A importância da boca para o povo Guarani Mbya 

02/09/2026

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Por Leandro Kuaray Mirim dos Santos* 

Para o nosso povo Guarani Mbya, o corpo humano não é compreendido apenas como uma estrutura biológica ou mecânica, mas sim como um lugar sagrado onde dimensões terrenas e divinas se encontram. Dentro dessa perspectiva cosmológica, a boca assume uma centralidade que ultrapassa infinitamente a função fisiológica da nutrição ou da sobrevivência física. Embora seja o canal de entrada dos alimentos que sustentam a matéria, ela é, fundamentalmente, o portal por onde se manifesta a alma e a conexão com o sagrado. Compreender a importância da boca para os Guarani Mbya exige um mergulho em sua filosofia mais profunda, na qual a palavra, o som e o sopro criador dão sentido à própria existência.  

Para entender o papel da boca na cultura Guarani Mbya, é preciso compreender o Ayu. Para os Mbya, Ayu não significa apenas “palavra” ou “linguagem”, no sentido gramatical; o termo é traduzido de forma mais precisa como “alma-palavra” ou “porção divina da linguagem”. Na mitologia de criação do nosso povo Guarani, o Deus Criador, Nhanderu Tenonde, criou os fundamentos da linguagem antes mesmo de moldar a própria Terra e o espaço físico.  

Quando uma criança nasce e começa a falar, os Guarani Mbya reconhecem que uma divindade enviou uma alma-palavra para habitar aquele corpo. Assim, a boca funciona como o instrumento sagrado por onde essa porção divina se exterioriza e se comunica com o plano terreno. Falar, para um Guarani Mbya, é um ato de manifestação da própria alma. Por essa razão, o uso da boca exige extrema responsabilidade espiritual: o que sai dela tem o poder de construir a harmonia ou desequilibrar o cosmos.  

A dimensão mística da boca se torna ainda mais evidente nas práticas rituais realizadas na Opy (a casa de rezas tradicional). Nesses espaços, os líderes espirituais, conhecidos como xeramoi (pajés), utilizam a boca como o principal veículo de cura e de equilíbrio da comunidade. É através dela que são entoados os Mborai – os cantos sagrados transmitidos pelos deuses. O canto dos Guarani Mbya não possui um propósito estético ou de entretenimento; ele é uma prece contínua que sustenta a estrutura do mundo e afasta as imperfeições da Terra.  

Além disso, a boca é o meio pelo qual se utiliza o petyngua (o cachimbo sagrado). A fumaça do tabaco verdadeiro, ao ser soprada pela boca do xeramoi (pajé), atua como um elemento purificador. O yvytu (sopro) que sai da boca carrega a energia vital e as intenções espirituais do rezador, servindo como uma ponte direta de comunicação que eleva os pedidos dos Guarani Mbya até Nhanderu e traz as bênçãos divinas de volta à comunidade. 

Historicamente, a cultura Guarani Mbya estruturou-se sem o uso da escrita alfabética ocidental. Toda a riqueza dos conhecimentos médicos, astronômicos, históricos e mitológicos foi – e continua sendo – preservada exclusivamente através da oralidade.  

A boca dos mais velhos (os sábios, anciãos e anciãs) funciona como a biblioteca viva do povo. É por meio das narrativas contadas ao redor do fogo que as novas gerações aprendem quem são, de onde vieram e como devem se comportar.  

A boca que narra os mitos de origem preserva a identidade étnica e garante a continuidade do povo contra as pressões da sociedade envolvente. Em mais de quinhentos anos de contato e colonização, a persistência na transmissão oral da língua nativa através da fala cotidiana foi a maior arma de resistência dos Guarani Mbya. Manter a boca falando o idioma Guarani é um ato político de demarcação de sua existência como povo originário diferenciado. 

A importância da boca também molda o comportamento social cotidiano dos Guarani por meio do Mbyá Reko, que representa o sistema jurídico, cultural e ético de conduta do povo Guarani. Para alcançar o teko porã (o bem viver ou a vida plena e harmoniosa), o controle sobre a boca é fundamental. Existe uma profunda valorização do silêncio e da moderação no falar.  

Os Guarani Mbya consideram que falar em excesso, gritar ou proferir palavras com raiva esvazia a alma e atrai más energias. A boca deve ser guardada para palavras belas, verdadeiras e que promovam a paz coletiva. A fofoca, a mentira ou a discórdia são vistas como doenças do espírito que entram e saem pela boca. Assim, o domínio sobre o próprio falar é um sinal de amadurecimento espiritual e de respeito.  

A cura pela boca… 

Os Guarani possuem um conhecimento botânico ancestral profundíssimo. Utilizamos cascas, folhas e raízes (como o pacuri, o cipó-neve e a própria erva-mate) em infusões, banhos e chás para tratar desde problemas respiratórios e digestivos até infecções e vários outros problemas que afetam o corpo. 

 … e a luta pela boca 

No mundo atual, a boca também é para resistir. A nossa existência plena está sob constante e violenta ameaça. A floresta que nos cerca está sendo devastada, os rios sagrados estão sendo poluídos pelo mercúrio e pelo esgoto, e o asfalto das grandes metrópoles avança implacavelmente sobre as nossas tekoa. É exatamente diante desse cenário de opressão que a boca assume o seu papel mais urgente, cortante e visceral: ela se torna a nossa principal trincheira de resistência política.  

Os não indígenas muitas vezes alimentam a ilusão de que a nossa luta se faz apenas com o vigor do corpo, ocupando fisicamente as terras ancestrais ou resistindo de peito aberto diante dos tratores e das forças repressivas do Estado. Eles não conseguem compreender que a nossa maior e mais indestrutível força reside na boca. É através dela que mantemos viva a nossa língua colonialmente encurralada. Falar o Guarani Mbya em pleno século XXI, em meio à pressão esmagadora da homogeneização cultural e tecnológica, é um ato de rebeldia radical. 

Cada vez que abrimos a boca para pronunciar as palavras que nossos antepassados falavam, nós rasgamos o projeto de apagamento que foi traçado para nós desde o primeiro dia da colonização. A nossa boca grita contra as teses jurídicas que tentam roubar nosso direito à terra, contra o racismo estrutural que sofremos nas cidades e contra a invisibilidade institucional. A nossa voz carrega o peso de todos aqueles que foram calados à força ao longo da história. A boca que um dia apenas cantava a harmonia da criação, hoje precisa clamar por justiça em tribunais e microfones, impedindo que o mundo seja engolido pela ganância.  

A importância da boca para os Mbya reside na sua centralidade para a sobrevivência cultural e espiritual do Guarani Mbya. Pela boca, os rezadores entoam os cantos sagrados que mantêm o equilíbrio do mundo; pela boca, a memória ancestral e os saberes. 

*Leandro Kuaray Mirim dos Santos é indígena Guarani Mbya, professor e residente da Terra Indígena Ribeirão Silveira. 

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