Vozes da Herança 

28/10/2026

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Por José Adão Oliveira *

Sinto-me muito feliz em participar da terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras, e muitas lembranças de eventos de cultura vêm à mente, pois a amplitude das possibilidades na cultura negra se dá em múltiplas linguagens. Dentre elas, a capoeira e o samba comportam algumas expressões nas quais um corpo negro se expressa ou se retém à espera do tempo propício para revelar a essência de seu ser ao mundo. Nesse sentido, as ruas e calçadas da cidade são espaços nos quais surpresas interessantes podem aflorar, lembranças afetivas ressurgem e, quem sabe, uma alegria coletiva pode se espalhar. Por que não? 

Nos desafios da vida, algumas pessoas se perdem e tornam-se moradores de rua. Certa vez, observei um homem negro cabisbaixo, pedindo uma moeda de dez centavos às pessoas, mas, ao passar pelo Largo do Arouche, ouviu Dinho Nascimento1 tocando berimbau e Cecília Pelagrine tocando pandeiro no ritmo da capoeira. Mestre Marlon, no ritmo do samba do Recôncavo Baiano, somava cadência à melodia da praça, e no chão formou-se uma roda onde algumas pessoas gingavam. O homem pedinte foi se aproximando lentamente e não mais pedia dinheiro. Entrou na roda de capoeira, gingou, se divertiu e, após algum tempo, saiu ereto, de cabeça alta e sujeito de si, como se não estivesse mais em condição subalterna. 

Este evento aconteceu em 2024, em homenagem ao nascimento de Luiz Gama, que foi engraxate, poeta, professor, escritor, jornalista, advogado provisionado e brilhante abolicionista. Nasceu em 21 de junho de 1830 e faleceu em 24 de agosto de 1882. Seguindo o trajeto do passado, quando seu corpo e caixão foram sustentados de mão em mão por 3 mil pessoas, do bairro do Brás ao Cemitério da Consolação, pessoas relembraram2 o cortejo de 5 km com uma caminhada cultural. Em seu local de sepultamento, os seus sonhos de liberdade, abolição da escravidão, democracia e desejo de uma república justa foram renovados com música e arte. Os presentes, perante o túmulo de Gama, juraram dar continuidade às suas lutas. 

Infelizmente, ainda hoje, na continuidade dessas mesmas lutas pela dignidade dos corpos, das memórias e dos valores de “pessoas negras” ou “pessoas de cor”, como eram chamadas no passado, um simples passeio ou uma travessura juvenil pode ser um fator determinante na morte de um jovem. Foi o que ocorreu com Robson Silveira da Luz, que, ao voltar de um baile black, juntamente com um grupo de amigos, pegou uma caixa de mexericas sob o compromisso de depois pagarem ao feirante português, pois este era conhecido deles. Mas uma vizinha viu e relatou o ocorrido a um policial aposentado que, juntamente com o delegado do 44º Distrito Policial, em Guaianases, prendeu e torturou Robson por 14 horas. Foi levado ao pronto-socorro, em São Miguel Paulista, e de lá para o Hospital das Clínicas, onde veio a falecer no início de maio de 1978. 

No dia 12 de maio de 1978, uma carta-denúncia foi lida na Comissão Arquidiocesana de Justiça e Paz pelo Grupo Afro-Latino América. Depois, integrantes de grupos e entidades, pessoas negras e brancas, decidiram, em 18 de junho de 1978, fundar o Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR)3, que, por meio de 5.000 cópias de uma convocatória distribuídas em escolas de samba, bailes black e galerias no centro da cidade, convocou um Ato Público, em 7 de julho de 1978, nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo, para dar um “Basta” naquela situação de constantes discriminações sociais e mortes de pessoas negras. 

