“O Futuro é Cooperativo” traz até novembro discussões sobre cooperativismo para o Sesc Avenida Paulista

18/10/2022

Compartilhe:

O cooperativismo é a produção e administração de negócios em que o poder de decisão é distribuído entre os trabalhadores e trabalhadoras que fazem parte de uma cooperativa. A intenção primeira não é a geração de lucros e sim a justiça social e a sustentabilidade, prezando pelos princípios de honestidade, equidade, solidariedade e transparência. 

Compreendendo os desafios atuais enfrentados no mundo do trabalho e nas relações humanas, e apostando na construção de novos modelos de convivência e produção, o cooperativismo pode ser visto como uma alternativa para a construção de um futuro que leve em consideração o trabalho digno, a produção sustentável e o direito à cultura e ao conhecimento, dentre outros aspectos. 

Unindo esses aspectos e a nossa relação com o mundo digital, também emerge na atualidade o conceito de cooperativismo de plataforma. Difundido por Trebor Scholz, é uma alternativa à chamada economia de compartilhamento que se compromete com princípios democráticos e transparentes para os trabalhadores e seus clientes. Assim como o cooperativismo tradicional, o de plataforma não propõe soluções rápidas para problemas complexos, mas mostra que é possível reproduzir tecnologias como as de plataformas de entretenimento e mobilidade urbana de modo realmente colaborativo, na contramão da chamada uberização do trabalho. 

Mas como pensar e propor práticas que criem esse futuro almejado? Essa reflexão é proposta pelo projeto O Futuro é Cooperativo. A programação traz cursos, bate-papos, lançamento de livro e exibição de um filme; nos quais pesquisadores/as e criadores/as debatem o cooperativismo em seus diferentes aspectos, levando em consideração as colaborações da economia solidária e o surgimento do cooperativismo de plataforma. As ações propõem a sensibilização para os temas, além do desenvolvimento de tecnologias coletivas com olhar periférico, compreendendo os trabalhadores – artesãos/ãs, artistas, entregadores/as, escritores/as – como protagonistas e fundamentais no processo de inovação e criação de um futuro com segurança ambiental, econômica e política.

Confira a programação:

Cooperativismo de Plataforma e Economia Solidária
De 18/10 a 01/11, terças, das 19h às 22h
27/10, quinta, das 19h às 22h
Ação online, via Zoom
Vagas esgotadas.


Cooperativismo na América Latina: Uma história de resistência
De 19/10 a 16/11, quartas, das 19h às 21h (exceto 2/11)
Ação online, via Zoom
Vagas limitadas. Inscrições online aqui.


Como Construir uma Plataforma de Trabalho Coletiva?
22 e 23/10, sábado e domingo, das 10h às 17h30 (Intervalo das 12h30 às 13h30)
Tecnologias e Artes (4º andar)
Vagas esgotadas.


Trabalho Cooperativo nos Dias de Hoje
26/10, quarta, das 19h às 21h
Ação online com transmissão ao vivo pelo Youtube do Sesc Avenida Paulista.
Haverá tradução simultânea (inglês, português e libras).


A Cultura é Livre
10/11, quinta, das 19h30 às 21h30
Biblioteca (15° andar)
A atividade contará com tradução em Libras.
Vagas limitadas. Retirada de ingressos 30 minutos antes, na Central de Relacionamento (2º andar).


Paul Singer: Uma Utopia Militante
17/11, quinta, das 19h30 às 21h30
Arte II (13° andar)
Vagas limitadas. Retirada de ingressos 1h antes, na Central de Relacionamento (2º andar).


Saiba mais:

O que é cooperativismo?

O cooperativismo é uma forma de produzir produtos e serviços através de uma cooperativa criada e administrada de forma coletiva entre as trabalhadoras e  trabalhadores envolvidos. É levado em consideração não só a geração de lucros, mas também a justiça social e a sustentabilidade, prezando pelos compromissos de honestidade, equidade, solidariedade e transparência. No cooperativismo as pessoas produzem com um objetivo comum, compreendendo que sozinhas teriam pouca oportunidade de negociação e sustentação de seus projetos e renda.

