Sesc SP

postado em 12/04/2021

Sérgio Mamberti: senhor do meu tempo

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Em autobiografia escrita com o jornalista Dirceu Alves Jr., Sérgio Mamberti compartilha detalhes da trajetória artística e revela cenas da vida privada e política

Nesta quinta (10) acontece um bate-papo com os autores com transmissão ao vivo pela PUC RS.*

 

Foi durante uma entrevista concedida ao jornalista Dirceu Alves Jr., ainda no antigo prédio da Editora Abril, em 2018, que nasceu a ideia de escrever Sérgio Mamberti: senhor do meu Tempo. O livro acaba de ser lançado pelas Edições Sesc, com 376 páginas repletas de fotos de acervo, imagens inéditas e detalhes da vida dessa grande referência das artes no Brasil.

Dirceu relata que a entrevista enveredou pelo lado humano do ator, que contou histórias de infância, relacionamentos, vida artística e política. Na ocasião, ele estava acompanhado de um de seus filhos, Carlos Mamberti, produtor de teatro, e o jornalista lhe propôs: “Olha, seu pai tem uma história de vida muito singular que precisa ser registrada. Vocês já pensaram em fazer um livro sobre ele?”. Duas semanas depois, em abril de 2018, começaram as entrevistas.

A partir dessa primeira conversa seguiram-se dois encontros semanais que duravam cerca de quatro horas, durante quatro meses, na residência de Mamberti, bem como uma imersão em documentos, jornais, revistas e filmes. O ator já tinha uma linha do tempo de sua vida e carreira – uma construção cronológica –, e, com base nela, Dirceu desenvolveu um planejamento editorial com divisão de capítulos a partir dos temas mais marcantes. “Posso dizer que a pesquisa para o livro começou em 2018 e durou até o fim do ano passado, com o ponto final da edição”, afirma o coautor.

No título Sérgio Mamberti: Senhor do meu Tempo é possível perceber de forma clara o caráter obstinado do ator, apaixonado pela sua arte e por sua família, além da forte consciência política e social, inclusive em suas escolhas profissionais. Na peça Navalha na carne (1967), ele interpretou o homossexual Veludo, papel difícil em diversos aspectos, que poderia facilmente ficar caricato.

Muitos amigos chegaram a dizer que não pegaria bem ele fazer o personagem. Poderia ficar marcado e ser alvo de preconceito. Mas Mamberti enxergou ali um discurso social: era a primeira vez que um personagem gay assumia o protagonismo de forma realista, além de a peça ser toda centrada em minorias marginalizadas, algo em que o dramaturgo Plínio Marcos foi pioneiro. Décadas depois, na novela Vale Tudo (1988), o artista faria sucesso como o servil, porém combativo mordomo Eugênio, que não calava a boca diante da arrogância e das injustiças da vilã Odete Roitman. Já no programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum (1994), Mamberti encarnou o personagem Tio Victor, que até hoje tem marcado gerações de crianças e jovens.

Para Dirceu, foi um desafio seguir o desejo de Mamberti de que ele, o jornalista, “assumisse a sua voz” e escrevesse o livro em primeira pessoa, exercendo, de fato, a cumplicidade de dois autores. “Acho que conseguimos isso. Quando releio, muitas vezes ouço a voz do Sérgio. Fui muito fiel às expressões que ele usa e na hora de descrever suas emoções ou indignações, pelo menos da forma como captei”, ressalta.

Uma das características do livro é o aspecto narrativo, que parte da memória familiar e das primeiras histórias da infância e chega aos dias atuais. Os primeiros anos e a juventude em Santos, na década de 1940, não foram convencionais nem conservadoras: sua mãe era professora primária de uma escola pública, dividia as tarefas domésticas com o marido e criou os dois filhos, Sérgio e o também futuro ator Cláudio Mamberti, com total liberdade. O fato de ter crescido em Santos – cidade portuária acerca de 80km da capital paulista que, durante a Segunda Guerra, recebeu gente de diversos países e costumes – também foi relevante para a sua formação e atuação.

Mamberti militou com muita cautela na década de 1960, principalmente depois do começo da ditadura civil-militar, porque sabia que estava começando uma carreira e não queria expor a família. O artista nunca negou sua bissexualidade e atravessou com liberdade os tempos da contracultura. O grande amor por Vivian, porém, o levou a um sólido casamento, e os dois tiveram três filhos, vivendo intensamente essa união até a morte dela, no começo de 1980.

No âmbito da militância política, atuou para manter a autonomia da produção cultural. Ligado ao Partido dos Trabalhadores (PT), ele participou das campanhas e dos governos de Lula e de Dilma Rousseff. Conviveu intimamente com o presidente eleito em 2002 e trabalhou no Ministério da Cultura, à frente de diversas secretarias, até 2013. Sobre essa experiência, Mamberti relata:“Fui capaz de enfrentar um desafio para o qual vinha me preparando desde a juventude, o de colaborar diretamente com o meu país com a vitória de Lula para a presidência da República. Apoiado por todos, coloquei o cidadão em primeiro plano e assumi um compromisso político”.

Senhor do meu tempo? Mamberti elucida: “O avanço da idade me estimulou a me envolver em inúmeros projetos, sem perder tempo. Aproveito da melhor forma possível os anos úteis que tenho pela frente, talvez cinco, quem sabe dez, talvez até mais, não importa. Sei que já cheguei bastante longe. Raras pessoas alcançam a minha idade com a mesma saúde e disposição. Fernanda Montenegro, Lima Duarte e Laura Cardoso são honrosas exceções que chegaram aos 90 anos em plena atividade. Tenho vigor, energia, e comigo aconteceu algo que me favorece muito como ator: a minha voz não envelheceu. Passei dos 80 anos na casa da rua dos Ingleses, o meu lugar no mundo, o lugar em que atravessei a maior parte da vida e me cerquei daqueles que amo. Começo, incansável como sempre, a vislumbrar os novos caminhos que pretendo trilhar. Todos serão plenos de vivências e aprendizados, alimentados sempre na esperança de que dias melhores virão”.
 


Trecho do livro

 

*Serviços:
Bate-papo de lançamento do livro Sérgio Mamberti: senhor do meu tempo
Com Sérgio Mamberti, Dirceru Alves Jr. e Danilo Santos de Miranda, ditetor regional do Sesc São Paulo.
Dia 28 de maio de 2021, sexta-feira, às 19h.
Transmissão ao vivo pelo canal do YouTube do Sesc Consolação.

Bate-papo de sobre o livro Sérgio Mamberti: senhor do meu tempo
Com Sérgio Mamberti, Dirceru Alves Jr. e Danilo Santos de Miranda, ditetor regional do Sesc São Paulo.
Dia 10 de junho de 2021, quinta-feira, às 21h.
Transmissão no canal da PUCRS no YouTube ou na página da PUCRS Cultura no Facebook

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