
Foto: Fernanda Luz
Como a história da protagonista, que não domina a leitura, potencializa a força de invenção e a valorização da oralidade?
Não olho para essa condição como ausência, mas como ponto de partida para criar outra relação com o saber. A personagem não domina a leitura convencional, mas inventa um jeito próprio de interpretar o mundo. A tradição oral é um território fértil, onde cada história ganha novas possibilidades ao ser compartilhada.
De que forma a direção estruturou o espetáculo para convidar o público infantil a habitar a imaginação e preencher as lacunas?
O que me move é fazer do teatro um espaço de descoberta. Gosto de pensar que a montagem encontra seu percurso enquanto acontece. Mais do que apresentar um enredo fechado, queria instigar as crianças a vislumbrar outros universos possíveis.

Por quais caminhos a obra costura o surrealismo à valorização de saberes que independem do ensino formal?
O movimento me interessa mais como atitude diante do cotidiano do que como referência histórica. É libertadora a possibilidade de aproximar elementos opostos. A infância habita esse lugar. O espetáculo coloca em cena quem aprendeu fora da sala de aula. Não é uma oposição à educação tradicional, mas um lembrete de que a experiência humana transcende qualquer sistema de aprendizagem.
Carlos Canhameiro é diretor e dramaturgo de Vovó Surrealista.
Uma vovó que nunca aprendeu a ler finge decifrar os livros que carrega debaixo do braço e inventa, para netos, vizinhos e desconhecidos, histórias que não existem em suas páginas: era uma vez tanta coisa, sem limite de forma, tamanho, gênero ou identidade. A partir do livro homônimo de Carlos Canhameiro, a Cia. de Feitos convida o público a habitar o território instável entre imaginação e realidade, em que cada história pode ser reescrita a qualquer momento. Mais do que acompanhar uma personagem, o espectador é convocado a fabular com ela, preenchendo lacunas e criando sentidos. O espetáculo marca a primeira dramaturgia autoral da companhia para as infâncias, após 17 anos dedicados a adaptações de livros ilustrados de outros autores.
O espetáculo Vovó Surrealista foi apresentado nos dias 4 e 5/09 às 15h no Teatro Guarany, em Santos.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.