
Por Duda Leite*
A documentarista e montadora Karen Harley ama o cinema desde que frequentava o cinema pornô Trianon, em sua Recife natal, para assistir a filmes de arte aos sábados de manhã. Foi lá que ela descobriu obras de cineastas como François Truffaut e Akira Kurosawa.
Um de seus primeiros trabalhos no cinema foi a montagem de “Veja Essa Canção”, de Cacá Diegues. Quase trinta anos depois, foi convidada pelo produtor Diogo Dahl a co-dirigir com seu amigo Lírio Ferreira, “Para Vigo Me Voy”, justamente sobre Cacá.
O filme estreou no Festival de Cannes, dentro da Mostra Cannes Classiques, e agora ganha uma exibição especial dentro da Mostra Amor Ao Cinema.
Leia a seguir minhas dez perguntas para Karen Harley.
DUDA LEITE – O primeiro filme do Cacá que você montou foi “Veja Essa Canção” (1994). Como foi seu primeiro encontro com o Cacá?
KAREN HARLEY – Eu fazia algumas videoartes, e algumas coisas na TV, mas esse foi meu primeiro com o Cacá. O filme foi rodado em 92, ou 93, e foi uma época em que não havia cinema no Brasil. O Plano Collor tinha acabado com a Embrafilme. E o Cacá filmava de uma forma muito contínua, e decidiu então fazer um filme em vídeo, usando aquela nova tecnologia na época. Decidiu chamar um monte de gente jovem que estava sem trabalho. Então é o primeiro filme de um monte de gente, como a Rosane Svartman, como roteirista, e da Clélia Bessa. Eu comecei fazendo continuidade, no “Veja Essa Canção”. É incrível porque é uma função que você fica colada no diretor. E prestando atenção na decupagem. E me lembro que, na época, falava-se muito sobre o eixo. Você tinha que tomar muito cuidado com o eixo da câmera. Eu ficava meio assim: ”Cacá, o eixo”. E ele me dizia para esquecer o eixo. Ele era uma pessoa muito generosa. Estava trabalhando com uma equipe de iniciantes. E ele dava muito gás para gente seguir a carreira. Acabei montando com o Mair Tavares, que já era montador de vários filmes dele. Ele estava precisando de uma assistente, e terminei assinando a montagem com ele. Foi o primeiro filme brasileiro a ser montado num AVID, que até então não existia. Li o manual todo, acho que foi o único manual que eu li na minha vida. E montamos esse filme juntos. Foi uma experiência incrível.
DUDA – Como surgiu o convite para codirigir o documentário “Para Vigo Me Voy”, sobre o Cacá Diegues?
KAREN HARLEY – O convite veio do Diogo Dahl. Eu achei incrível. Estava acabando de fazer uma parceria de co-direção no documentário sobre a Rita Lee, chamado “Ritas”. Quando ele me falou sobre o Cacá, achei que seria realmente incrível, voltar a assistir aos filmes do Cacá e mergulhar na sua obra. Tive um encontro com o Cacá e a Renata Almeida Magalhães, e com o Lírio e o Diogo. Fiquei emocionada em reencontrar o Cacá, e partimos para essa missão de fazer uma homenagem a ele. Tive a oportunidade de rever seus filmes, e ver alguns ainda não tinha visto. E ler a autobiografia dele, ter todo esse processo com ele, foi muito rico.
DUDA – O Cinema Novo era um movimento considerado bastante intelectualizado, porém o cinema do Cacá flertava com um cinema bastante popular. Você acha que essa combinação foi o diferencial do cinema dele?
