Luiz Lua Gonzaga: uma visita ao passado 

22/06/2026

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Giordano Castro é ator, diretor, dramaturgo, produtor e professor de Teatro. Licenciado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Universidade de Coimbra (Portugal). É membro e um dos fundadores do Grupo Teatral Magiluth

Ilustrações por bárbara carneiro

“Luiz Lua Gonzaga” é o sétimo espetáculo do grupo Magiluth, que estreou no final de 2012. Mas, para começar a falar um pouco sobre a história desse espetáculo, eu preciso voltar um ano antes. Em 2011, o Magiluth passava por uma série de mudanças internas. O grupo, que surgiu dentro da Universidade Federal de Pernambuco em 2004, tem naquele ano um marco, um ponto de virada dentro da sua trajetória, pois enfim todos os integrantes haviam acabado a universidade e aquele era o momento definitivo para decidirmos quais rumos tomar na vida, tanto individualmente quanto coletivamente.

Esse momento também coincide com uma situação financeira bastante precária do grupo, que, muito embora já tivesse marcado o seu nome na história recente da cena teatral pernambucana, ainda era uma jovem companhia no cenário nacional. Assim, por uma questão de sobrevivência, o coletivo decidiu começar a se inscrever em todos os editais culturais que estavam abertos naquele ano. Escrevemos projetos para editais municipais, estaduais e nacionais. De um ano para o outro, tudo mudou. Depois de passar bastante tempo escrevendo projetos, o grupo começou a finalmente colher os frutos de toda essa dedicação à produção.

Logo no início de 2012, estreamos o espetáculo “Aquilo que o meu olhar guardou para você”, resultado de um processo de pesquisa desenvolvido dentro do programa Rumos Itaú de Teatro. No meio do ano, o grupo montou “Viúva, porém honesta”, dentro das comemorações do centenário de Nelson Rodrigues realizado com a Funarte. E é também pela Funarte que vem mais uma conquista: a aprovação de um projeto para a criação de um espetáculo inspirado na obra do músico Luiz Gonzaga, que em 2012 completaria 100 anos. É nesse contexto que começa, de fato, a história desse espetáculo “Luiz Lua Gonzaga”.

Fazer um espetáculo sobre o Rei do Baião nunca tinha passado pela cabeça do Magiluth. Até então, toda a nossa pesquisa e investigação estavam muito voltadas para uma ideia de teatro contemporâneo, para temas que nos atravessam diretamente, questões geracionais e até uma investigação estética a partir do exercício formal como um caminho para criação. Não havia, de forma alguma, uma negação em relação a Luiz Gonzaga. A questão é que ele simplesmente não fazia parte das nossas inquietações naquele momento. E isso acabou se tornando, para a gente, um pequeno impasse criativo. Vínhamos de um ano muito intenso, com duas montagens que exigiram investigações estéticas bem diferentes entre si.

“Aquilo que o meu olhar guardou para você” era um espetáculo construído a partir de uma pulverização de cenas curtas, em que a gente trabalhava questões afetivas em relação com a cidade. A própria investigação entre forma e conteúdo que o Lubi, o diretor Luiz Fernando Marques, trazia para o trabalho era algo que mobilizou bastante a gente naquele momento. Depois veio a montagem de “Viúva, porém honesta”, do Nelson Rodrigues, um espetáculo assumidamente farsesco, como o próprio autor chamava: uma farsa irresponsável. O Magiluth mergulhou de cabeça nessa ideia debochada, exagerada, que revelava um Brasil complexo, cheio de contradições que aquele texto mostrava. Já Luiz Gonzaga ocupava um outro lugar. Ele fazia parte do nosso imaginário afetivo, de memórias mais antigas.

Outros fatores, naquele mesmo período, também nos colocavam numa situação delicada em relação à ideia de fazer um trabalho a partir de Luiz Gonzaga. Por ser o ano do seu centenário, houve, merecidamente, espaço para inúmeras homenagens. E, naquele momento, duas obras de grande repercussão já tinham surgido no Brasil pelo motivo dessa celebração. A primeira foi o filme “Luiz Gonzaga: De Pai pra Filho”, dirigido por Breno Silveira, uma cinebiografia que abordava a trajetória do músico e, principalmente, a relação dele com o filho Gonzaguinha. A segunda foi o espetáculo “Gonzagão – A Lenda”, dirigido por João Falcão e encenado pela Barca dos Corações Partidos: um grande musical, de enorme impacto, que também revisitava aspectos da biografia do artista. Eram duas produções muito fortes, de grande alcance e com uma lógica de produção e circulação bastante diferente daquela com a qual o grupo estava acostumado a trabalhar. De certo modo, isso também nos colocava diante de um desafio: parecia que tudo o que poderia ser dito sobre Luiz Gonzaga já estava, de alguma forma, sendo dito por essas obras.

