
Foto: Fernanda Luz
Quais textos e montagens feministas influenciaram esta criação?
Luisa Pérez Wolter Reconfiguramos Lorca num diálogo crítico com a performance e o feminismo latino-americano. Trazemos Rita Segato (corpo como território de dominação e feminicídio como pedagogia da crueldade), Montserrat Sagot e Patricia Oliva. Investigando nossas vivências com a morte, deslocamos o foco do crime para a dignidade das vidas negadas, transformando o mórbido em memória.
De que forma a encenação e o revezamento das atrizes que interpretam Adela refletem a proposta política da peça?
Grettel Méndez Ramírez Trabalhamos três eixos: violência de gênero (feminicídio), morte como ciclo e Lorca. O público na mesa é testemunha ativa. O sorteio diário de Adela é um gesto político: “Adela podemos ser todas”. Em vez de suicídio, sua vida é arrebatada pelo feminicídio; em ambas as peças, o patriarcado conduz ao fim trágico.

Como o processo criativo articulou casos reais com vivências das criadoras?
Luisa Pérez Wolter Ficcionalizamos casos reais com vivências pessoais, focando nas vidas interrompidas. Sem reduzir mulheres a estatísticas, afirmamos: “A morte não é a culpada”. A tragédia é ter a vida arrebatada pela violência machista. Narrar em coletivo transforma silêncio em palavra e isolamento em comunidade.
Grettel Méndez Ramírez e Luisa Pérez Wolter atuam e dirigem La Casa Sin Bernarda.
Na obra que aborda a violência de gênero e a impunidade, a plateia acompanha a viagem de Adela, personagem que põe em cena as consequências dessas agressões no presente. Um grupo de mulheres convida o público a entrar em casa e sentar-se à mesa. Em cada apresentação, um jogo define qual atriz interpretará Adela, gerando uma experiência diferente a cada encenação. O projeto surge de uma metodologia de trabalho colaborativa que articula opressões sobre o corpo feminino, a morte como parte da experiência de existir e a ressignificação de elementos da peça A Casa de Bernarda Alba, do escritor espanhol Federico García Lorca. Partindo da pergunta “o que aconteceria se Bernarda não estivesse ali?”, surgem Adela e outros elementos simbólicos, integrados a um novo universo cênico, conectado ao contexto latino-americano de feminicídio.
O espetáculo La casa sin Bernarda foi apresentado no dia 13/09 às 20h na Casa da Frontaria Azulejada, em Santos.
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