Heranças Africanas: memórias de ontem, hoje e sempre  

29/10/2026

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Por Helena Theodoro*

Sou Helena Theodoro de Oyá e, como mulher negra e estudiosa das tradições negras brasileiras, venho tratar de nossos legados que situam os saberes fundamentais da humanidade, uma vez que tudo começou lá atrás, há mais de dez mil anos, no Kemet, conhecido como Egito, e na Etiópia.   

Com base nos conhecimentos adquiridos da vida em diferentes territórios, os negros compreenderam que as energias da natureza e o comportamento humano diferem de lugar para lugar, pois os territórios diferem segundo suas características, que possibilitam muitos saberes, práticas, memórias, linguagens e tecnologias que se perpetuam por gerações, moldando o presente, além de projetar o futuro a partir do ontem.  O que temos em nossas comunidades terreiros de candomblé e de umbanda nos traz uma memória ancestral, um conhecimento que vem de outro continente e de outros tempos, que atua como orientador para todas as áreas do nosso viver, que se pauta numa proposta que os bantos denominam de UBUNTU e os nagô, de AXÉ.  

Temos, assim, diferentes origens de nossa ancestralidade africana, tendo em vista que recebemos africanos de diferentes espaços geográficos. Esta relação nos traz o entendimento de que, se eu estou numa região de savana, o tipo de animal, o clima, a alimentação e a vida são diferentes dos de uma região de mar, com outro clima, outra vegetação, outros animais ou tipos de vestimenta. O entendimento dessas diferenças atinge a linguagem, as atividades para a construção de casas, os modo de trabalhar e a vida familiar e social.  

Como afirma Muniz Sodré, a leva de escravizados na Bahia foi constituída de sacerdotes, pensadores, filhos de reis e rainhas, que buscaram se territorializar aqui, a partir do século XVIII. Os terreiros de candomblé foram a solução encontrada pelas ordens religiosas negras, que preservaram, assim, sua forma de viver e de pensar. As ordens religiosas da Boa Morte e dos Homens Pretos do Pelourinho juntaram seus dinheiros e compraram um terreno, construíram a Casa Branca, espaço de OXUM, territorializando a África no Brasil. O espaço representa uma forma de viver e de pensar, na qual a comunidade possibilita que o pensamento atravesse o corpo, usando o ambiente, a música, a aglomeração de pessoas, estabelecendo, assim, uma relação profunda de valorização das mães de santo e dos pais de santo com seus filhos, acumulando pessoas e não bens. A ideia de ALEGRIA vem de ala-asa – perder o chão, sendo harmonia perfeita, sintonia completa com o movimento da terra, rodando na gira, fazendo com que a lógica do lugar se relacione com o corpo, o espaço e a alegria.  

No Rio de Janeiro, a umbanda se consolida desde a chegada ao Cais do Valongo, marcando a fé que usa o mundo invisível, em que os espíritos de guerreiros, pretos-velhos e mulheres sábias orientam os que estão no mundo visível. O cirrum, culto aos espíritos, era uma prática comum em Angola e no Congo. Quando a rainha Nzinga de Angola perde a guerra para os portugueses, faz um acordo para salvar seus soldados e atende à ordem do rei de Portugal, batizando-se com o nome de Ana e erguendo uma igreja em homenagem a Sant’Ana. Nzinga havia entendido que os santos eram espíritos como os do cirrum. Seleciona santos negros para sua igreja e coloca os atabaques, que eram usados para o cirrum, no adro da igreja, criando, assim, um espaço para reverenciar seus ancestrais africanos.  

As variadas manifestações culturais negras seguem a estratégia da Rainha Nzinga, responsável pelos quilombos, que eram espaços de terra nos quais seus habitantes professavam sua fé segundo as tradições de seus ancestrais e cuidavam dos seres da natureza, utilizando o sistema de revezamento no plantio e o treinamento para a produção de roupas e armas e para a prática de formas de luta, como a capoeira.   

As escolas de samba são quilombos na avenida. Carregam toda a filosofia trazida por nossos ancestrais. Reproduzem a família, valorizam o território, geram identidade, lidando com a alegria de viver, além de contar as histórias dos heróis negros, dos orixás e dos personagens importantes para a comunidade negra brasileira.  

Para a comunidade do samba, o pensamento atravessa o corpo e o toque da bateria se constitui num núcleo civilizatório que se projeta para todo o Brasil e o mundo. É a valorização do corpo presente, da formação de gente que precisa de gente para aprender a olhar com outros olhos a sabedoria presente na oralidade, que nos transmite conhecimento inédito por meio dos sambas-enredos e dos tambores, sendo formas de sentir, ser e estar no mundo que permitem ao corpo se ampliar e ganhar novos espaços na sociedade e na globalidade em que vivemos. Não tem a cultura do pecado, nem se pauta numa dívida de paraíso. O bom é aqui e agora, numa lógica que se funda na alegria, na valorização do corpo presente e pulsante, ao som do tambor, que leva os corpos a dançar, permitindo a todos o grande banquete da vida, forjando movimentos que permitem o pensar com outros corpos, sempre em profunda harmonia com o ontem e o amanhã.  

As escolas, com os bois, reizados e maracatus, buscam em suas histórias e crenças a força para mostrar seus diferentes valores e sua fé na vida. Essa fé se revelou em sua capacidade de se comunicar e de transformar o mundo por meio de caminhos e olhares novos que possibilitam o crescimento e o bom viver, a partir de seus itans, histórias contadas pelos mais antigos, que mostram energias capazes de superar a dor e as dificuldades.  

Pensar no futuro humano nos leva ao encontro do princípio masculino com o princípio feminino, que, por meio do movimento e da alimentação, geram novas vidas. Criam flores humanas. Por isso, torna-se de grande importância entender as folhas, os frutos, os legumes e as flores que compõem a nossa vida, a nossa sobrevivência em companhia. Entender que cada tipo de folha corresponde a um determinado orixá e que nós somos ar, água, terra e fogo, nos dá uma relação direta com o território em que vivemos e uma consciência do que podemos ou não comer. Quando usamos nossas folhas para fazer nossos chás, trazemos um saber que nos foi transmitido pela ancestralidade.  

Torna-se necessário entender que existe outra lógica na nossa relação com o mundo e que a lógica de nos olharmos como produtos do que comemos e da nossa memória ancestral vem de uma experiência anterior, que chega até nós através de histórias e dos espíritos!  

Helena Theodoro 

Professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS/UFRJ) e presidente do Conselho Deliberativo do Fundo ELAS+, Doar para Transformar. Bacharel em Direito e pedagoga, mestre em Educação, doutora em Filosofia pela Universidade Gama Filho (1985) e pós-doutora em História Comparada pela UFRJ (2018). 

Festival Sesc Culturas Negras

De 5 a 15 de novembro de 2026 nas unidades Sesc 24 de maio, Belenzinho, Casa Verde, Sesc Galeria (futura unidade do Sesc), Interlagos, Itaquera, Pinheiros, Santana, Vila Mariana e também na plataforma Sesc Digital e no SescTV.
Acesse o site sescsp.org.br/culturasnegras para conhecer a programação completa.

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