
Por Cris Oliveira e Sonia Lima*
No Capão Redondo,
o território aprende a respirar
pelas mãos das mulheres.
Mãos que conhecem o peso do dia,
o cansaço acumulado,
a pressa do mundo
e ainda assim desaceleram.
O chão é duro,
mas a vida insiste.
Insiste nos corpos que ficam,
nas histórias que não foram embora.
Entre uma rua e outra,
entre o barulho do ônibus
e o resto de conversa que sobra no ar,
alguém começa a trançar um cabelo.
O gesto nasce simples
e se alonga no tempo.
Não é só estética.
Nunca foi.
É memória em movimento.
É um saber que atravessa gerações
sem pedir licença.
As Trancistas do Capão
sentam juntas
e criam um espaço
que não aparece no mapa,
mas existe.
Existe no cheiro do creme,
no som do pente,
no riso que escapa,
no silêncio que acolhe.
Pode ser uma sala simples,
uma casa emprestada,
um canto improvisado.
Quando as mãos se encontram nos fios,
o território muda de sentido.
Deixa de ser passagem
e vira permanência.
Vira abrigo.
Vira escuta.
Vira lugar
onde ninguém precisa se explicar demais
para ser aceita.
Trançar é trabalho paciente.
Exige tempo,
presença,
cuidado.
Exige atenção ao couro cabeludo,
respeito ao limite do outro,
confiança construída fio a fio.
Enquanto os fios se cruzam,
as histórias aparecem:
histórias de quem veio antes,
de quem luta para ficar,
de quem escolheu existir
fora das normas.
Histórias que não cabem nos registros oficiais,
mas sobrevivem na oralidade,
na troca,
no toque.
Mulheres periféricas,
mulheres negras,
mulheres trans,
pessoas LGBTQIAPN+
encontram nas tranças
um lugar de proteção.
Ali,
o corpo não é alvo —
é território respeitado.
Há mãos que ensinam mais que técnicas.
Ensinam autonomia.
Ensinam que empreender
não precisa apagar a ancestralidade.
Que um saber historicamente desvalorizado
pode virar renda,
dignidade,
futuro.
Mais de cinquenta mulheres
carregam essa certeza:
o território periférico
produz conhecimento,
produz beleza,
produz caminhos possíveis.
No Capão,
resistir não é só confronto.
Resistir é permanência.
É estar todos os dias.
É insistir no cuidado
quando tudo empurra para o abandono.
É ensinar e aprender ao mesmo tempo.
É acolher sem prometer soluções fáceis.
É criar rede
onde antes havia isolamento.
É dizer, sem levantar a voz:
aqui também é seu lugar.
A resistência mora no detalhe:
no cuidado com o couro cabeludo,
na escolha do desenho da trança,
no tempo dedicado
a cada pessoa sentada na cadeira.
Há um saber antigo
que guia essas mãos.
Um saber que não veio dos livros,
mas de mulheres que trançaram antes,
em outros tempos,
em outros territórios.
As tranças sempre foram abrigo:
nos navios,
nas fugas,
nos rituais,
nos dias comuns.
Trançar era proteger a cabeça
e guardar a memória.
Era esconder sementes.
Era sustentar a dignidade
quando tudo tentava arrancá-la.
Esse cuidado atravessou gerações
e chega hoje ao Capão
como herança viva,
adaptada ao presente,
sem perder a raiz.
Quando uma mulher cuida
do cabelo da outra,
cuida do que não se vê:
da autoestima ferida,
do medo acumulado,
da solidão cotidiana.
O tempo da trança
desacelera o mundo.
Suspende a urgência.
Cria pausa.
Ali, ninguém é descartável.
Cada fio importa.
Cada pausa é respeitada.
Cada corpo é tratado
como território sagrado.
A ancestralidade não está só
no desenho das tranças,
mas na forma de estar junto.
No aprendizado coletivo.
Na paciência compartilhada.
Na proteção que não pergunta demais.
É um cuidado que não controla,
não exclui,
não diminui.
É o cuidado que fortalece.
Que diz, sem palavras:
você pertence.
Seu corpo é digno.
Sua história tem valor.
Cada trança feita
é uma escolha política,
mesmo quando não se diz em voz alta.
É recusa ao apagamento.
É afirmação de existência.
É memória viva
correndo pelos fios.
Território,
mulheres,
resistência
se entrelaçam.
O território não é só bairro —
é corpo,
é vivência,
é história compartilhada
que se escreve no cotidiano.
As mulheres sustentam,
inventam,
cuidam.
Transformam o ordinário
em espaço de proteção.
E a resistência
mora nesse gesto repetido
que não se esgota,
que não se rende,
que segue.
Quando uma trança termina,
algo começa.
Começa um caminho possível.
Um saber reconhecido.
Uma autonomia construída
sem romper laços.
Começa a ocupação do território
com beleza,
com respeito,
com força coletiva.
As Trancistas do Capão
nos lembram:
direitos humanos
também se constroem assim —
no toque,
na escuta,
na prática diária.
Num território
que se protege
ao se reconhecer.
Num território
que aprende
com as mulheres
que o constroem,
fio
por fio.
—
* Cris Oliveira e Sonia Lima fazem parte das Trancistas do Capão.
Entre fios, mãos e histórias.
A arte de tecer cabelos
saberes ancestrais e práticas de cuidado.
A imagem como expressão
de identidade e autoestima.

Este texto integra o projeto Direitos Humanos Para Todas as Pessoas, que acontece de 4 a 15 de março de 2026 em diversas unidades do Sesc São Paulo. O projeto propõe reflexões sobre territorialidades e fortalece redes locais em prol de uma sociedade mais justa e diversa.
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