Setembro: uma maré de saberes celebra os 80 anos do Sesc

01/09/2026

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No mês em que o Sesc completa oito décadas, Bertioga reúne comunidades tradicionais e o público em torno do tema “Refúgios Litorâneos”. O Festival “O Mar em Nós” ocupa o centro da programação, enquanto a Reserva Natural estende as atividades ao longo do mês e chega aos dez anos de uma história construída com a Mata Atlântica e a cidade.

Aos 80 anos, o Sesc chega a setembro em Bertioga com uma história que olha para um território onde a floresta quase toca o oceano. Entre a Serra e o Mar a programação ambiental deste mês segue esse desenho. Entra na Mata Atlântica, procura pequenos habitantes da praia, observa aves antes do amanhecer, acompanha formas de vida da restinga e reserva um capítulo inteiro para as culturas e os conhecimentos que nasceram e continuam vivos junto ao mar.

O aniversário do Sesc acontece em 13 de setembro. Foi nessa data, em 1946, que surgiu o Serviço Social do Comércio. Oito décadas depois, educação, saúde, cultura, lazer, assistência e outras frentes de atuação continuam se combinando em projetos que respondem aos lugares onde o Sesc está presente. Em Bertioga, essa relação é antiga: a unidade começou sua história em 1948, com a então Colônia de Férias Ruy Fonseca, iniciativa pioneira de turismo social. Em 2026, a celebração dos 80 anos encontra uma cidade cuja vida cotidiana é atravessada pela Serra do Mar, pela Mata Atlântica, pelos rios, manguezais, praias e pelo oceano. É nesse chão — às vezes de areia, outras vezes de mar, em muitas de mangue ou coberto pela floresta de restinga — que setembro cria boa parte de sua programação

Ilustração: Kammal João
Ilustração: Kammal João

O Mar em Nós: refúgios para pensar o litoral

De 11 a 13 de setembro, a segunda edição do Festival O Mar em Nós – Refúgios Litorâneos integra a programação do Festival Sesc 80 Anos e amplia essa conversa. O ponto de partida é uma palavra aparentemente simples: refúgio. Na costa, ela pode nomear um manguezal que abriga espécies, um modo de pesca aprendido em família, uma comunidade que sustenta seus saberes, uma festa, um alimento, uma memória, uma prática de cuidado ou um lugar para onde se corre quando permanecer se torna difícil.

O festival reúne comunidades tradicionais, artistas, pesquisadores, educadores e instituições socioambientais. A programação se organiza a partir de três eixos — refúgios bioculturais; refúgios e refugiados climáticos; e refúgio simbólico, sensível e poético — e passa por apresentações artísticas, oficinas, rodas de conversa, palestras, vivências, trocas de saberes e ações ligadas à saúde e à moradia. A cultura oceânica aparece como fio de leitura para compreender a relação entre sociedade e oceano sem separar biodiversidade das pessoas que vivem, trabalham, celebram e produzem conhecimento nesses territórios.

Parte da programação é aberta ao público e espalha o festival para diferentes espaços. Em Mar de Acessos, o encontro com a praia passa pela acessibilidade e pela possibilidade de diferentes corpos se aproximarem do mar. Corpo Oceânico leva para a Reserva Natural práticas corporais que trabalham presença, movimento e percepção a partir da relação com o oceano. Refúgios que Sustentam a Vida volta a atenção para ambientes litorâneos capazes de oferecer abrigo, alimento e condições de permanência a diferentes formas de vida.

As redes também aparecem sob outros sentidos. Na oficina Artesãos de Bertioga – Brincos com Rede de Pesca, no Viveiro Seo Léo, um material diretamente ligado ao ofício pesqueiro passa pelas mãos dos participantes e ganha outra forma. No Sarau Cais nas Letras – Elas na Quebrada, a palavra falada ocupa a programação de domingo. São atividades distintas, mas reunidas por uma pergunta que atravessa o festival: o que precisa permanecer vivo para que o litoral continue sendo território de gente, cultura e biodiversidade?

Dénètem Touam Bona e as cosmopoéticas do refúgio

Uma das participações centrais do festival é a do filósofo, escritor e dramaturgo franco-centro-africano Dénètem Touam Bona. Na sexta-feira, 11 de setembro, ele participa da palestra Cosmopoéticas do Refúgio, com mediação de Helena Silvestre. O encontro propõe deslocar a ideia de refúgio de um simples abrigo diante da ameaça para pensá-la também como capacidade de inventar maneiras de habitar, escapar, proteger e recriar a vida.