Então, tentando construir uma obra que dialogasse mais diretamente com a forma como o grupo imagina e pensa seus espetáculos, resolvemos voltar a dois aspectos que se tornaram fundamentais no processo. O primeiro deles foi a dimensão humana: quem era, afinal, esse homem chamado Luiz Gonzaga? Para responder a essa pergunta, mergulhamos na biografia “Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga” escrita por Dominique Dreyfus sobre a vida do artista. O segundo eixo de investigação partiu da nossa própria relação de memória com a obra dele. Procuramos entender de que maneira as músicas de Luiz Gonzaga nos atravessavam naquele momento e como elas ativavam, em cada um de nós, uma memória afetiva muito particular. Foi nesse encontro entre a biografia de Gonzaga e as nossas próprias memórias que começamos a delinear os caminhos do espetáculo. 

Quando a gente começou a estudar a vida de Luiz Gonzaga, algumas relações surgiram de forma muito natural com a nossa própria trajetória. Aos poucos, a gente percebeu que havia muitos pontos de contato entre a história dele e a nossa. Isso aparecia, sobretudo, na dimensão regional e geográfica. Gonzaga era um homem vindo do interior desse Brasil profundo, carregando consigo questões muito próprias do Nordeste: os processos de resistência, de luta, as marcas de uma vida atravessada pela precariedade. E, de alguma forma, tudo isso dialogava diretamente com a gente. Também somos nordestinos, alguns de nós vindos do interior, e carregávamos nossas próprias histórias familiares e pessoais. Havia experiências, memórias e referências que aproximavam muito a biografia daquele homem das nossas próprias biografias. Foi a partir desse reconhecimento que começamos a construir um trabalho de relação entre Luiz Gonzaga e os artistas que compõem o grupo.

Nesse encontro, fomos percebendo como a música de Luiz Gonzaga também atravessava as nossas próprias vidas, quase como uma trilha sonora afetiva. Seja pelas canções que falam de pertencimento a uma região, seja por personagens e histórias tão marcantes que aparecem em suas músicas. Muitas dessas canções têm um caráter quase de crônica. Elas contavam as nossas histórias também, sem que a gente sequer se desse conta disso enquanto escutava, revelando dentro do processo uma dramaturgia composta por fragmentos de memória, onde as músicas de Luiz Gonzaga surgiam como a trilha que costurava tudo. No fim das contas, o trabalho acabou se configurando numa peça de colagem entre a obra do Luiz e as nossas próprias histórias. 

A partir da compreensão de que a biografia e a obra despertavam nossas memórias afetivas, passamos a identificar elementos dessas lembranças que poderiam nos ajudar levantar essa peça. Surgiu, então, a relação de um povo com a Espera. Esse estado de expectativa de que algo pode acontecer a qualquer momento e que seja capaz de melhorar sua vida, seja a chegada da chuva, o momento da colheita, a espera relacionada à fé e até mudanças advindas dos processos migratórios, daquele que foi e pode voltar a qualquer momento com uma boa nova. Esse elemento já nos entregava um estado de jogo que conduzia a narração da peça: um grupo de pessoas que esperava.

Esse estado nos levava à forma de como narrar essa história, recorremos a um elemento central da cultura nordestina que é a oralidade. É por meio dela que conhecimentos, memórias e tradições são transmitidos de geração em geração. Para muitas pessoas, inclusive, a formação intelectual começa justamente nesse processo de escuta e partilha das histórias. Geralmente feitas nos terreiros, nas praças e na rua: o lugar pensado desde sempre para acolher esse trabalho. E com isso fomos compondo com outros elementos agregando outras linguagens comum a esses três pontos já encontrados: o estado do jogo, a forma e o lugar. 

