Sesc SP

postado em 13/04/2021

A fórmula da emoção na fotografia de guerra

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Leão Serva relaciona em livro imagens de grandes conflitos com pinturas clássicas para mostrar os gestos, expressões e movimentos que sensibilizam o espectador

No próximo dia 15 acontece um bate-papo sobre o livro transmitido pelo canal da ESPM no YouTube*

 

Em um cotidiano bombardeado por milhares de fotos publicadas por minuto nas redes sociais, você já parou para pensar o que é que nos atrai ao olhar determinadas imagens enquanto ignoramos por completo tantas outras? É impossível responder essa questão sem recorrer ao historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929), expoente do estudo que analisa de que maneira as imagens transmitem emoções capazes de serem reconhecidas por pessoas de qualquer parte do planeta. Obviamente, Warburg se deteve em seu tempo ao universo das pinturas, analisando, a princípio, a presença de elementos da cultura pagã pré-cristã nas pinturas renascentistas.

Agora, mais de um século e meio depois, o jornalista Leão Serva recorre também a Warburg. Mas seu interesse é outro: analisar as fotografias de guerra e o que nelas atrai a atenção de cada um. Diretor de jornalismo da TV Cultura e doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, ele lança pelas Edições Sesc São Paulo o livro A fórmula da emoção na fotografia de guerra. A publicação é fruto de uma tese de pós-doutorado apresentada em 2017, e reúne uma farta coleção de registros de guerra, analisados com profundidade pelo escritor, que nos anos 1990 também foi correspondente de conflitos armados, como a guerra civil na Bósnia-Herzegovina.

No livro, o leitor é logo apresentado ao Pathosformel, conceito criado pelo estudioso alemão e traduzido como “fórmula da paixão ou da emoção”. “Warburg buscou identificar os gestos que transmitem as energias emocionais, movimentos de corpo ou do rosto que expressam sentimentos. São realmente fórmulas como as matemáticas, que estão presentes em inúmeras imagens, sejam obras de arte, publicidade ou monumentos. Quando ele morreu, em 1929, ele estava no meio do processo de produção de um ‘atlas’ que iria dissecar o processo de desenvolvimento dessas ‘fórmulas de emoção’ ao longo dos séculos, o que ele chamou de Atlas de Imagens Mnemosine, o qual ficou inacabado, mas é muito estudado por gente de todo o mundo”, conta Serva, que se valeu de painéis deste atlas inclusive para fortalecer as análises.

Justamente por isso, mesmo ao leitor menos habituado à temática, fica fácil e cativante compreender o que o escritor demonstra na publicação, a qual após um percurso pela vida e obra de Warburg, se dedica a explorar grandes temas de guerras, como rostos, decapitados, caveiras, pessoas em chamas, fuzilados, entre outros. Para isso, utiliza imagens das artes plásticas, do cinema e do fotojornalismo.

 


Judite e Holofernes, de Caravaggio | Foto Reprodução

 

Por exemplo, a obra Judite e Holofernes, pintada por Caravaggio, em 1599, está no mesmo capítulo em que estão fotos horripilantes de decapitados pelo Estado Islâmico, assim como a foto da exposição pública da cabeça de Lampião e dos demais cangaceiros do bando. No painel “Cristo descido da cruz”, a pintura Lamentação sobre Cristo morto (1490), de Andrea Mantegna, ou a pintura A lição de anatomia do dr. Tulp (1632), de Rembrandt, carregam a mesma força e impacto que serão sentidas depois nas fotografias de Che Guevara morto na Bolívia, em 1967.

Mas será que essa nossa emoção é sempre previsível? Para Leão Serva, a resposta é sim: “O fotógrafo, no processo criativo, seja no momento em que faz o clique ou quando escolhe algumas entre as diversas imagens que produziu, ou mesmo seu editor quando decide qual é ‘a’ foto, estão buscando transmitir uma emoção e frequentemente eles vão transmitir uma ‘fórmula de emoção’, que vai potencializar o efeito da fotografia. Eles talvez nem se dêem conta de que estão sendo previsíveis, que estão reproduzindo escolhas e conteúdos já consagrados no passado”.

 


Mesma emoção: pintura de Rembrand A lição de anatomia do dr. Tulp, de 1632 e O corpo de Che Guevara morto na Bolívia, em 1967 | Fotos: Marc Hutten e

 

Assim, estudar a fotografia de guerra a partir da fórmula da emoção de Aby Warburg nos permite também compreender mais profundamente a natureza humana, ao perceber o quanto continuamos atraídos pelo mesmo tipo de cena (seja na pintura ou na fotografia) há séculos, de certa forma imutável. Igualmente facilita a percepção sobre o importante papel do fotojornalismo nos conflitos.

Uma das melhores formas de receber A fórmula da emoção na fotografia de guerra é a partir do que escreve o doutor em Comunicação Norval Baitello Jr. no prefácio: “Em cada imagem está refletida uma guerra das imagens de guerra que nunca terminou. E como estamos todos mergulhados inteiramente no mar de lama que ambas as guerras criaram, a das imagens e a dos interesses materiais do grande capital, é conveniente nos inteirarmos das reflexões agudas de uma de suas mais brilhantes vítimas (sim, Warburg pagou um pesado tributo de sofrimento por adentrar nessas duas guerras), guiados pelo competente olhar de Leão Serva”.

 


Trecho do livro

 

*Serviços:

Live de lançamento do livro A fórmula da emoção na fotografia de guerra.
Bate-papo com o jornalista Leão Serva e o doutor em Comunicação Norval Baitello Jr..
Dia 14 de abril, quarta-feira, às 19h.
Assista no canal da TV PUC no YouTube

Bate-papo sobre o livro A fórmula da emoção na fotografia de guerra.
Com o jornalista Leão Serva e o doutor em Comunicação Norval Baitello Jr.
Mediação do mestre de Belas Artes em Fotografia José Henrique Lorca.
Dia 15 de junho, terça-feira, às 19h30.
Transmissão ao vivo no canal da ESPM: youtube.com/espmoficial

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