Sesc SP

postado em 16/07/2020

Divina e centenária

Foto Fundo Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo
Foto Fundo Última Hora/Arquivo Público do Estado de São Paulo

      


Ícone do samba-canção e uma das mais importantes vozes da música brasileira, Elizeth Cardoso é celebrada nos cem anos do seu nascimento
 

Tamanha era sua importância e prestígio, que já no início de sua carreira o ator, escritor e sambista Haroldo Costa selou o apelido que a acompanhou do começo dos anos 1950 até a sua morte, aos 69 anos, em 1990: A Divina.  Portanto, celebrar o centenário da cantora Elizeth Cardoso neste 16 de julho é também homenagear o samba-canção, ritmo do qual ela foi ícone e que durante quase 30 anos, na primeira metade do século 20, marcou a música brasileira de forma profunda ao cantar as dores do amor.

Carioca de família muito humilde, a cantora era filha do seresteiro Jaime Moreira Cardoso, que por sua vez tinha entre seus amigos os músicos Pixinguinha, Dilermando Reis e Jacob do Bandolim. Foi Jacob, inclusive que a convidou para cantar e, impressionado com sua voz, a levou para um teste na Rádio Guanabara. Não só foi aprovada com louvor, como sua carreira deslanchou e não parou mais de crescer, especialmente após o primeiro LP, Canções à meia-luz, em 1955. Em oito faixas, algumas com arranjos de Tom Jobim, o disco revela o predomínio de sambas-canção, destacando-se Canção da volta, Se o tempo entendesse, e, a apontada melhor interpretação de Linda flor, considerado o primeiro samba-canção da história. Depois, entre gravações solos, ao vivo e acompanhada por conjuntos, lançou mais de 40 álbuns.
 


“Elizeth converteu-se em atração nacional e internacional sobretudo com temporadas no Uruguai, nos anos 1950, e mais tarde no Japão, onde gozava de imenso prestígio. Considerada cantora de grã-finos, o que muito a irritava, fez célebres temporadas com Silvio Caldas no Vogue do Rio e na boate Oásis de São Paulo, em espetáculos inesquecíveis para os privilegiados que puderam assistir aos dois juntos. No palco, pareciam concentrar a história da canção brasileira”, escreve o musicólogo e jornalista brasileiro Zuza Homem de Mello no livro Copacabana: a trajetória do samba-canção (1929-1958), lançado pelas Edições Sesc São Paulo e Editora 34 há dois anos.

Na publicação, referência para aqueles que desejam conhecer com profundidade essa fase de ouro da música nacional, o autor conta que Elizeth, de criação rígida, mantinha uma vida pessoal muito discreta, em contraste com a carreira extensa e agitada. “Admirada e cortejada por cantores, compositores, músicos, empresários do show business, jornalistas, futebolistas, radialistas, empresários e intelectuais, que a decantaram em prosa e verso, Elizeth também arrebatou figuras internacionais como Louis Armstrong, Nat King Cole, Roy Hamilton, Sarah Vaughan e o compositor e arranjador Clare Fischer”, escreve Zuza.

Em 1987 Elizeth foi diagnosticada com um câncer no estômago. Apesar da debilidade física nos últimos três anos de vida, continuou a cantar, ainda que subisse no palco e não conseguisse concluir a apresentação. Dessa fase, Zuza Homem de Mello recorda na publicação um episódio que muito o marcou. “Em 11 de maio de 1989, quando ela já estava consciente de seu estado de saúde, tive a honra de dirigir um de seus últimos espetáculos, no Museu da Imagem e do Som de São Paulo, com a participação de Paulo Moura. Apesar do compreensível abatimento físico, que o público não percebeu, cantou com frescor, elegância e domínio absoluto em cada intervenção, incluindo os erres guturais a que só ela se dava o direito. A tão amada Elizeth Cardoso cantou com classe e meiguice, sem que soasse como uma despedida.”

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