Vadico, muito além

28/07/2026

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Resultado de uma pesquisa que permeou arquivos estadunidenses e brasileiros, o box Vadico, novo lançamento do Selo Sesc, aborda a trajetória e a produção de Oswaldo Gogliano (1910–1962), o Vadico, pianista, compositor, arranjador, regente e diretor musical. Além da mídia física e da digital lançadas nas principais plataformas de áudio e nas Lojas Sesc, dois shows de lançamento no Sesc Pinheiros nos dias 8 e 9 de agosto coroam o projeto.

Conhecido por sua parceria notável com Noel Rosa, a contribuição de Vadico para a música brasileira vai muito além disso. Reunindo três CDs com gravações inéditas, novas interpretações de obras raras e um amplo trabalho de reconstrução documental, o projeto apresenta ao público um artista de ampla diversidade de atuação na música.

O box Vadico destaca, assim, três grandes vertentes suas: diretor musical, instrumentista e cancioneiro. Ao todo, são 37 faixas interpretadas por mais de 170 músicos. Além dos CD’s, acompanha um livreto bilíngue (português/inglês, 136 p.) com textos de Nei Lopes e Franco Galvão, e traz fotos históricas do Vadico.

O projeto, fruto de anos de pesquisa do músico e pesquisador Franco Galvão, nasceu a  partir da descoberta de 541 páginas de partituras inéditas de Vadico nos arquivos da Southern Illinois University, nos Estados Unidos, produzidas durante sua atuação no país nas décadas de 1940 e 1950.

Após a descoberta se desenvolveu um extenso trabalho de catalogação, restauração e análise do material, complementado por pesquisas em instituições como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, Instituto Moreira Salles, Instituto Memória Musical Brasileira, Instituto Brasileiro de Piano e diversos acervos particulares. O resultado foi a construção de um inventário que reúne dezenas de partituras, fonogramas e documentos que revelam um panorama amplo da criação musical de Vadico.

Conhecido principalmente pelas melodias de clássicos como Feitio de Oração, Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Pra Que Mentir?, compostos em parceria com Noel Rosa, a pesquisa e consequentemente o box vêm para mostrar que Vadico construiu uma carreira muito mais abrangente do que tal parceria.

Entre seus feitos, foi diretor musical de Carmen Miranda em Hollywood, regeu a orquestra de Katherine Dunham, trabalhou como arranjador de rádio e gravadoras, atuou ao lado de nomes como Pixinguinha, Dorival Caymmi e Baden Powell, recebeu convite de Vinicius de Moraes para musicar Orfeu da Conceição antes de Tom Jobim além de uma extensa produção instrumental, de concerto e popular, que permaneceu durante décadas praticamente desconhecida e que têm a oportunidade de serem ouvidas agora com este lançamento.

“O desafio era fazer com que Vadico fosse entendido por quem ele foi e trazer seu nome para a linha de frente dos artistas que contribuíram para quem hoje somos”, resume Galvão.

As gravações foram realizadas especialmente para o projeto, tanto a partir das partituras inéditas recuperadas durante a pesquisa quanto de novas interpretações de obras raras. O elenco reúne artistas de diferentes gerações e trajetórias da música brasileira, entre eles Ná Ozzetti, Renato Braz, Zé Renato, Guinga, Hercules Gomes, Edmilson Capelupi, Luísa Lacerda, Tiago Costa, Carla Pronsato, Debora Gurgel, Patrícia Bastos, Salomão Soares, Lenna Bahule e Xeina Barros, além da Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (OCAM), sob regência de André Bachur.

“Enquanto criávamos, nos criávamos; enquanto significávamos, nos entendíamos. São esses momentos de intensidade e de encontro que o público vai ouvir”, declara Galvão sobre o processo de realização do projeto.

Com o lançamento do box Vadico, o Selo Sesc apresenta um panorama da diversidade criativa de Vadico e convida o público a redescobrir um dos artistas que ajudaram a moldar a identidade da música brasileira.

Vadico box
Imagem da caixa com 3 CDs e livreto do projeto Vadico

Vadico está disponível nas plataformas de áudio e nas Lojas Sesc


Franco Galvão durante as gravações de Vadico | Foto: Thaís Mallon


Vadico
por Nei Lopes

Quando se fala de samba, pouca gente associa o nome do principal e mais diversificado gênero de música popular brasileira ao piano e a pianistas, embora o instrumento seja, sem dúvida, um dos principais meios universais de execução musical.  Chegado ao Brasil com a corte de Dom João VI, o piano foi adotado, provavelmente como peça ornamental do mobiliário das residências abastadas, mas ganhou importância na educação musical de jovens de ambos os sexos desde o século XIX.

