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postado em 21/05/2018

Da hesitação à certeza

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Em Não existe amor perfeito, Francis Wolff busca definir o amor a fim de esclarecer, justificar e acomodar em nós a inquietude de sua intrínseca, absoluta e humana imperfeição

Por Franklin Leopoldo e Silva*

 

Na tradição intelectual do ocidente, o amor foi primeiramente definido pelos filósofos como o amor à verdade ou a relação erótica com as essências, de que falava Platão e segundo a qual o amor humano deveria ser considerado apenas como uma aparência do Amor essencial.

Mas a primeira desconfiança surge exatamente aí: será o filósofo alguém habilitado para definir o amor? Afinal, uma poderosa tradição, que tem o seu início exatamente em Platão, exige de nós que superemos os afetos e os instintos, e não façamos do sentimento o guia da conduta, já que isso a faria perder a racionalidade, critério maior da vida e do conhecimento.

Entretanto, algo talvez mais poderoso do que a tradição racionalista nos incita a reconhecer a realidade do amor, mesmo em suas imperfeições e sob os riscos da aparência.

A partir daí, o filósofo que não ignora o mundo da sensibilidade tratará o tema do amor de acordo com as ambiguidades inerentes à imperfeição e à finitude dos seres humanos. Ele concordará que o amante tem, sim, algo a dizer a respeito do amor, ainda que sua ideia de amor esteja irremediavelmente comprometida com seus sentimentos profundos, aos quais ele mal pode controlar.

O amor será, então, como nos diz o mito, um misto de pobreza e opulência, engendrado pela união íntima da divindade e do humano.

Essa mescla, necessariamente confusa nas suas “regras”, nos seus “componentes” e nas suas “fronteiras”, exige do filósofo que se disponha a compreendê-la com uma atitude igualmente heteróclita, talvez a única apropriada às condições do exercício do amor. Poderíamos dizer, sem jogo de palavras, que essa atitude difícil seria a única capaz de fazer o sentimento amoroso expor-se de alguma maneira à nossa compreensão.  A leitura deste livro [Não existe amor perfeito] nos fará ver que é algo desse tipo que faz Francis Wolff, em sua bela e corajosa incursão.

De um lado, a análise; de outro, a apreensão intuitiva. De um lado, as regras da razão; de outro, a sensibilidade do coração. Um filósofo capaz de mover-se com desenvoltura entre estilos distintos, como a investigação grega e a representação moderna do mundo e dos homens, poderia, transitando com segurança por essas fronteiras instáveis e por essas diferenças sutis, apreender a interrogação que nos coloca diante do “indefinível” e das diferenças obscuras de uma heterogeneidade vivida.

Assim, quem sabe, poderíamos assimilar, sem explicar, a experiência do amor como a súbita e inexplicável passagem da hesitação à certeza. 

 


* Franklin Leopoldo e Silva é professor de filosofia da Universidade de São Paulo e da Faculdade São Bento. Este texto foi originalmente publicado na orelha do livro.
    

Veja também:

:: Trecho do livro

 

 

 

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