VANZOLINI: O homem de moral que deu a volta por cima

11/01/2023

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Arte: Frederico Zarnauskas

Nesta coluna, a jornalista Celia Moreira dos Santos apresenta textos sobre encontros e situações que vivenciou em sua carreira, atuando no campo cultural em artes, teatro e música.

por Celia Moreira dos Santos* 

Volta por cima. De onde surgiu esta expressão, devidamente registrada pelo Aurélio? Poucos sabem. Foi um termo inventado pelo cientista e compositor Paulo Vanzolini. Está na música “Volta Por Cima”, gravada pelo cantor Noite Ilustrada e que foi o seu primeiro grande sucesso musical. Vanzolini estava em viagem científica, no norte do país e o Brasil inteiro já cantava a música. Ficou estupefato quando retornou da viagem.

Afinal, o que quis dizer com ‘Volta por cima’? Vamos ao trecho da música, onde ela aparece:
“Chorei, não procurei esconder, todos viram, fingiram, pena de mim não precisavam ter. Ali, onde eu chorei qualquer um chorava, dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava”.

Assim definia o sentido da expressão: “É uma restruturação de nós mesmos, vencer uma situação adversa com dignidade, superação dos problemas, expressar como um guerreiro num campo de batalha. Enfim, é uma superação de dificuldades com dignidade”. O termo praticamente virou lugar comum para muita gente e tão importante que foi citado por Glauber Rocha no filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Respeito e reconhecimento

Compositor que expressava o cotidiano da cidade, dos seus personagens, dor, alegria e esperança, foi respeitado tanto pelo mundo científico como pelo musical. Deu a “volta por cima” em duas áreas totalmente diversas. Era doutorado por Harvard, diretor do Museu de Zoologia das USP, descobridor de várias espécies de bichos e, ao mesmo tempo o compositor de “Ronda”, tradução da sua vida boêmia.

Em “Ronda”, outra controvérsia. Todos conhecem a música: é uma das preferidas dos cantores, dos calouros, sendo cantada tanto em lugares sofisticados, como também nas churrascarias pelo Brasil adentro. Ele colocou esse nome em lembrança aos seus tempos de cabo, quando fazia rondas pela cidade. Fala da mulher que ronda a cidade à procura de alguém. Vanzolini contava que esta mulher não tinha nome, era anônima, desconhecida, frequentadora da noite. Mas, sim, existe um fato verdadeiro. Ele viu várias vezes na noite, uma mulher que entrava nos bares. “Parecia estar procurando alguém. Espiava e ia embora”.

Boemia

Ficava no Museu de Zoologia desde as oito e meia da manhã, até as 19 horas. Daí saia para a noite. Gostava de ouvir música nas boates, nos bares. Era conhecido pelos músicos, cantores. Durante muito tempo foi frequentador assíduo do bar e boate “Jogral”, do seu grande amigo, Luiz Carlos Paraná. E muitos paulistanos o viram por diversas vezes se passando por garçom. Vestia o jaleco e lá ia de mesa em mesa atendendo aos pedidos e servindo os pratos.

No “Jogral”, era chamado pelos frequentadores de “Paulinho”, que também se tornou seu nome por muitos boêmios da noite. Foi amigo muito próximo de Sergio Buarque de Holanda e, sempre assim se referia a Chico Buarque, filho do sociólogo. “É um gênio, nasceu pronto. Imagina só, compor ‘Pedro Pedreiro’, na mais tenra idade!”

Eu o conheci quando fui, numa noite, até o “Opera Cabaré”, um bar e restaurante que existia, na Rua Rui Barbosa e que estava no auge de sucesso, com shows de cantores famosos. Ele cachimbava, ria, tomava cerveja e ouvia música. O cachimbo era inseparável. A estrela da noite era Dona Ivone Lara e ele se encantou pelos versos da música “Sonho Meu”: “a madrugada fria só me traz melancolia sonho meu”. E disse: “quem me dera ser o autor desses versos”. Gostava de músicas que podiam ser verdadeiros poemas.