A reflexão acompanha uma questão recorrente na obra de Dénètem: a marronagem, nome dado às práticas de fuga e resistência de pessoas escravizadas e às formas de existência construídas fora dos dispositivos de captura colonial. Em livros como Fugitif, où cours-tu? (Fugitivo, para onde corre?), Cosmopoéticas do Refúgio e Sagesse des lianes (Sabedoria dos cipós), o autor aproxima filosofia, história, ecologia e imaginação política. Cipós, florestas, camuflagens e fugas deixam de funcionar apenas como imagens e passam a oferecer maneiras de pensar solidariedade, resistência e proteção diante das formas contemporâneas de controle e da destruição dos ambientes vivos.

Em Bertioga, esse pensamento chega a um território em que manguezais, jundus, restingas, florestas, praias e oceano existem lado a lado com comunidades que desenvolveram conhecimentos e práticas ligadas a esses ambientes. A presença do autor, com apoio do Serviço de Cooperação e Ação Cultural da Embaixada da França, aproxima o tema internacional do refúgio das questões concretas que atravessam as regiões costeiras e dá densidade ao eixo conceitual desta edição do festival.

Foto aérea Reserva Natural Sesc Bertioga - Dalmir Ribeiro Lima
Foto aérea Reserva Natural Sesc Bertioga – Dalmir Ribeiro Lima

A Reserva estende a programação ao longo do mês

Depois dos três dias de festival, setembro continua pedindo atenção ao que vive perto. A programação da Reserva Natural Sesc Bertioga reúne atividades que mudam a escala do olhar: às vezes é preciso procurar uma orquídea apoiada num tronco; em outras, reconhecer rastros, formas e características de animais; em outras ainda, acordar quando a cidade mal começou a clarear para acompanhar as aves.

Em Orquídeas pela Trilha, a Trilha do Sentir serve de percurso para observar espécies nativas e perceber diferentes formas de vida dessas plantas na Mata Atlântica. Por Dentro dos Bichos aproxima o público da fauna por meio de peças museológicas e curiosidades sobre grupos encontrados na Reserva. O Clube de Observação de Aves leva binóculos e ouvidos atentos para outros pontos do território e reforça uma prática que vem reunindo participantes em encontros mensais. Há ainda atividades manuais, corporais e educativas previstas no carrossel atualizado da programação da Reserva, compondo um mês em que floresta, praia e oceano aparecem por linguagens diferentes, sem transformar a natureza em cenário.

Dez anos de uma Reserva dentro da cidade

Setembro guarda ainda outro aniversário. Em 21 de setembro de 2016, a Reserva Natural Sesc Bertioga foi apresentada à comunidade. Dez anos depois, seus cerca de 60 hectares de Mata Atlântica permanecem como um remanescente de floresta alta de restinga inserido na zona urbana de Bertioga — uma área protegida em que conservação e uso público foram pensados lado a lado.

A proteção da biodiversidade é uma parte desse trabalho. A Reserva também desenvolve educação ambiental, incentiva pesquisas científicas, promove turismo de baixo impacto, dialoga com outras áreas protegidas e mantém a participação das comunidades locais como elemento de sua atuação. Essa história aparece no próprio desenho do espaço: o plano de manejo foi construído com participação comunitária, e a Trilha do Sentir nasceu de um processo coletivo orientado pelo desenho universal e pela acessibilidade.

Por isso, os aniversários que se encontram neste setembro carregam escalas muito diferentes e, ao mesmo tempo, conversam entre si. O Sesc chega aos 80 anos. A Reserva Natural completa uma década. No meio dessas datas, O Mar em Nós reúne pessoas que vivem, pesquisam, narram e defendem o litoral. Em Bertioga, a celebração ganha a medida do território: pode caber no voo de uma ave às primeiras horas do dia, numa rede de pesca, num manguezal que segura a vida quando a maré muda ou numa floresta de restinga que há dez anos mantém suas portas abertas para que a cidade possa conhecê-la de perto.

Para acompanhar em setembro

  • Festival O Mar em Nós – Refúgios Litorâneos — 11 a 13 de setembro, no Sesc Bertioga e em espaços vinculados à programação.
  • Programação aberta do festival: Mar de Acessos; Corpo Oceânico; Refúgios que Sustentam a Vida; Artesãos de Bertioga – Brincos com Rede de Pesca; Sarau Cais nas Letras – Elas na Quebrada.
  • Na Reserva Natural: Orquídeas pela Trilha; Por Dentro dos Bichos; Clube de Observação de Aves e demais atividades de setembro.

Confira aqui os horários, locais, classificações etárias, disponibilidade de vagas e formas de participação de cada atividade.

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