Sesc SP

postado em 22/01/2021

Tempo Tátil

Fotografia que ilustra a capa de Tempo Tátil | Foto: Ralph Baiker
Fotografia que ilustra a capa de Tempo Tátil | Foto: Ralph Baiker

Entre as especialidades do filósofo Vladimir Safatle, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), que também é músico, compositor e pianista, está o trabalho de pensar os desafios da composição atual através de estratégias de emancipar o tempo, ou seja, liberar o tempo musical de seus desdobramentos no interior de um campo sem estruturas predefinidas. Como se tratasse de ser capaz de viver em um espaço no qual não se conta nem se mede. Espaço no qual podemos sentir o desfibramento material do tempo. É pensando em problemas dessa natureza que Safatle abre o ano de 2021 lançando o seu segundo disco de composições, “Tempo Tátil” (Selo Sesc) depois de ter lançado “Musica de superfície” (Tratore, 2019).

São músicas instrumentais próprias sob estruturas variadas, com piano, voz, instrumentos de cordas, sopro e percussão, interligadas com trechos de obras conhecidas, com o uso de textos autorais e fragmentos de poemas de autores consagrados, como do poeta, tradutor e ensaísta Paul Celan (1920-70), romeno radicado na França, do escritor, romancista e roteirista norte americano Scott Fitzgerald (1896-1940) e do poeta francês Paul Eluard (1895-1952).

E o lançamento do disco de “expressões estranhas à gramática de afetos que colonizam nossas formas de experiência”, como destaca Safatle, será desfragmentado por faixas, a começar pela peça “O amor vai desterrar nossos corpos”, disponível nos principais serviços de streaming na internet a partir do dia 22 de janeiro. 

Sobre a obra composta pelo pianista em cima do poema Er war Erde in Ihnem (Havia terra neles), de Paul Celan e traduzido pelo próprio músico e filósofo, Safatle lembra desse comentário de Celan: “Mas ao mesmo tempo são também, em tantos outros caminhos, caminhos nos quais a língua se torna sonora, são encontros, encontros de uma voz com um Tu perceptível, caminhos de criaturas, esboços de existência talvez, um antecipar-se para si mesmo, à procura de si mesmo … Uma espécie de volta à casa” (Celan, Paul; Meridiano).

Em O amor vai desterrar nossos corpos, Vladimir Safatle (piano) tem a companhia da soprano Caroline De Comi, uma das mais versáteis cantoras líricas brasileiras da nova geração com atuação no repertório operístico como na música de câmara e contemporânea, e do violinista Renan Vitoriano, atual spalla da GRU Sinfônica, corpo artístico ligado ao projeto Música nas Escolas da cidade de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo.

A obra é acompanhada por um vídeo produzido pela artista Dora Longo Bahia especialmente para esse trabalho. Assista.

 

Tempo Tátil

Composto, em sua maioria, entre 2008 e 2020,  essas peças marcam o abandono da exploração da forma-canção, como vemos no primeiro trabalho de Safatle, “Música de superfície”. Aqui, as peças giram em torno de um trabalho de liberação do tempo musical de seus esquemas estruturais. Isso produz peças que se desdobram entre o desfibramento, com um imobilismo aparente que é, na verdade, forma, de liberar os sons ao desenvolvimento de relações laterais, e a pulsação, como se a repetição pudesse fazer o papel de sustentação de um processo que se recusa conscientemente a andar para frente.

Desfibramento e pulsação são também formas de confrontar o fantasma originário brasileiro, esse mesmo que nos ensina que aqui é uma terra sem estrutura, sem lei, sem continuidade, sempre assombrada pelo amorfo. Uma música fiel a seu conteúdo de verdade deve então saber não fugir de tal fantasma, produzindo a partir exatamente daquilo que nos ensinaram como sendo improdutivo.

Datas de lançamento dos singles

22 de janeiro: O amor vai desterrar nossos corpos [ouça/assista]
5 de fevereiro: Três peças para gestos ao piano .II [ouça]
12 de fevereiro: Três peças para gestos ao piano .III [ouça/assista]
19 de fevereiro: Instância e explosão
5 de março: O Solfejo de nossas filhas
19 de março: Espaço Liso