Nesse contexto, a música aparece como um elemento condutor fundamental da narrativa. Além de ser a linguagem primeira do artista que homenageamos, Luiz Gonzaga, ela também se revela uma forma potente e acessível de oralidade para contar histórias. Por isso, optamos por trabalhar com a estrutura básica do forró, consolidada pelo próprio Gonzaga: sanfona, triângulo e zabumba. Esse é o trio tradicional do forró pé-de-serra, uma formação que o artista ajudou a difundir e que se tornou referência dentro desse universo musical. No espetáculo, esse trio não é somente responsável por sustentar toda a música da peça, mas também atuando como um elemento narrativo essencial, que atravessa e costura as diferentes histórias apresentadas durante o espetáculo. 

Assim, outros elementos muito presentes na cultura nordestina vão sendo incorporados ao espetáculo e ajudam a contar essa história a partir de diferentes camadas. Entre eles, por exemplo, estão a cultura da vaquejada e a figura do vaqueiro, o teatro de formas animadas por meio do mamulengo, as festas juninas e também a presença da culinária e como o seu preparo se revela algo tão afetivo dentro da nossas lembranças, a relação com água, que na sua abundância é símbolo de fartura, mas na sua falta escancara as mazelas de um povo. Esses aspectos ampliam o processo de contação de histórias e reforçam a ideia de celebração como espaço de encontro. A festividade reúne a comunidade, assim como a relação com a fé, em que devoção, festa e alegria se misturam. Todos esses elementos aparecem como formas de representar esse povo e suas manifestações culturais. É a partir delas que o público encontra pontos de identificação e se reconhece dentro do espetáculo.  

Com tudo isso, o trabalho “Luiz Lua Gonzaga” nasce com a intenção contrária de narrar a biografia de Luiz Gonzaga, mas sim um pouco da nossa, de todo um povo. A proposta era revelar como a grandiosa obra desse artista ajudou a formar a identidade cultural de uma região inteira e como essa identidade nos atravessa, nos transforma e participa diretamente daquilo que somos como artistas. Mais do que falar de um artista ou de um grupo de teatro, o espetáculo fala desse povo. E talvez seja por isso, que não por acaso, é o espetáculo que mais apresentamos ao longo da nossa trajetória. Desde sua estreia, em 2012, seguimos apresentando a peça ano após ano, com as ruas sempre cheias. Há algo de profundamente afetivo na forma como o público se encontra com esse espetáculo. Para quem é da nossa região, ele é motivo de celebração. Para quem nos assiste longe de casa, costuma despertar saudade. E para quem vem de outros lugares, acaba sendo uma porta de entrada para a alegria e a força cultural do povo nordestino. 

Esse espetáculo é onde o Magiluth se verticalizou dentro do conceito de Teatro de Rua e, por isso, acabou acumulando ao longo do tempo uma série de experiências curiosas muitas delas quase inevitáveis desse estilo teatral. Já vivemos com ele praticamente todas as situações possíveis: bêbados atravessando a cena, cachorros que resolvem participar do espetáculo, intervenções inesperadas do público, sinos de igreja tocando sem parar no meio da peça no momento exato que parecia ter sido ensaiado, apresentações interrompidas pela chuva, ou melhor uma tempestade. Há também lembranças curiosas, como a primeira vez que uma apresentação de rua teve “público esgotado” e pessoas sendo retiradas por causa da lotação da “rua”, ou a apresentação na abertura do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto para 5 mil pessoas, ou apresentação para plateias bem pequenas, mas que  foi tão mágica que parecia está sendo feita para milhares de pessoas. Momentos lindos e caóticos, como trocas de atores em cima da hora, pelos mais diversos motivos, e todas as improvisações que a vida de um espetáculo em circulação impõe. É um trabalho que carrega tantas histórias que, sozinho, já daria material para um filme inteiro. 

“Luiz Lua Gonzaga” acabou se tornando um espetáculo que, a princípio, não parecia dizer muito sobre nós, do Grupo Magiluth. Com o tempo, porém, ele foi se transformando em um trabalho que revelava ao público aquilo que é, de fato, o nosso DNA: quem somos, de onde viemos e como tudo isso atravessa o nosso modo de fazer o nosso Teatro contemporâneo. Foi a partir desse processo que começamos a nos reconhecer como contadores de histórias. Histórias atravessadas por memórias ancestrais, pela relação com nossas famílias e com aquilo que forma a nossa identidade. Talvez por isso seja, até hoje, o espetáculo mais celebrado por aqueles que acompanharam e sustentaram o nosso percurso, as pessoas que, de diferentes formas, nos ajudaram a nos tornar os artistas que somos. Viva “Luiz Lua Gonzaga”!

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