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Das Margens para Dentro

Iniciativas culturais mantidas fora do centro econômico de São Paulo mostram protagonismo, inventividade e potência criativa nas periferias da cidade

 

No protagonismo, artistas, coletivos e associações de moradores dessas regiões que extrapolam o conceito de “periferia”. Como a Ocupação Cultural Ermelino Matarazzo na Zona Leste, que reúne 62 coletivos de diversas linguagens, ou a Comunidade Cultural Quilombaque, uma organização sem fins lucrativos, gerida por jovens artistas e moradores de Perus, no limite norte da cidade.

Segundo o pesquisador e professor Dennis de Oliveira, chefe do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e membro do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (Neinb), essas manifestações surgem acompanhadas por denúncias à situação de violência e de desigualdade vivida pelas populações periféricas. Nesse contexto, o movimento Hip Hop nos anos 1980 teve papel fundamental. “Podemos chamá-lo do primeiro ‘grito dos excluídos da periferia’. Com o tempo, esse movimento começou a ter uma estrutura mais orgânica e passou a se organizar como ações de educação popular, formando protagonistas educativos populares”, explica.

Neste século, a difusão e a consequentemente, apropriação das novas tecnologias de informação e comunicação deram vez à construção de novos ecossistemas midiáticos com vozes vindas da periferia. “Entretanto, não se trata apenas de colocar estas demandas no centro da agenda, mas os seus protagonistas. Por isso, é fundamental neste alargamento do arquétipo de cidadão que se criem mecanismos que possibilitem que as vozes da periferia sejam ouvidas. Falar a respeito e dar lugar de fala se diferencia, em síntese, no seguinte: tratar os cidadãos da periferia como objeto (de estudo, do capital) ou como sujeitos”, complementa Oliveira.

 

Múltiplas Vozes
A convite da Revista E, integrantes da Agência Mural de Jornalismo das Periferias relatam nas páginas seguintes alguns exemplos de ações culturais que irradiam em todas as direções da cidade. Assim, todas as regiões recebem atenção de autores residentes em seus bairros.

 

Acervo de imagens feitas pela Agência Mural

Janeiro 2019 (Revista E | Matéria Principal)

 

 


ZONA SUL

População: 3.586.020 habitantes

Cozinha itinerante,
Das aulas ao aplicativo*

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Foto: Agência Mural

 

Antes de criar o Gastronomia Periférica, o chef Edson Leitte ouviu que comida não tinha nada a ver com cultura. Até que em 2012, ao voltar de uma viagem de Portugal, Leitte escreveu um projeto para a Fábrica de Cultura do bairro Jardim São Luís, na Zona Sul de São Paulo.

Na época, ele idealizou o projeto Gueto em Festa, com foco em oficinas musicais. Ainda assim, Leitte continuou com a mão na massa e ensinou a alguns interessados os princípios da arte gastronômica. “Daí surgiu o Gastronomia Periférica. As oficinas começaram nas quebradas, com mais de 90 inscrições. Fomos a algumas escolas e ligamos para várias pessoas”, relembra.

No bairro Jardim São Luís, a iniciativa tomou corpo até se tornar o que a coordenadora Adélia Rodrigues denomina “negócio social”. Adélia e o chef se conheceram na Fundação Julita, por volta de 2014, e perceberam que os cursos de alimentação geravam forte proximidade com os alunos. “Trabalhamos sempre as duas vertentes: a técnica e a humana”, explica Adélia.

Essa é a visão que norteia as diversas frentes do Gastronomia Periférica: o restaurante Sonego Bistrô, que funciona para almoço, happy hour e jantar; e a Escola Periférica de Gastronomia, com grade curricular montada pela dupla em cursos de um ano de duração. Ambos são localizados no São Luís, mas a dupla reforça que a ideia do negócio é ser itinerante. Como o Rango, iniciativa de cozinhar para uma grande quantidade de pessoas em eventos da periferia, e consultorias voltadas para empresas e restaurantes com foco na diminuição de custos e melhoria de desempenho.

 

É importante perceber que essa prática traz

benefícios ao lugar onde se mora

Adélia Rodrigues

 

Com exceção da escola, mantida em parceria com a ONG Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais (Orpas), todas as ações do Gastronomia Periférica são financeiramente autossustentáveis – incluindo um aplicativo que mapeia lanchonetes, restaurantes e comércios de rua das periferias de São Paulo. Qualquer usuário pode cadastrar um estabelecimento: o proprietário com pretensão de garantir sua presença digital tem opções de planos mensais de R$ 49 e R$ 99.