Ao mesmo tempo, os ritmos dos batuques africanos ecoavam lá longe; e seus ritmos, ainda mal compreendidos, eram inconscientemente introjetados no corpo e na alma de muitos brasileiros, num processo que levaria ao nascimento de uma das mais fortes e completas expressões da música popular: o samba (em suas variadíssimas formas), que logo chegou ao marfim-e-ébano dos teclados.

Como exemplo desse fenômeno, citemos a compositora, instrumentista, maestrina e abolicionista Chiquinha Gonzaga (1847-1935), pianista que em suas composições incorporava a diversidade encontrada nas músicas das classes subalternas, inclusive antecipando o samba que nos chegaria depois, na música de autores como Sinhô (1888-1930), que embora considerado “pianeiro” (mau pianista), se enquadra na exemplificação que procuramos fazer. 

Dentro da mesma linha de pensamento, colocamos Ernesto Nazareth (1863-1934), pianista e compositor, tido como um dos expoentes do “maxixe”, gênero de música popular visto também como uma das matrizes do samba.  E poderíamos trazer outros exemplos como os do pianista   Custódio Mesquita (1910-1945) e o do multi-instrumentista José Maria de Abreu (1911-1966), melhor situados, entretanto, na condição de contemporâneos do nosso homenageado: o pianista Oswaldo de Almeida Gogliano, o “Vadico” – cognome familiar, diminutivo carinhoso de seu prenome civil.

Aqui, num breve parêntese, pedimos licença para lembrar que, poucos anos atrás, produzindo para uma casa editora um livro sobre trajetórias de afrodescendentes brasileiros notáveis, em diversos ramos de atividade no século, pensamos em incluir Vadico. Mas logo recuamos, em respeito à sua afirmada origem ítalo-brasileira.  E seguimos adiante.

Apuramos que nosso personagem nasceu em São Paulo, no bairro do Brás, no ano de 1910, o mesmo em que nasceu o carioca Noel Rosa, a quem sua trajetória seria fortemente associada. E que, muito cedo, já reconhecido como pianista, compunha, ao estilo da época e com títulos que ecoavam o samba então nascente na capital carioca, peças como: Isso Mesmo é que Eu Quero, Arranjei Outra (gravado por Francisco Alves) e Deixei de Ser Otário. 

Com 20 e poucos anos, no Rio de Janeiro, o artista conheceu Noel, apresentado pelo compositor Eduardo Souto. E, a partir daí, tornou-se um dos parceiros mais constantes do “filósofo” de Vila Isabel, raro espécime de sambista branco, de “boa família” e estudante de curso superior. 

Por essa época, no âmbito da chamada “Política da Boa Vizinhança” do Governo Roosevelt nos EUA, o Brasil de Getúlio Vargas tinha como uma de suas bandeiras a valorização de tudo o que fosse considerado “autenticamente nacional”. Assim, num contexto em que a Nação brasileira viveu uma espécie de revolução cultural, deu-se a ida de Carmen Miranda, a “pequena notável” para os Estados Unidos. E o nosso Vadico, também chegava aos States onde, independente do Bando da Lua, grupo acompanhante da “Miranda”, que integrava, também fez ótimas relações de amizade e trabalho artístico. 

A convite de Walt Disney, por exemplo,  musicou  o  desenho animado ”Saludos, Amigos”, que apresentava o papagaio Zé Carioca como símbolo do Brasil.  E, em 1949, rodou a Europa e as Américas dirigindo a orquestra da Companhia de Bailados de Katherine Dunham, coreógrafa e antropóloga negra, naturalmente engajada na luta contra a discriminação étnico-racial do povo negro nas Américas. Artista altamente politizada, eis que, em 1950, veio a sofrer, no Brasil, uma desagradável experiência:  foi impedida de hospedar-se num hotel da cidade de São Paulo, por sua condição de “negra”, num acontecimento tão rumoroso, que resultou na proclamação da chamada Lei Afonso Arinos, a primeira lei antirracismo votada e aprovada no Brasil.

Vadico faleceu, de um infarto do miocárdio, em 1962. E Kaye Dunn, como também foi conhecida, teve uma carreira otimamente sucedida nos teatros europeus e afro-americanos do século XX. Dirigiu sua própria companhia de dança por anos a fio, tornando-se uma das maiores artistas afro-americanas de seu tempo, até falecer em 2006.

Ao concluir estas linhas, buscamos algumas informações que justificassem a possibilidade de Vadico ter sido visto como um brother, por sua importante parceira. E o que encontramos, na Enciclopédia Itaú, foi apenas sua identificação civil: filho de um senhor Erasmino Gogliano, descendente de italianos, nascido em Minas Gerais, e de uma senhora identificada apenas como Maria Adelaide de Almeida, apenas isto.

Curiosamente, a resposta à consulta nos chegou no dia 13 de maio de 2025.


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