncias sobre suas impressões e contribuições para o planejamento urbano, com a criação do Comitê das Crianças, em 2019; e a devolução da autonomia para elas se deslocarem e ocuparem os espaços públicos.
Lá criou-se um capítulo dentro do Plano Diretor do Município, exclusivo às políticas para a criança, além de diversos programas e iniciativas como: Ruas de Brincar (fechamento, aos domingos e feriados, das 9h às 17h, de vias públicas), Áreas da Infância (espaço qualificado, público e ao ar livre, de contato com a natureza) e Parques Naturalizados. Atualmente, além de Jundiaí, fazem parte da Rede Brasileira de Cidades da Criança no estado de São Paulo: Itu, Itupeva, Jarinu, Louveira, Mococa, Mogi das Cruzes, Rio Claro e Vinhedo. Outros municípios de diferentes estados somam-se, entre alguns, Benevides (PA), Boa Vista (RR), Brasiléia (AC), Fortaleza (CE) e Pelotas (RS).

Coordenador da Rede Brasileira de Cidades das Crianças, Marcelo Peroni ressalta que a responsabilidade dessa proposta idealizada por Francesco Tonucci é de todos, portanto, intersetorial. “Do poder público e da iniciativa privada, de todos nós que construímos essa cidade de alguma maneira”, lembra. E, ao contrário do que se possa imaginar, explica Peroni, não é uma cidade cheia de parquinhos. “Mas uma cidade que permita que todo o espaço urbano possa ser ocupado por uma criança. E quando a gente pensa que todo espaço urbano pode ser ocupado por uma criança, automaticamente, ele pode ser ocupado pelas outras pessoas. Por exemplo: uma calçada pensada para ser confortável para uma mãe ou para um cuidador andar com um carrinho, também é melhor para um idoso. É essa cidade da convivência, que não separa as pessoas, pelo contrário, que as integra no dia a dia – uma Cidade das Crianças”, arremata.
Lá fora e aqui dentro
Áreas verdes, espaços de brincar naturalizados e atividades dedicadas a todas as infâncias fazem parte da estrutura e da programação permanente do Sesc São Paulo

Quando uma criança entra em uma unidade do Sesc São Paulo, seja na capital, no litoral ou no interior do estado, um portal se abre para brincadeiras e trocas que permeiam desde o espaço externo – jardim, parques e outras áreas verdes – ao interno – Espaço de Brincar, Teatro, entre outros. Dessa forma, o Sesc reafirma seu compromisso como um território que proporciona a livre circulação, o livre brincar, a autonomia e, consequentemente, novos aprendizados para todas as infâncias.
A fim de discutir a importância desses espaços e ações nas cidades, o projeto Chamem as crianças a cidade como um espaço vivo e partilhado foi realizado em outubro do ano passado, no Sesc Piracicaba. O encontro propôs uma reflexão sobre as áreas urbanas a partir da escuta das crianças e de suas necessidades. Dele participaram técnicos dos Programas Espaço de Brincar e Curumim do Sesc, além de educadores infantojuvenis das unidades para acompanhar os bate-papos com a educadora peruana Lorena Morachimo, coordenadora da Rede Mundial de Cidades das Crianças, o coordenador da Rede Brasileira de Cidades das Crianças, Marcelo Peroni, e o pensador italiano Francesco Tonucci, fundador e idealizador da Rede Mundial de Cidades das Crianças.
“O Sesc fez o exercício de ouvir as crianças para a programação. Saíram coisas maravilhosas, como o Cinema na Piscina. Esse evento foi importantíssimo para reafirmar o compromisso com uma infância mais livre, em espaços naturalizados. E naturalizar espaços significa trazer mais elementos da natureza, como um tronco de árvore, pedras, areia, água e, também, tempo”, conta Rosana Abrunhosa, que integra a Gerência de Estudos e Programas Sociais.
Além da curadoria de programações com atividades realizadas ao longo do ano, espaços permanentes nas unidades do Sesc São Paulo valorizam a conexão com a natureza e o brincar ao ar livre, caso do Jardim da Brincadeiras, nas unidades de Interlagos e de Itaquera. Esse contato direto com a natureza também está presente no Sesc Jundiaí – localizado ao lado do Jardim Botânico da cidade – e do Sesc Bertioga, que abriga uma reserva natural. “Falar em uma infância saudável é falar em uma cidade apropriada para as crianças, ou seja, para todas as pessoas. Por consequência, é pensar a questão ambiental ali, muito presente”, complementa Rosana Abrunhosa.
Confira esses e outros espaços nas unidades do Sesc São Paulo, além da programação para as infâncias nesse mês em sescsp.org.br
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