Precedendo o ato, houve uma passeata que desceu a Rua da Consolação, desde o número 1075, com as faixas “Contra a Violência Policial” e “Contra a Discriminação Racial”, e, quando os manifestantes chegaram à Praça Ramos de Azevedo, já eram cerca de 300 pessoas. Era o sinal para que os demais grupos e pessoas que estavam pelas Galerias Nova Barão, Presidente, do Rock e imediações da Rua Direita e Viaduto do Chá se achegassem e, de repente, saltou-se para cerca de 2.000 pessoas. Nas falas, ouviram-se lideranças sindicais, jornalistas, músicos, artistas, atletas, professoras, estudantes, parlamentares cassados pela Ditadura e exilados políticos se posicionando contra o racismo. Todos leram, em forma de jogral, a Carta Manifesto: 

“Hoje estamos nas ruas numa campanha de denúncia! 
Campanha contra a discriminação racial, contra a opressão policial, contra o desemprego, o subemprego e a marginalização. 
Estamos nas ruas para denunciar as péssimas condições de vida da Comunidade Negra. 
Hoje é um dia histórico. 
Um novo dia começa surgir para o negro! 
Estamos saindo das salas de reuniões, das salas das conferências e estamos indo para as ruas. 
Um novo passo foi dado contra o racismo.” 

Nestes passos, criou-se a ferramenta “Programa de Ação do MNU” para que, segundo Lélia Gonzalez, se siga o exemplo da atriz Zezé Motta, que, em 1984, fundou o Centro de Informação e Documentação do Artista Negro (CIDAN), pautando a questão racial no trabalho. Este exemplo se assemelha aos saberes tradicionais, às boas práticas étnico-raciais, às memórias afetivas, às tecnologias sociais, como os Cadernos Negros e o FECONEZU, e às linguagens, como os saraus e o SLAM Interescolar, na afirmação dos valores humanos e das existências segundo o conceito do bem viver. 

Reafirmo que é uma alegria contribuir com este Festival, porque é a possibilidade de enaltecer todas as vozes de nossa história, do respeitável Luiz Gama ao pedinte do Largo do Arouche, que se perdeu no caminho, mas recupera sua altivez sempre que está em contato com as suas heranças, que se manifestam pela arte e cultura nas suas mais variadas formas. 

Nesse sentido, idealizei a aula-sarau “Vozes da Herança”, um ATO POÉTICO intergeracional que percorre as iniciativas negras nas artes, na cultura, na educação e na organização política, por meio de poesia, música e performance. Em diálogo com o texto poético “Diálogos Construtivos do Futuro Agora” e o livro Movimento Negro Unificado: a resistência nas ruas, publicado pelas Edições Sesc, os passos de dois casais de mestre-sala e porta-bandeira simbolizam os elos entre passado, presente e futuro. Mais do que uma exposição histórica, trata-se de uma aula viva que celebra crianças, jovens, adultos e os ativos e altivos idosos negros e idosas negras 60+, reafirmando a herança como processo permanente de transmissão, construção e reinvenção. 

*José Adão Oliveira é palestrante, escritor, poeta e ativista do movimento negro, da educação, da saúde e da participação social. Formado em Gastronomia (Senac) e especialista em Migração Africana (UFABC). Colaborador do Jornal VERSUS, em 1976/1979, organizador do livro Movimento Negro Unificado: a resistência nas ruas (2020), avaliador da publicação Cadernos Negros n. 43, n. 44 e n. 45 e revisor do I Livro GRIOT do MNU: memórias de vida e de lutas da Idosidade negra (2025). Cofundador do Movimento Negro Unificado (MNU), atuante desde 1978, integrou o GT Educação da Rede Nossa São Paulo 2007/2022, o Fórum Municipal de Educação de São Paulo 2013/2025 e o Instituto TEBAS de Educação Patrimonial, desde 2018, além do Coletivo Mobiliza Saracura Vai-Vai, desde 2022. 

Notas 

[1] Dinho Nascimento e Cecília Pelagrine – Artistas, produtores culturais e lideranças comunitárias do Morro do Querosene – Zona Oeste/SP. 
[2] Caminhada Luiz Gama – Organizada anualmente pela Sociedade Luiz Gama (SLG), com o apoio de grupos e coletivos negros. 
[3] Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR). 

Festival Sesc Culturas Negras 

De 5 a 15 de novembro de 2026, o Sesc São Paulo realiza a terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras, que traz como tema a herança do povo negro. Mestras e mestres tradicionais, artistas, pesquisadoras, pensadoras e pensadores compõem a programação, que leva apresentações artísticas, conversas, oficinas e encontros a diversas unidades.  

Saiba mais em sescsp.org.br/culturasnegras 

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