Extremo Sul de São Paulo: terra indígena

02/06/2022

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Modos de Fazer Guarani. Ajaka Jejapo – Cestaria Guarani (Foto: CTI – Centro de Trabalho Indigenista)

São Paulo é uma das maiores metrópoles da América Latina, e o exercício de imaginá-la pode nos remeter diretamente a uma imensa área asfaltada, com grandes prédios, avenidas e automóveis. Entretanto, em sua diversidade cultural e territorial, São Paulo guarda belas surpresas, e a Zona Sul do município, especialmente o Extremo Sul, com os distritos de Grajaú, Parelheiros e Marsilac, apresenta cenários muito diferentes desse imaginário que compõe o urbano. É um território que contempla extensa área de mananciais com dois reservatórios (represas Billings e Guarapiranga), zona rural com mais de 500 unidades de produção agrícola, as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Bororé-Colônia e Capivari-Monos, cinco Parques Naturais Municipais (Parque Natural Municipal (PNM) Varginha, PNM Itaim, PNM Bororé, PNM Jaceguava e PNM Cratera de Colônia) e uma importante área de Mata Atlântica preservada que integra a Terra Indígena Tenondé Porã.  

Em 1987, ainda antes da promulgação da Constituição de 1988, a comunidade Guarani Mbya que habitava a região conseguiu a declaração da terra indígena que, na época, abarcava duas grandes aldeias: Krukutu e Barragem. Entretanto, a área definida era ainda muito restrita, estavam garantidos apenas 26 hectares para quase mil guaranis, impossibilitando a prática do plantio tradicional, colheita de matérias-primas para construção de casas e confecção de objetos e artesanatos, além de muitas outras práticas que dependem da natureza para se expressar. 

Localização das Terras Indígenas Jaraguá (noroeste) e Tenondé Porã no município de São Paulo e municípios vizinhos. (Fonte: KEEESE DOS SANTOS, L; OLIVEIRA, J.E. (2020). Acesse o material aqui 

A partir disso iniciou-se uma luta para a ampliação dos limites da área, e em maio de 2016 foi publicada a portaria declaratória (Portaria MJ/GAB n°548) aprovando a expansão da área baseada em estudos de identificação realizados pela FUNAI. Com essa garantia de seu território, os guaranis puderam se reorganizar em diferentes tekoa (aldeias) num processo de retomada dessa terra. Hoje a Terra Indígena Tenondé Porã tem 15.969 hectares e mais de 1.500 guaranis vivendo lá. 

A ação em rede Territórios do Comum, apresentada pelo Sesc São Paulo, propôs a reflexão sobre a cidadania em suas múltiplas dimensões, usando os eixos da tecnologia social e da mobilização social como referências para as programações. O projeto Modos de Fazer Guarani nasce da escuta e do diálogo com uma das aldeias dessa terra indígena, a tekoa Kalipety, a partir de conversas com a liderança Jerá Guarani. Foram realizadas cinco oficinas envolvendo conhecimentos tradicionais acerca de plantio, colheita, artesanato e alimentação, nas quais pessoas mais experientes da comunidade transmitiram seus saberes e técnicas aos mais novos. Além disso, as oficinas foram registradas pelo cineasta Guarani Alberto Álvares, que também traduziu e editou os vídeos. Todo o projeto foi desenvolvido em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que, em junto aos Guarani executa o Programa Aldeias, um projeto financiado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.  

Assim, cada uma das oficinas realizadas na tekoa Kalipety contemplou algum modo de fazer Guarani, envolvendo os saberes ancestrais e o uso de elementos da floresta. São práticas conectadas com a saúde integral Guarani, com a manutenção da comunidade e que viabilizam os alimentos para o espírito de acordo com os ensinamentos de Nhanderu. A partir delas podemos aprender e nos inspirar a viver de forma mais integrada com a natureza. 

Mbya Jety Nenhoty | Plantio de batatas Guarani

A série completa “Modos de Fazer Guarani” está disponível no nosso canal do Youtube. Clique aqui e conheça um pouco mais sobre a realidadeda aldeia Kalipety.

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