O Gastronomia Periférica também ganhou um livro com receitas que são sucesso nas quebradas. “Temos que fazer com que os moradores tenham plena consciência de que o dinheiro precisa ficar na periferia”, reflete Leitte. “É importante perceber que essa prática traz benefícios ao lugar onde se mora, e você pode reproduzir isso para várias outras coisas, seja para comprar comida, roupa ou um tênis”, complementa Adélia.

Em abril de 2018, Leitte levou o Gastronomia Periférica para uma oficina culinária na 11ª mostra Pétala por Pétala, no Sesc Interlagos, com o tema Lado Sul do Mapa. “Foi muito legal ter sido convidado”, alegra-se Leitte. “Queremos participar do Circuito Sesc de Artes, para montar uma oficina e levar essa iniciativa para outras cidades”, arremata Adélia.

 

*Tiago Ferreira, correspondente da Agência Mural no Grajaú

 


ZONA NORTE

População: 2.214.654 habitantes

Quilombaque: refúgio
e resistência de Perus*

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Foto: Agência Mural


Em constante construção e com firmeza permanente. É assim que há 13 anos resiste a Comunidade Cultural Quilombaque, uma organização sem fins lucrativos, gerida por jovens artistas e moradores de Perus, Região Noroeste da cidade de São Paulo.

Desde que foi fundada pelos irmãos percussionistas Clébio e Cleiton Ferreira em 2005, a Quilombaque é um espaço cultural que forma e agrega coletivos do bairro e, também, de outras regiões, com o objetivo de fortalecer uma rede de parcerias culturais. “As periferias estão articuladas e se comunicam. Eu sei o que está acontecendo na Zona Sul, que sabe o que está acontecendo na Zona Leste. A gente trabalha coletivamente, fortalecendo a ação um do outro, e assim vamos fomentando o movimento cultural das periferias”, explica Clébio, que também é produtor cultural da Quilombaque.  

Para os coletivos da região, a proposta da Comunidade é oferecer autonomia para seus projetos. Por isso, desde o início, outras iniciativas são estruturadas a fim de que se tornem independentes. Dentre os coletivos nascidos nesse espaço cultural e que se tornaram autônomos estão a Arteferia (coletivo de mulheres que produzem artesanatos) e a Cia. Trupe Liuds (coletivo de circo).

 

O que mantém a Quilombaque viva é essa rede.

Essa troca de vivências, de experiências e de recursos


Clébio Ferreira

 

Com atividades focadas em múltiplas linguagens de expressão, como ocupações e intervenções culturais realizadas em ruas, praças e vielas, a Comunidade Quilombaque promove lazer e diversão para a população – sobretudo regional –, além de impulsionar conhecimento e conscientização. A Comunidade ainda reivindica recursos financeiros para disseminar e valorizar a cultura, a educação e o meio ambiente nas periferias
da cidade.

Para manter o espaço cultural funcionando e garantir que aconteçam as programações, divulgadas em suas redes sociais, dez gestores se revezam para atender às inúmeras demandas dia após dia. “Infelizmente, para viver de cultura em nosso país, o artista tem que fazer muita arte. Tem que ser um arteiro. Todos [os responsáveis pela Comunidade] possuem outros trabalhos fora a gestão da Quilombaque”, desabafa o idealizador.

É constante a busca por alternativas que gerem recursos financeiros e que possam atuar além de editais. Para isso, a Comunidade tem prestado serviços por meio de oficinas e palestras para a Prefeitura de São Paulo e para o setor privado. Ela também tem assessorado coletivos para contratações.

O elo que existe entre os movimentos culturais das periferias viabiliza essa estruturação de recursos financeiros e de parcerias. “O que mantém a Quilombaque viva é essa rede. Essa troca de vivências, de experiências e de recursos. É o que nos faz manter os espaços independentes na cidade”, afirma Clébio. Desde 2014, a Quilombaque tem promovido oficinas, apresentações e vivências de ressignificação de espaço em parceria com o Sesc São Paulo. São eventos que fortalecem trocas culturais e consolidam a importância de um espaço como a própria Comunidade Quilombaque.