No museu

A partir daí, fui muitas vezes ao Museu, onde ele ficava numa sala enorme, cheia de bichos em vidros de formol. E, muitas vezes o vi pesando e medindo lagartixas, cobras, contando as escamas de uma cascavel. O museu tinha 1200 exemplares de bichos quando assumiu. Chegou a ter uma coleção de répteis de mais de 20 mil exemplares.

Viajava muito pelo Brasil afora, em expedições científicas, sempre à procura de bichos, de novas espécies. Descobriu e catalogou muitos, que levam o seu nome. Numa dessas viagens, conta a lenda que avistou uma cobra e gritou para os que o acompanhavam: “Pega! Pega! Pega!”. A cobra foi pega, sendo necessários quatro homens para carregá-la. Pode não ser lenda, já que ele nunca desmentiu a história. E a cobra lá foi para a coleção.

Sempre que chegava nas viagens, se aproximava dos ribeirinhos perguntando por bichos. Numa dessas incursões pela mata ouviu “Cuitelinho”, canção recolhida por ele e logo transformada em sucesso na voz de vários cantores. Quem já não ouviu a canção “cheguei lá, na beira do porto onde as ondas se espalham, a garça dá meia volta e senta na beira da praia, e o cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia, ai, ai.” Cuitelinho é o nome genérico para beija flor.

Tinha paixão pelo seu trabalho: “Saio daqui todos os dias, já com vontade de voltar”. Recebia visitantes de outros países para compartilhamento de conhecimentos. O seu inglês era tão perfeito que muitas vezes o vi fazendo correções do inglês em textos de americanos. E para todos era o mestre dos mestres.

Ele se animava muito mais para falar de répteis do que de música. Na casa onde viveu, no Cambuci, vivia cercado de cobras e lagartos conservados em formol. Colocou a herpetologia na boca de leigos. A sua biblioteca foi parcialmente financiada pelos direitos autorais das suas músicas.

Polivalente

Criou sambas antológicos e, ao mesmo tempo, uma ciência de altíssimo nível. Não tocava instrumentos. Não sabia ler música. Precisava de um músico para colocar em pautas as músicas que tinha na cabeça, tamborilando com os dedos e indicando: “agora mais pra baixo, agora mais pra cima, o som é este”. E as letras, verdadeiras obras literárias, chegavam prontas na sua cabeça. Mas era extremamente exigente. A canção vinha com a letra, mas ele ia fazendo correções à exaustão. Muitas vezes demorava mais de ano para finalizar uma música. Era um perfeccionista.

Um dos músicos com os quais traduzia suas músicas era o cantor Adauto Santos, que conheceu na noite. Vanzolini sempre dizia: “Acho que sou o único músico que não conhece a diferença entre tom menor e tom maior”.

Nunca existiu rivalidade entre Paulo Vanzolini e Adoniran Barbosa, os dois compositores mais famosos na criação de personagens e da alma paulistana. Os dois se admiravam. Vanzolini considerava Adoniran como o grande cronista da cidade e o chamava de “Seu Barbosa”. Adoniran, por sua vez, o admirava e dizia: “Ele é um homem de saber, um doutor, sabe falar direito”.

Recebeu a Cruz do Mérito Científico pela “Fundação Guggenheim”, em Nova Iorque, em razão de suas contribuições para o progresso da ciência. Foi promovido a “Grande Oficial da Ordem do Ipiranga”. E também recebeu uma homenagem inusitada da Escola de Samba “Mocidade Alegre”, com o samba enredo “O cientista poeta”.

Prometera não desfilar na Avenida, “mas chegando na concentração lá já estavam Inezita Barroso, Marcia, Claudia Morena, daí, não pude me negar ao desfile. Subi no carro alegórico”. E os que o viram na Avenida, dizem que desfilou sambando.

