Herança: pegadas de memória para seguir  

28/10/2026

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Por Bàbálòrìṣà Sidnei Nogueira de Ṣàngó*

Herança costuma lembrar o que alguém deixou: uma casa, um nome, uma fotografia, um bem. Nas tradições de matriz africana, é também aquilo que se recebe, sustenta, transforma e faz continuar.  

Nas culturas de matriz africana, a jornada mítico-ancestral deixa pegadas: gestos, escolhas e vínculos que abrem caminhos para quem vem depois. A herança não cabe numa vitrine. Ela respira, se espalha, oxigena a vida de quem chega e oferece caminhos e respostas.  

Ao nascer, uma criança de terreiro chega a um mundo de cantos, palavras, modos de cuidar e relações com o sagrado. Isso não determina sua fé nem seu caminho. Ninguém começa do zero: há uma história antes de cada pessoa, mesmo quando tentaram apagá-la.  

A herança respira na palavra diante de quem veio antes, no alimento partilhado, na folha reconhecida por seu nome e fundamento, no tambor, no corpo que dança e na mão que ampara. No Candomblé, dança-se no sentido anti-horário em reconhecimento aos que vieram antes. O corpo que gira reinscreve a memória: cada passo encontra outros pés no chão.  

Memória e ancestralidade são pegadas a serem seguidas. Ancestralidade não é culto ao passado imóvel; é presença no presente. Egúngún recorda que a morte não é simplesmente o fim: há existências que seguem sustentando a comunidade.  

Mas nem todo antepassado se torna ancestral. No corpus literário de Ifá, o Odù Ejilaasebora ensina: “O mais velho que ofender o mais novo será punido doze vezes. O mais novo que ofender o mais velho será punido uma vez.” A lição lembra: idade não autoriza ferir; quanto maior a posição, maior a responsabilidade.  

Ancestralidade é lugar de honra. Não basta morrer ou retornar à massa de origem para ocupá-lo. Ancestral é quem permanece como memória existencial a ser revisitada e seguida; quem se torna referência de saúde, felicidade, convivência harmônica e cuidado para quem veio depois.  

Lembrar é reunir os pedaços que a violência tentou separar. Por séculos, populações negras foram pressionadas a abandonar divindades, idiomas, gestos e saberes. A colonização dominou territórios e interrompeu continuidades, ensinando que sobreviver exigiria esquecer. Mas o esquecimento desenraíza.  

Sem memória, cada pessoa é empurrada a produzir um “novo” sem vínculo com quem veio antes, como se o mundo começasse nela. Perdem-se a profundidade do tempo e os laços da vida. O esquecimento também serve ao controle quando apaga caminhos coletivos e deixa cada um sozinho no presente. Esquecer quem veio antes fragiliza a possibilidade de permanecer no futuro.  

As comunidades negras fizeram da memória uma tecnologia de existência. O que não podia ser escrito foi guardado na palavra; o que não podia ser dito encontrou abrigo no canto, na comida, no segredo e no rito. Proteger um fundamento era proteger o futuro.  

O terreiro não é apenas lugar de cerimônias. É território de aprendizagem, proteção, cura e recomposição da dignidade. Nele, a dor não precisa ser atravessada em solidão. A sustentação coletiva é uma forma profunda de herança.  

Também se recebe uma herança que não é objeto pronto. O axé se cultiva na relação: com quem veio antes e com quem chega depois, com os Òrìṣà, a comunidade e a natureza. Ganha força quando circula e vira cuidado, palavra e compromisso. Transmitir não é entregar algo intacto; é permitir que outra geração reconheça, interrogue e continue.  

Se a morte não é o fim, isso não quer dizer que toda vida se torne ancestralidade da mesma maneira. Ser lembrado com honra é responsabilidade durante a vida: deixar pegadas de cuidado e sustentar outras existências.  

As espiritualidades de matriz africana lembram que a vida não se sustenta pela lógica do “ou”, mas pela potência do “e”. Matéria e espírito, indivíduo e comunidade, memória e invenção não se excluem. Os Òrìṣà ensinam a viver o mundo como dimensão sagrada: água, terra, fogo, vento, folhas, corpos e alimentos participam da vida.  

Herança não é repetir o passado sem interrogá-lo. Tradição viva conserva e inventa. Diante da violência, antepassados produziram linguagem; diante da dispersão, refizeram parentescos; diante do apagamento, fizeram de lembranças fragmentadas mundos habitáveis.  

Não basta celebrar essa herança: é preciso garantir o direito de vivê-la e transmiti-la. Isso exige proteger os terreiros, respeitar a liberdade de culto, enfrentar o racismo religioso e permitir que crianças e jovens conheçam essas tradições sem vergonha, ameaça ou violência. Exige reconhecer saberes de matriz africana como conhecimento, não superstição ou resto de um passado destinado a desaparecer. A herança só tem futuro quando seus guardiões podem existir.  

Sem memória, herança e ancestralidade, não há reencantamento. Reencantar-se é perceber que a vida está ligada a outras vidas, não começou em cada pessoa e não precisa terminar nela. É recuperar a espessura das relações, sentir a presença do mundo e reconhecer as pegadas sobre as quais se caminha.  

Em torno da fogueira, fica uma pergunta: que pegadas estão sendo deixadas? O que, na maneira de viver, cuidar e conviver, poderá tornar-se memória para alguém? Cada existência participa da produção de uma herança, mesmo sem saber quem a receberá.  

A herança é memória, sustentação e potência criativa: devolve caminhos, recorda que ninguém mantém o fogo sozinho e permite a cada geração acrescentar à chama uma nova possibilidade de mundo. É aquilo que continua vivo quando encontra dignidade para permanecer, ser transmitido e se transformar.  

*Bàbálòrìṣà Sidnei Nogueira de Ṣàngó é doutor em Semiótica pela Universidade de São Paulo (USP), é sacerdote de Candomblé, escritor, pesquisador e membro consultivo da UNESCO-SOST. Autor de Intolerância Religiosa, finalista do Prêmio Jabuti 2021, constrói sua trajetória a partir do terreiro como lugar de conhecimento, ética e ação política. 

Festival Sesc Culturas Negras 

De 5 a 15 de novembro de 2026, o Sesc São Paulo realiza a terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras, que traz como tema a herança do povo negro. Mestras e mestres tradicionais, artistas, pesquisadoras, pensadoras e pensadores compõem a programação, que leva apresentações artísticas, conversas, oficinas e encontros a diversas unidades.  

Saiba mais em sescsp.org.br/culturasnegras 

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