 

*Ira Romão, correspondente da Agência Mural em Perus

 

 

ZONA OESTE

População: 1.023.486 habitantes

Cultura, jazz e poesia*

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Foto: Alice Vergueiro

 


Nascido na Favela do Morumbizinho, na Zona Oeste de São Paulo, o poeta e produtor cultural Giovani Baffô criou o coletivo Vie La En Close para levar arte e cultura para a região do Jardim Boa Vista por meio da Vielada Cultural, uma microvirada cultural pensada pelo poeta para os moradores da região.

As atividades do Vie La En Close começaram em 2010 com saraus e oficinas de arte pelas ruas do bairro. No início, ele contava com a colaboração de amigos, que ajudavam na produção.  Em 2011, a educadora e produtora cultural Caru Laet entrou no projeto e incluiu o Vielinha – atividades voltadas para as crianças da região. “Conheci o Giovani um ano depois que ele iniciou o projeto e comecei a ajudar. Criei o Vielinha, pensando nas crianças, e sempre que tinha um sarau, eu fazia esse evento com oficinas de desenho e pintura na praça”, explica Caru. Dessa forma, ela incluiu seu trabalho como psicopedagoga no projeto.

 

Teve uma vez que conseguimos reunir 10 mil pessoas

na Praça Roosevelt e saiu até na tevê


Giovani Baffô

 

 

Em 2013, o evento ficou maior e se tornou o Vielada Cultural. “A gente conseguiu fazer a primeira Vielada no dia 28 de janeiro. Os artistas participaram como colaboradores. Pagamos os gastos do almoço e dos cartazes com outras ações que fizemos para juntar o dinheiro. E fizemos ainda duas edições assim”, conta Caru. Em 2015, o projeto ganhou o primeiro edital. Dois anos depois, ganhou outro, que custeou três Vieladas naquele ano e mais três em 2018.

Uma das ações que ajudaram nos custos da primeira Vielada foi O Menor Sarau do Mundo, em que Baffô recita seus poemas-pílulas de curta duração. “É o menor, porque ele dura um minuto e 20 segundos. Sou eu e até três espectadores debaixo de um guarda-chuva.” A intervenção é feita hoje de forma espontânea, sem divulgação. “Vamos pra rua, eu abro o guarda-chuva e a Caru vai chamando as pessoas. Quem participa leva alguns folhetos e poemas”, afirma o poeta.

A dupla ainda dirige o Jazz na Kombi, ação com um veículo customizado que já levou inúmeras bandas de jazz para diversos pontos da cidade de São Paulo, incluindo algumas unidades do Sesc e o interior. “Teve uma vez que conseguimos reunir 10 mil pessoas na Praça Roosevelt e saiu até na tevê”, diz Baffô. Com mais de 15 mil seguidores no Facebook, a página do Jazz na Kombi é a principal forma de divulgação do projeto, que completa cinco anos em 2019.

 

*Andressa Alves, correspondente da Agência Mural no Ipiranga

 

 

ZONA LESTE

População: 3.998.237 habitantes

Atividades na Ocupação Cultural*

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Foto: Agência Mural

 

¿Levantou, chuta!” Esse é um dos lemas da Ocupação Cultural, que funciona em um prédio abandonado pelo poder público, em Ermelino Matarazzo, Zona Leste de São Paulo. A expressão surgiu para mostrar que todos são responsáveis pelo local e que, quando se tem uma ideia de melhoria, o autor toma a frente para realizá-la.

O espaço também é conhecido pelo nome Mateus Santos, homenagem feita a um morador que deu aulas de pintura para idosos nos anos 1980, na mesma praça onde os artistas iniciaram as manifestações no bairro. Na época, ele escreveu ao prefeito da cidade dizendo que começou a oficina com dez alunos e terminou com 68. Santos também mostrou o desejo de um espaço adequado às aulas. “Ermelino já tem cultura, só não tem casa”, pontuou em carta escrita a punho.

Hoje, a Ocupação Cultural reúne 62 coletivos que trabalham independentes entre si e com diversas linguagens, como teatro, dança do ventre e fotografia. Com a realização das atividades, o principal objetivo é estabelecer uma Casa de Cultura na região, onde vivem mais de 200 mil pessoas.