Os 7 princípios do cooperativismo são:

  1. Adesão livre e voluntária dos/as seus/suas associados/as; 
  2. Gestão democrática: com todos/as se envolvendo na gestão e produção, de modo a que o resultado seja distribuído proporcionalmente ao trabalho de cada cooperado/a; 
  3. Educação, formação e informação; 
  4. Participação econômica dos seus membros; 
  5. Autonomia e independência com relação ao governo, empresas ou outras organizações; 
  6. Interesse pela comunidade; 
  7. Intercooperação entre empreendimentos solidários. 

Devido aos atuais desafios do mundo do trabalho, o cooperativismo acaba sendo uma forma de enfrentar o desemprego e valorizar a importância da convivência e da ação coletiva. É uma maneira de garantir que se tenham relações de trabalho justas, bem como evitar a precarização do trabalho, além de fortalecer a solidariedade entre as pessoas. 

O que é plataforma?

Plataforma é um conceito que pode ter muitos significados, como por exemplo um software, um produto ou um ambiente de desenvolvimento. No contexto deste projeto, abordamos as plataformas enquanto infraestruturas digitais que funcionam como intermediárias entre fornecedores de serviços e o público consumidor, facilitando o contato entre ambos e regrando (e influenciando) como as ações deles podem acontecer.

São infraestruturas digitais (re)programáveis que a partir da facilitação de diferentes atividades – como motorista, delivery, mensageiro e redes sociais – moldam as interações dos usuários. As plataformas possuem diferentes conotações conforme o campo de estudo. 

É importante lembrar que as plataformas são produtos fabricados a partir da ação humana, e portanto carregam consigo todas as intencionalidades, concepções e interesses daqueles que as criaram.

O que é Cooperativismo de Plataforma?

O cooperativismo de plataforma, ou cooperativismo digital, é uma alternativa à economia do compartilhamento, comprometido com a transparência das informações, relações decentes de trabalho e tomada de decisão democrática. 

O conceito de cooperativismo de plataforma se baseia em três partes: 

1) Clonar a finalidade tecnológica de um aplicativo ou sistema, mas alinhá-lo a um modelo de gestão democrático, distribuindo os benefícios entre as pessoas envolvidas na construção, manutenção e consumo dessas plataformas; 

2) Fortalecimento da solidariedade entre trabalhadores/as, consumidores/as e demais parceiros/as; 

3) Ressignificar o conceito de inovação e eficiência, subvertendo a ideia de lucro para poucos para o conceito de benefício para todos.

Os 10 princípios do cooperativismo de plataforma são:

  1. Ressaltar a importância da propriedade coletiva, revigorando a chamada economia de compartilhamento, apesar de as novas gerações optarem por acessar os bens (ao invés de possuí-los);
  2. Pagamentos decentes e seguridade de renda;
  3. Transparência dados gerados por todos os envolvidos nos processos;
  4. Reconhecer a importância dos trabalhadores em criar e administrar as plataformas;
  5. Trabalho codeterminado, permitindo que aprendam mais sobre o ritmo do próprio trabalho;
  6. Moldura jurídica protetora;
  7. Proteções trabalhistas e benefícios;
  8. Proteção contra comportamento arbitrário que afete o/a trabalhador/a;
  9. Rejeição à vigilância excessiva;
  10. Direito de se desconectar e valorização dos momentos de lazer e descanso.

Qual é a diferença entre Cooperativismo de Plataforma e o Cooperativismo Tradicional?

Com a expansão da economia digital, profissionais que atuam nos sistemas digitais e que acreditam nos princípios do cooperativismo tradicional começam a pensar na criação de plataformas baseadas em condições de trabalho decentes e gestão democrática e transparente de dados. 

Desta forma, cooperativismo de plataforma e o tradicional têm compromissos de criar soluções e alternativas para problemas diversos. O de plataforma visa a construção e condução de plataformas digitais pelos/as trabalhadores/as, que comercializam diretamente seus serviços com o público. O tradicional procura soluções para questões econômicas e sociais que vão além das plataformas virtuais,como a educação de populações marginalizadas e pobreza de pessoas idosas, por exemplo. 

