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postado em 08/08/2018

Lévi-Strauss e o nosso tempo

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Biografia sobre o antropólogo mostra como seus pensamentos ainda moldam o mundo de hoje e é tema de bate-papo na 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

Por Gustavo Ranieri*

 

As ideias do antropólogo, professor e filósofo belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009) foram mais do que importantes. Elas acabaram moldando muito do pensamento contemporâneo, especialmente depois que o mundo tomou contato com as atrocidades cometidas pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Isso está completamente analisado nas quase 800 páginas da biografia que leva seu nome, escrito pela historiadora francesa Emmanuelle Loyer. A obra foi lançada originalmente em 2015 e chegou no Brasil pelas mãos das Edições Sesc São Paulo.

Para Lévi-Strauss, não havia nada tão sagrado e fundamental do que a diversidade entre os povos. O texto Raça e história, encomendado a ele pela Unesco e publicado em 1952, atesta suas convicções de que nenhuma raça é superior a outra e, portanto, não pode haver uma hierarquia entre os povos.

O que nem todos sabem é que o filósofo teve uma importante relação com o Brasil em meados dos anos 1930, quando ele foi por três anos professor na recém-criada Universidade de São Paulo. Nesse período, realizou viagens para travar contato com povos indígenas, desenvolvendo estudos etnográficos e ajudando a compreender a cultura deles.

Esses e outros assuntos que cercam o livro e a vida do pensador serão levantados durante um bate-papo entre os com os antropólogos Marta Rosa Amoroso e Orlando Calheiros, às 19h30 desta quarta-feira, no Estande Edições Sesc, durante a 25ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo (Confira a programação completa aqui).

É com Marta Amoroso, inclusive, que conversamos brevemente para apresentar às novas gerações algumas das ideias de Claude Lévi-Strauss. Leia a seguir:

 

Qual foi, em sua opinião, a contribuição mais essencial da cultura brasileira para o trabalho de Lévi-Strauss?
Lévi-Strauss considerava que a sua curta estadia no Brasil (1936-1938) “foi o grande período de nossas vidas” (Saudades de São Paulo). O Brasil foi o país que ele conheceu na juventude, aos 27 anos de idade e foi aqui que ele se definiu profissionalmente pelo exercício da antropologia. Sobre a contribuição da cultura brasileira ao pensamento de Lévi-Strauss, haveria que pluralizar essa noção de “cultura”. Diria que a experiência de Brasil que marcou sua trajetória foi a do encontro com os povos indígenas. Foi no Brasil que Lévi-Strauss realizou seu trabalho de campo entre os Bororo, Kadiwéu e os Nambiquaras e iniciou a elaboração de um projeto de refundação da antropologia que desse conta do ponto de vista das diversas populações humanas. 

Em Raça e história Lévi-Strauss critica a hierarquização de diferentes raças, de diferentes culturas. Já se passou mais de meio século da publicação deste ensaio, mas a problemática ainda é presente. O que, em sua opinião, ele diria a respeito neste 2018?
Raça e história é uma obra de intervenção antirracista no debate ético e político do pós-guerra, texto fundamental contra o preconceito racial. É também um manifesto dirigido à ideia de progresso como único modo de existência – aquele inspirado no esgotamento dos recursos da natureza. Neste texto, Lévi-Strauss apontava para uma pauta atual da antropologia, me refiro às pesquisas realizadas junto aos povos indígenas e tradicionais voltadas para a reflexão sobre a biodiversidade associada aos modos não ocidentais de cultivo da terra. Voltando para a sua pergunta, o texto é atualíssimo, estamos às voltas com questões que ele apontava já em 1952, quando indicava os limites da ideia de progresso e a renovação que o conhecimento de outros modos de existência poderia representar no futuro.

Um dos conceitos tão bem abordados por Lévi-Strauss se refere à bricolagem (a definição mais crua seria apontar as pessoas que colocam a mão na massa para executar algo que necessitam sem depender da ajuda de um profissional). E, na prática, vivemos um período com um alto número de bricoleurs. Poderíamos acreditar que a bricolagem de várias culturas, se assim pudéssemos chamar, graças a web e em busca da formação de uma própria identidade, irá moldar o século 21?
Na sua pergunta o termo é mobilizado para pensar que a proximidade e as trocas entre as diferentes culturas farão do século 21 um cenário de intensa bricolagem. Podemos concordar com isso, desde que uma segunda operação, igualmente destacada por Lévi-Strauss, seja também considerada:  a necessidade intrínseca dos coletivos humanos de construir a diferença, que é constitutiva da ideia de 'sociedade’. Nas palavras do mestre: “Podemos nos perguntar se essa diversificação interna não tende a aumentar quando a sociedade se torna, noutros aspectos, mais volumosa e mais homogênea (...). Percebe-se que a noção de diversidade das culturas humanas não deve ser concebida de modo estático. Não se trata da diversidade de uma amostragem inerte ou de um catálogo ressecado. Os homens certamente teriam elaborado culturas diferentes em razão do distanciamento geográfico, das propriedades particulares do meio e por desconhecimento do restante da humanidade? Isso só poderia ser rigorosamente verdade se cada cultura e cada sociedade tivesse surgido e se desenvolvido isoladamente em relação à todas as demais. Pois bem, nunca é esse o caso (...). As sociedades humanas nunca estão sozinhas, mesmo as que parecem mais afastadas, ainda o são em grupos ou pacotes.” [(1952) 2013: 361-362]

 

*Gustavo Ranieri é escritor e jornalista

 

Veja também:

:: Trecho do livro

 

 

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