 

Nos inspiramos em nós mesmos

Gil Douglas

 

Para manter o funcionamento, os membros dos coletivos envolvidos se organizam por meio da gestão horizontal, com o uso de escalas para limpeza e conservação do prédio de dois andares e dez salas. Além disso, a cada duas semanas, uma reunião é feita para decidir os rumos das atividades e planejar estratégias de promoção da cultura. “Aqui, na quebrada, além de pensar numa luta em que acredita, você tem que pensar na sua sobrevivência”, define o articulador cultural Gil Douglas.

Sem financiamento público ou privado, para a organização pagar a internet e o caminhão-pipa que abastece o lugar com água limpa, são vendidas camisas e bonés da ocupação. Um brechó de roupas, além de uma plataforma de doação recorrente, também são formas de financiar o espaço e as atividades realizadas ali.

A divulgação é feita por meio das redes sociais, como uma lista de transmissão que é enviada pelo WhatsApp. Hoje, cerca de 500 pessoas recebem a programação diária com a agenda das atividades. Todo mês, em média, três mil pessoas participam da ocupação. “Nos inspiramos em nós mesmos. No começo de tudo, o desejo maior era de conseguir um ponto de luz na praça onde aconteciam as atividades, e conseguimos. Na época, aquele era o nosso sonho”, relembra Douglas. “Hoje, o desejo é estabelecer esse lugar como um ponto de cultura legítimo, o que já é reconhecido pelo bairro”, completa.

 

*Lucas Veloso, correspondente da Agência Mural em Guaianases


 

CENTRO

População: 431.106 habitantes

Slam na Favela do Moinho atrai crianças*

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Foto: Agência Mural

 

Ao ver o artista Everson Anderson, de 19 anos, aproximar-se do Cine Moinho, na Favela do Moinho, região central de São Paulo, a criançada pausa o jogo de bola na rua e começa a brincar com ele, rimando algumas frases. Anderson interage sorrindo ao lado da produtora cultural e atriz Jady Maria Bandeira, 18 anos, com quem criou e organiza mensalmente o Slam Moinho Resiste na favela: uma competição de poesias com cronometragem, jurados e prêmios.

Anderson mora na favela, enquanto Jady, no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Atualmente, a dupla conta com o apoio de Rafa Ribeiro, poeta de Poá, da Grande São Paulo, na organização do slam. Sem financiamentos públicos, o torneio teve início em agosto de 2017.

 

A gente está fazendo slam para a

quebrada se fortalecer como ela pode

Jady Maria Bandeira

 

Naquele ano, o slam homenageou os jovens Leandro de Souza Santos, morador assassinado na favela em junho, e Daniel Marques da Silva, poeta atuante no cenário cultural das periferias, que morreu na semana em que o evento estava marcado. “Foi uma surpresa, porque era tudo muito recente e muita gente veio. Tinha uns 12 poetas e umas 30 crianças. E o clima não foi pesado, era de esperança. As pessoas se abraçavam, se apoiavam”, recorda Jady.

Para eles, o episódio foi fundamental para definir o propósito do evento. “Foi um marco. Vimos a importância desse trabalho. A gente está fazendo slam para a quebrada se fortalecer como ela pode”, diz Jady. Anderson destaca a importância da participação das crianças desde o começo. “É muito louco ver as crianças participando. É arte, e ela chega de uma forma que elas gostam de ouvir. Penso o quanto a alfabetização mudaria se elas ouvissem um rap falando de matemática, se a dinâmica fosse diferente.”

O evento é realizado todas as primeiras quintas-feiras do mês no espaço Cine Moinho, a partir das 20h. O público é formado principalmente por crianças e artistas convidados. Sem recursos, eles buscam verba das mais diversas formas. “Não temos fomento. É tudo do nosso bolso, além do apoio de outros artistas. Também fazemos zines, que são pequenos livros com poesias, fotocopiamos e vendemos no metrô quando voltamos do trabalho”, conta Jady.

Em abril deste ano, eles levaram uma edição do Slam ao Sesc Bom Retiro. “É um espaço que precisamos ocupar. E ficamos bem felizes, pois conseguimos investir em prêmios e dividir o que ganhamos com os poetas”, comemora Anderson.

Para o futuro, a dupla tem o plano de realizar cada vez mais atividades culturais na região. “Pensamos em trazer oficinas e atrações. Tudo o que fizermos é para a criançada aqui. É a cobrança deles que faz a gente seguir em frente”, conta Jady.

*Cleber Arruda, correspondente da Agência Mural na Brasilândia

 

 

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