Transgredir para preservar
Cinema é prática social e coletiva, mas também engenharia que arquiteta sonhos e desejos através de suas narrativas e linguagem própria. Contudo, há algo disruptivo no que o cinema traz ao revelar tudo aquilo que a sociedade – em seu status quo – pretende esconder. Assim, cinema também é revelação: irrompe com transgressão moral, estética e narrativa, em diferentes tempos e culturas – para deflagrar tramas incômodas, reflexivas, inovadoras. Destas duas premissas é que a Mostra Amor ao Cinema. Por um lado, sublinha filmes metalinguísticos, que utilizam da própria linguagem para criar ou confrontar narrativas convencionais. Por outro, apresenta obras que trouxeram alguma ruptura em suas épocas de lançamento (ou ainda hoje, quem sabe).
Desde a primeira edição, em 2023, busca investigar a forma com que as obras refletem a própria linguagem, abordando o cinema enquanto tema ou elemento narrativo ou mesmo rompendo convenções preestabelecidas do fazer cinematográfico, geralmente aportando novos olhares. Nesta 4ª edição, a curadoria amplia o espaço para filmes de ruptura e os coloca lado a lado com o cinema metalinguístico, entendendo que, se há amor ao cinema, é porque filmes atravessam pessoas, e é preciso transgredir para atravessar barreiras e transformar realidades.
Realizar uma mostra com filmes de diferentes épocas, incluindo clássicos e inéditos, requer um olhar amplo para a história do cinema, com o desafio de recortar contextos temporais e espaciais. Assim, apresenta-se uma diversidade de pontos de vista – geográficos, históricos, socioculturais – para construir e desconstruir ideias sobre a linguagem, intencionando provocar sentidos não-hegemônicos e sem obviedades sobre o que é cinema. Esse exercício é, por si só, um trabalho de preservação, e aqui entende-se que, para preservar, é necessário transgredir.
A ruptura mantém o cinema vivo. E esta, por sua vez, também é viva. Assim como se transforma constantemente a ideia do que é cinema – e o que é arte -, é a partir do ponto de vista histórico-social desta curadoria que se propõe um olhar sobre o que é romper paradigmas e refletir sobre a linguagem cinematográfica. É nesta perspectiva que a mostra completa quatro anos de vida e imagina futuros, sabendo que diferentes contextos trazem diferentes inquietações. Dentro de uma mesma seleção, um filme pode desafiar outro, em forma, narrativa ou outras escolhas. É nesse tensionamento que obras clássicas e inéditas se mantêm ou se tornam relevantes em diferentes tempos. E é nesse circuito que o coração do cinema se torna exercício de preservação e experiência coletiva.
Equipe de curadoria
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