KAREN HARLEY – Eu acho que mesmo dentro do Cinema Novo, ele já entrou direto num cinema popular. O Cacá já fazia filmes para o povo assistir. E no cinema do Cacá, os personagens sempre buscam a felicidade, mesmo nas situações mais adversas. Isso está presente desde seu cinema mais político, até seu cinema mais popular. Então, não vejo como um desvio de caminho, o fato dele ter começado no Cinema Novo, e ter ido para um cinema mais popular. O cinema popular do Cacá, não é o que hoje a gente chama de cinema comercial. Ele tem a caraterística de trazer a cultura popular muito forte, que é uma investigação do Cacá, e de querer o público no cinema. Nos anos 1970, havia mais público no cinema. E ele fazia filmes muito diferentes entre si. Ele tem um depoimento no filme onde ele fala que um cineasta seguir um estilo, é um pouco como uma camisa de força. Ele abre uma janela para diferentes estilos. Ele faz um filme mais Bossa Nova, que seria o “Chuvas de Verão”, para depois fazer um filme mais Carnaval que seria o “Xica Da Silva”. Filmes menores e filmes maiores.
DUDA – O Cacá disse certa vez que fazia musicais sem música. A estrutura dos seus filmes eram musicais, esse foi um aspecto que te interessou na hora de montar o seu filme?
KAREN HARLEY – O Cacá sempre foi muito interessado pelo cinema espetáculo. O circo, o Carnaval. Um espetáculo no sentido de um lugar onde tem um público assistindo alguma coisa. O musical entra nisso. Ele falava que ele era um músico frustrado, que era o que ele queria, mas não conseguiu. Então, ele enche os filmes de música. “Quando o Carnaval Chegar”, poderia ser um musical. E sobre o “Xica da Silva”, ele bota não só a estética do carnaval, mas a estrutura de uma escola de Samba. Tem a ala das Baianas, tem a comissão de frente. O que eu acho bem interessante.
DUDA – O Cinema Novo era um grupo de diretores bem masculino, como você mostra bem no filme. Você acha que isso era um reflexo da época?
KAREN HARLEY – Eu acho isso bastante estrutural, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Nós temos muitas cineastas importantes, desde a origem do cinema, mas muito esquecidas. Hoje está acontecendo o Festival De Veneza, onde isso está sendo muito discutido. Praticamente não tem cineastas mulheres hoje no Festival de Veneza, que é o mais antigo do mundo. Sim, mas o Cinema Novo era completamente Clube do Bolinha, e isso se reflete até hoje. Nós temos mulheres cineastas incríveis, em todos os aspectos de um filme. A gente tem que prestar atenção em ocupar espaço, em dividir espaço, para tentar estar em pé de igualdade.
DUDA – O nome da nossa Mostra é Amor ao Cinema. Como você definiria o seu Amor pelo Cinema?
KAREN HARLEY – Eu não saberia fazer outra coisa da vida. Eu faço um trabalho aqui na minha ilha, que é um trabalho muito solitário, mas a partir do momento que eu tenho o filme na tela, e eu estou manipulando o material bruto, eu entro num espaço criativo, de como pegar milhões de horas de material bruto, e criar uma narrativa e dar ritmo. É a terceira escrita de um filme. Sendo que a primeira é o roteiro, e a segunda a filmagem. É um espaço criativo, de viagem minha, que eu prezo muito. E que eu gosto de fazer sozinha. E que tem a hora que eu divido com o diretor, mas eu amo essa profissão. Mas também amo dirigir, e amo atores. Me formei em jornalismo, mas na época eu reabriu um cineclube na faculdade. Na época, eu era rata de cineclube. Eu sou pernambucana, e em Recife passava pouquíssimos filmes de arte. Mas havia uma sessão no Cinema Trianon, que era o cinema pornô, e que aos sábados, às 10h da manhã, tinham sessões de filmes de arte. Era um horário cruel para os jovens na época. Mas eu assisti a muitos filmes do Truffaut e do Kurosawa, neste cinema pornô.
DUDA – Você já era amiga do Lírio Ferreira há muitos anos. Como foi co-dirigir este filme com o Lírio?
KAREN HARLEY – Ele já havia me chamado algumas vezes para trabalhar, mas não tinha dado certo. Foi ótimo. O fato de sermos amigos, abriu a possibilidade de sermos totalmente abertos um com o outro. E de termos intimidade para falar tudo o que a gente pensa. Ao mesmo tempo, temos um carinho muito grande. Então, isso ajudou muito. Mas a amizade é mais importante do que o filme e, neste caso, tudo se preservou.