O que é Economia Solidária?

A economia solidária visa a criação de estruturas de gestão que não estejam baseadas na desigualdade e exploração dos trabalhadores. Os que produzem são considerados os proprietários do empreendimento em questão, não havendo distinção entre patrões e empregados, e com a distribuição igualitária dos ganhos entre todos os membros da empresa (a cooperativa). 

Na economia solidária a cooperativa assume a responsabilidade de partilhar demandas e lucros, garantindo o bem-estar dos/as trabalhadores/as, que atuam por meio da autogestão. Deste modo, as pessoas que fazem parte do empreendimento conhecem os fluxos de criação e elaboração dos produtos e serviços, priorizando a sua subsistência econômica e garantindo seus direitos. 

O que é Uberização?

O termo uberização é utilizado atualmente para se referir a aspectos relacionados à precarização das condições de trabalho de pessoas que oferecem seus serviços (e nisso incluem-se não só um meio de locomoção como carro ou bicicleta, mas também tempo pessoal e investimento em combustíveis, por exemplo) a plataformas que conectam esses  prestadores a clientes, na chamada economia do trabalho sob demanda.

O que a princípio pode parecer um modo interessante de compartilhamento entre indivíduos, na prática resulta na busca incessante por lucros por parte de empresas de grandes plataformas, que não se preocupam em assegurar a seus colaboradores e colaboradoras direitos trabalhistas básicos. Além disso, essas plataformas submetem os demais envolvidos no processo de “compartilhamento” a regras criadas de forma unilateral. Portanto, o processo de uberização gerencia trabalhadores e trabalhadoras de modo a deixá-los submetidos a condições em que existe pouco ou nenhum poder de reivindicação e decisão.

O que é Economia do Compartilhamento?

A proposta da economia de compartilhamento é marcada por traços de cooperação e sustentabilidade, superando o individualismo e ressaltando o processo coletivo. Por exemplo, se você tem um apartamento que não utiliza, pode anunciar em um serviço de hospedagem online para ter um ganho extra. Da mesma forma, as pessoas estão inclinadas a investir na experiência de alugar um quarto ou utilizar serviços de transporte privado para acessar tais bens ao invés de comprar seus próprios carros e casas.

No entanto, observa-se que esses comportamentos têm sido apropriado por plataformas por na verdade fomentar relações caracterizadas por transações individualizadas, de curto-prazo, imediatas e episódicas. Desse modo, as relações de trocas na economia do compartilhamento acabam sendo baseadas na eficiência dos custos, auto-interesse e geração de lucro, sem levar em conta os impactos econômicos, sociais e ambientais a níveis locais e globais.


Texto e pesquisa:

Évilin Thaoane de Matos Campos – Jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela Unisinos (Porto Alegre, RS) e membro do laboratório de pesquisa DigiLabour

Fabricio Barilli – Comunicador digital, mestre em Ciências da Comunicação pela Unisinos (Porto Alegre, RS) e membro do laboratório de pesquisa DigiLabour

Referências bibliográficas:

Boletim sobre Cooperativismo desenvolvido pelo Pólis – Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais, publicado na coleção REPENTE: Participação Popular na Construção do Poder Local.

The platform society: public values in a connective world (2018), de José van Dijck, Thomas Poell e Martijn de Waal. Oxford University Press, USA. 

Cooperativismo de plataforma (2017), de Trebor Scholz, acadêmico-ativista e diretor fundador do Institute for the Cooperative Digital Economy na The New School em Nova York. 

A economia solidária em tempos de uberização (2021), organizado por Eder Dion de Paula Costa e Hector Cury Soares. 

Uberização: a nova onda do trabalho precarizado (2019), de Tom Slee. Editora Elefante. 

Tipificando a Economia do Compartilhamento e a Economia do Acesso (2019), publicado em Organizações & Sociedade.

Conteúdo relacionado

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.