Tecnologias da Memória: cosmologias, moda e futurismo Indígena Amazônico

22/07/2026

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Meu caminho estava relacionado à transformação de feridas históricas em processos de criação, cura e reflexão.

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Por Sioduhi Waíkhʉ

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Sou Sioduhi, indígena do povo Waíkahna, da Terra Indígena Alto Rio Negro, na região do rio Uaupés, afluente do Rio Negro, em direção à Colômbia. Minha trajetória como designer, pesquisador e diretor criativo nasce da relação profunda com o território, com as memórias da infância e com os conhecimentos compartilhados entre os diferentes povos da minha região. Meu trabalho perpassa as vivências de uma criança indígena que cresceu observando os ciclos da roça, os sistemas de cultivo, a produção dos alimentos, as artesanias, os artefatos, a pesca, os deslocamentos pelos rios, observação do céu com suas constelações e as relações de reciprocidade que sustentam a vida coletiva.

Foi nesse contexto que aprendi que conhecimento não está separado da vida cotidiana. Ele se manifesta nas formas de plantar, colher, construir, narrar histórias, produzir objetos e compreender o mundo.

Apesar dessa riqueza de experiências, também fui atravessado pela violência colonizatória. Ainda criança, não compreendia totalmente o que acontecia comigo, com minha família e com outros parentes, mas percebia uma tentativa constante de nos afastar de nossas referências culturais. Ao mesmo tempo em que a sensibilidade da arte me tocava, o conservadorismo do pensamento cristão-católico também me atravessava. Enquanto respirava o breu e o tabaco do bahsesé (proteção do corpo físico-espiritual), a água benta condenava essas mesmas práticas.

Hoje compreendo que aquele processo buscava me moldar para pensar e existir a partir de referências externas, na tentativa de esvaziar minha relação com as cosmologias, espiritualidades e modos de vida dos meus ancestrais, mas sem êxito. Enquanto cantava canções católicas, minha mãe me apresentava os lugares sagrados onde aconteceram acontecimentos fundamentais para a história dos nossos povos. Ela me ensinava, sem que eu percebesse, que existiam outras formas de construir conhecimento e imaginar futuros.

Em 2018, depois de atuar durante anos na área administrativa, especialmente na saúde indígena do Alto Rio Negro, decidi partir para São Paulo em busca de um sonho que me acompanhava desde a infância: trabalhar com roupas. Ingressei no Curso Técnico em Modelagem do Vestuário da ETEC Tiquatira, onde comecei a aprofundar meus conhecimentos sobre criação, modelagem e construção de peças.

Pouco antes da pandemia, recebi a notícia da partida de meu tio, um dos anciãos do povo Waíkahna, vítima da COVID-19. Esse acontecimento ampliou minha percepção sobre a urgência de registrar, fortalecer e compartilhar conhecimentos indígenas em diferentes espaços.

Durante uma aula de História da Moda, fiz uma pergunta aparentemente simples: onde estavam os povos indígenas nessa narrativa? Na aula seguinte, fui desafiado a preparar uma apresentação para meus colegas. Ao pesquisar e organizar aquele conteúdo, percebi que não estava apenas respondendo a uma questão acadêmica, mas começando a compreender qual seria o meu papel dentro da moda contemporânea.

Foi a partir desse momento que entendi que meu caminho estava relacionado à transformação de feridas históricas em processos de criação, cura e reflexão.
Passei a utilizar a moda como linguagem para contar histórias, ativar memórias, fortalecer identidades e propor novos imaginários para o futuro.

Hoje desenvolvo trabalhos que dialogam diretamente com tecnologias indígenas do Alto Rio Negro. Entre elas está o tucum, uma fibra milenar associada à cosmologia do povo Taliaserí (Tariano) e compartilhada entre diversos povos da região. O tucum não representa apenas uma matéria-prima; ele carrega conhecimentos sobre manejo, transmissão cultural, relações de parentesco e modos de fazer construídos ao longo de muitas gerações.

Em 2022, desenvolvi a Tecnologia ManioColor, uma tecnologia têxtil baseada no aproveitamento das cascas de mandioca brava para a produção de pigmentos naturais utilizados no tingimento de tecidos. A iniciativa surgiu da observação dos sistemas tradicionais de processamento da mandioca e da compreensão de que os conhecimentos presentes nas casas de farinha, nas roças e nos sistemas agrícolas indígenas também são tecnologias sofisticadas de produção de vida. A ManioColor está conectada ao Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN) e dialoga com narrativas cosmológicas relacionadas a Basebo, demiurgo do alimento e fartura para o povo Umukoho Mahsã (Dessana), povo da minha mãe.

Mais do que produzir cor, essa tecnologia busca reativar memórias, conhecimentos e relações entre território, cultura e criação contemporânea. Dentro da perspectiva do Futurismo Indígena Amazônico, encontro inspiração nas reflexões da escritora Grace Dillon, do povo Anishinaabe, que nos convida a imaginar futuros para além das narrativas da perda e da colonização. Essa reflexão me acompanha constantemente: se deixarmos por um instante as feridas da
colonização em segundo plano, o que permanece? Quais tecnologias, conhecimentos e futuros podemos construir a partir de nossas próprias referências?

Meu trabalho procura habitar esse território de possibilidades. Um espaço onde a tecnologia indígena não é entendida apenas como herança do passado ou
instrumento de resistência, mas também como inovação, criação contemporânea e construção de futuros. Espero que as pessoas possam sentir essa dimensão quando encontram minhas roupas, desenhos, pesquisas e tecnologias: expressões de uma Amazônia indígena viva, criativa e profundamente conectada ao amanhã.


Sioduhi  Waíkhʉ é estilista e diretor criativo de moda do povo Waíkahna (Piratapuya) e fundador da Sioduhi Studio, marca indígena futurista amazônica que transforma histórias vivas em criações contemporâneas. Com criação e produção realizadas no Amazonas, a marca une ancestralidade, design e inovação para desenvolver coleções pautadas na responsabilidade socioambiental, valorizando tecnologias originárias e fortalecendo a economia criativa da Amazônia. Também é fundador da ManioColor, ecossistema de inovação que desenvolve pigmentos têxteis naturais a partir das cascas de mandioca, conectando conhecimentos ancestrais dos povos indígenas do Alto Rio Negro à pesquisa e ao design sustentável. A iniciativa fortalece o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro (SAT-RN), reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, ao valorizar práticas tradicionais, promover o uso sustentável da biodiversidade e impulsionar cadeias produtivas indígenas. 


Por meio de apresentações, bate-papos, exibições e oficinas, a programação destaca as tecnologias desenvolvidas e utilizadas pelos povos indígenas no Brasil para fortalecer suas culturas e conservar seus territórios. Saiba mais sobre o Agosto Indígena clicando aqui.

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