DUDA – O François Truffaut declarou uma vez que “o cinema é mais importante do que a vida”. Você concorda com essa declaração?
KAREN HARLEY – Não. Eu amo o cinema, mas não é mais importante do que a vida. Em termos de documentarista, a vida de quem a gente está documentando é sempre mais importante do que o filme. Em questões éticas, em questões morais. Você tem que ter responsabilidade sobre aquilo que você está colocando na tela. Porque o filme está acontecendo na tela, mas a personagem vai ser interferida pelo filme, mas a vida dela continua. Então, há uma responsabilidade ética muito importante. Cada dia mais eu sinto a importância do processo da feitura de um filme, tão importante quanto o resultado. No sentido do respeito a todos os profissionais que estão fazendo o filme. Ao tempo de criação, ao espaço, à escuta. Ter um processo prazeroso durante a feitura de um filme, é tão importante como o resultado. Eu não acho que vale tudo para se fazer um bom filme. Você tem que fazer da melhor maneira, até para as pessoas serem mais criativas. A gente quer fazer cinema de uma forma muito feliz e muito harmônica entre as pessoas.
DUDA – Você co-dirigiu o filme “Ritas”, com o Oswaldo Santana. Como foi o processo deste filme?
KAREN HARLEY – Wow, esse filme deu bastante trabalho, A gente começou em 2018. Ele seria o terceiro projeto da mesma produtora, que é a Biônica Filmes. Eles fariam uma ficção, e uma série documental que seria um pouco mais solta, com um material caseiro da própria família. Acabou que, por vários motivos diferentes, o filme e a série caíram, e o documentário acabou ganhando um peso muito maior pela família. E a família começou a fazer demandas, que a gente não tinha planejado. Eu sempre quis a Rita presente hoje, dando um depoimento para o filme. E nos primeiros encontros ela estava bem ressabiada, ela não queria. “Eu estou me sentindo velha, eu prefiro não aparecer”. Mas eu queria que ela aparecesse de alguma forma, nem que fosse no seu jardim, com seus bichos. Ou num cantinho. E aí, já no terceiro encontro, ela disse porque você não filma meu macaco. Eu disse para ela: “Rita, porque você mesma não filma seu macaco, seu altar, o que você quiser”. E ela gostou da ideia, e começou a nos mandar umas pérolas. Começou a viajar naquilo, e aquilo se tornou a alma do filme. Eu usei isso no meu primeiro corte, mas a família não gostou, Então, rolou uma crise. A família, não queria que a gente não usasse esse material. Acharam que estava amador. E começaram a rolar umas demandas de ter que entrevistar fulano e sicrano, e não sei mais o quê. Enfim, depois de alguns anos, o filme retornou. A gente pode usar parte deste material, que está no filme. E aí, ela acabou concedendo aquela entrevista maravilhosa. E, por azar ou sorte, ela descobriu durante uma pausa da gravação, que o amigo dela, o Patrício Bisso, havia morrido. E ela começou a falar sobre a morte, e ela começa a falar umas coisas muito bonitas sobre isso. Ela ficou bem emocionada com isso.
DUDA – O cinema já foi declarado morto diversas vezes. Em 1983, o Peter Greenaway declarou que o cinema havia morrido com a chegada do controle remoto à sala de estar. Depois com a chegada do VHS, e agora com os streamings. No entanto, ele continua resistindo. Por que você acredita que o cinema continua resistindo?
KAREN HARLEY – Porque é um espaço mágico. É um “para vigo me voy”. É um abracadabra. É uma hora, que você está na sala escura com desconhecidos e acontece alguma coisa coletiva. É uma experiência única, é muito diferente do que você ver algo na sua casa. Agora está se tornando uma experiência muito cara no Brasil. Nós temos poucos cinemas de rua com preços razoáveis. E os filmes brasileiros, salvo algumas poucas exceções, são muito pouco vistos. Mas o cinema não vai terminar. Porque é uma experiência única. Os festivais de cinema fazem muito sucesso, porque é uma comunhão com pessoas desconhecidas, e que se torna uma experiência única.
* Duda Leite é Jornalista, Curador e Cineasta.
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