Samba-Enredo 1988 – O Cientista Poeta – Paulo Vanzolini

Que maravilha o cientista e poeta
Paulo Vanzolini num berço da poesia
A mocidade hoje traz
Derramando a sua arte
Deus lhe pague as suas obras
Não esquecerei jamais
Foi assim que começou
No Butantã o menino se encantou
E seguindo seu caminho
Sempre sozinho
Em verdes matas
Veja o que ele encontrou
Ê cadê você
Fui procurar o jacaré
O lagarto e a cobra venenosa
Ela arma o bote e pica e faz doer
De noite eu rondo a cidade
Em busca de paz e de amor
Uma triste cena aconteceu
Que abalou meu coração
Na avenida são João
Ôô, ôôôô, ai que saudade que me dá
Oi deixa a lira me levar
Levanta sacode a poeira dá volta por cima
Entra na roda quero ver você sambar.

Quando eu me for, eu vou sem pena

Em uma entrevista concedida a Drauzio Varella, que foi seu aluno na Escola de Medicina, este lhe perguntou: “Você é um homem feliz?”. Ele respondeu: “Não sei qual foi o filósofo se Sólon ou Thales, que disse só ser possível julgar uma pessoa, se foi feliz ou não, depois de sua morte, porque é imprescindível também ter uma morte feliz”.

“Quando Eu Me For, Eu Vou Sem Pena” foi uma das suas últimas composições, sendo gravada por Chico Buarque:

“Quando eu me for eu vou sem pena, pena vai ter quem ficar, quando eu for, eu vou sem pena, pena vai ter quem ficar, o que eu fiz é muito pouco, mas é meu e vai comigo, deixei muito inimigo, andei direito, agasalhei neste peito muita cabeça chorando, morena minha até quando você de mim vai lembrar”

Sucessos

“Ronda”, “Volta Por Cima”, “Samba Erudito”, “Praça Clóvis”, “Chorava No Meio Da Rua”, “Na Boca Da Noite”, “No Fim Não Se Perde Nada”, “Boba, Noite Longa”, “O Rato Roeu a Roupa do Rei De Roma”, “Longe De Casa”, “Alberto”, “Capoeira Do Arnaldo”, “Tempo E Espaço”, “Amor De Trapo E Farrapo”, “Dançando Na Chuva”, “Seu Barbosa”, “Sorrisos”, “Teima Quem Puder”, “Toada De Luís”, “Valsa Das Três Da Manhã”, “Vida É A Tua”, “Cuitelinho”, “Mente”, “Boneca”, “Falta De Mim”, “Leilão”, “Maria Que Ninguém Queria”, “Mulher Toma Juízo”, “Não Vou Na Sua Casa”, “Pedacinhos De Céu”, “Choro Das Mulatas”, “Condição De Vida”, Morte E Paz”, “Bandeira De Guerra”, “Cravo Branco”.

Acerto de contas

“Acerto De Contas”, box de quatro CDs com composições de Vanzolini foi lançado com show no Sesc Vila Mariana. Na ocasião, ele declarou: “Ali tem tudo o que eu me lembro de ter composto”. São ao todo 52 faixas, entre elas os sucessos “Ronda” e “Boca Da Noite”, na voz de Márcia, “Volta Por Cima”, por Ventura Ramirez, e “Praça Clóvis”, que Ana Bernardo “empresta” de Chico Buarque, agora contente com a sua “Quando Eu For, Eu Vou Sem Pena”.

Outra inédita aparece no segundo CD: “Samba Triste”, lamento sobre a decadência do Centro de São Paulo. Interpretada por Ana de Holanda, a faixa fala em “luzes amortecidas”, “almas vencidas”, “mariposa de asas queimadas”, “desencanto”…

“Sei que é uma bobagem grande querer revitalizar o Centro. A história se faz sozinha. Mas, de minha parte, continuo frequentando a Rua do Choro e as rodas de samba. Estou chegando aos 80 e tenho que acertar as contas com os músicos da noite. Os discos são uma homenagem e uma forma de lhes pagar o que devo”.

*Celia Moreira dos Santos: Jornalista que trabalhou durante anos com produções de textos diversos e entrevistas especiais para as revistas Veja, Exame, Claudia, Afinal, Playboy, UP Date e o jornal Folha de São Paulo.

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