Sesc SP

postado em 21/11/2018

Mônica Salmaso - Corpo de Baile

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Numa das melhores definições possíveis, o intérprete é aquela pessoa que traduz a outrem numa língua o que ouve noutra. Nessa transposição, entre o processo de ouvir, ler e falar, o intérprete naturalmente pode trazer consigo a descoberta do sentido e do significado de algo. Praticamente um novo significado. Tomando a liberdade de ampliar as ideias de língua para linguagem, aí vem de carona o teatro, o cinema e, é claro, a linguagem musical.

O curtíssimo prólogo vem a calhar aqui, pois num país tomado por grandes cantautores, compositores e intérpretes, faz se valer a força de entregar, além do ato de dar a forma do som à composição escrita, a recriação de uma nova obra. E é aqui que começa o trabalho de Mônica Salmaso e Walter Carvalho em Corpo de Baile.

Em 2004, Mônica pediu aos compositores Guinga e Paulo César Pinheiro, dois parceiros que mantiveram uma produção invejosa entre os anos 70 e 80, para que escutassem o “baú” das canções da parceria que ainda se mantiveram inéditas. Em meio fitas puídas, anotações de letras em prontuários médicos (sim, do dentista Guinga) e papéis corroídos pelo tempo, a intérprete encontrou o seu álbum de carreira, o projeto pessoal ao qual se debruçaria pelos próximos dez anos.

Bolero

Manuscrito de “Bolero de Satã” gravada por Elis Regina e Cauby Peixoto em 1979

Em dez anos, ligações recheadas de trechos musicais perdidos, arranjos rascunhados e áudios do whatsapp - "Cadê o trecho que tá faltando nessa aqui, Guinga?”, Mônica entendeu junto com Teco Cardoso, produtor de Alma Lírica, seu último álbum até então, que seria bonito vestir as canções através de personalidades musicais de alguns arranjadores. Foi aí que então contou com a escalação de Luca Reale, Tiago Costa, Dori Caymmi, o próprio Teco, Paulo Aragão, Nailor Proveta e Nelson Ayres para conceber os arranjos do disco que saiu em 2014 pela gravadora Biscoito Fino.

Sedutora

Letra da inédita “Sedutora” que Guinga anotou num prontuário

Corta para 2014. Com o disco em mãos e sabendo que o trabalho era mais robusto que os anteriores e que seria praticamente impossível realizar um show com uma formação pequena, Mônica recorreu ao premiadíssimo diretor paraibano Walter Carvalho. Inspirada num concerto de Respighi da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, com a participação do grupo teatral La Fura Dela Naus e contando com o mergulho de Walter na criação e produção de um vídeo-cenário, nasceu a turnê Corpo de Baile. Com nada menos do que a companhia dos arranjadores e também do Quarteto Carlos Gomes, comandado pelo maestro Cláudio Cruz, o show rodou cidades no Brasil e se transformou num veículo de magia e de poesia pelo qual a música é comunicada.

E se o ato de interpretar é também se fazer entender através de outra língua, a linguagem audiovisual proposta por Walter transcende a proposta de um show filmado, com uma leitura criativa do show, usando a captação de imagens através de um tule ao qual se vê os músicos e a fusão de imagens projetadas de uma maneira orgânica. O resultado é uma experiência audiovisual em que a memória de canções sedimentadas pelo tempo extrapolam a tela.

Em dezembro, o Selo Sesc lança o resultado desta incursão de Walter e Mônica pelo resgate da poética da música brasileira em DVD e Corpo de Baile vira novamente show de lançamento nos dias 1 e 2 de dezembro no Sesc Pinheiros.

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