
As prostéticas bocas-queer (território bucal da população LGBTQIAPN+): (re)significando e/ou (des)construindo (pre)conceitos
Por Luiz Eduardo de Almeida*
Olá! Que satisfação em ter você comigo! Espero corresponder às suas expectativas, afinal, se nos encontramos, é porque a temática despertou sua curiosidade e/ou interesse. Ademais, para que a leitura seja mais bem aproveitada, você precisará de duas coisas: sua boca e sua mente aberta para novas reflexões.
A apresentação do conteúdo deste texto3 será dinamizada por meio de duas questões direcionadoras, sendo elas: “O que são identidades LGBTQIAPN+?” e “Como a boca se articula com as identidades LGBTQIAPN+?”
O que são identidades LGBTQIAPN+?
O ser humano é um constructo composto por dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais, atravessado por interseccionalidades e marcado pela diversidade existencial. Sob a ótica do biopoder de Foucault4 (que molda e normatiza a vida) e da necropolítica de Mbembe5 (que dita quem tem o direito de viver e quem é deixado para morrer), a diversidade, em nosso atual cenário capitalista e de herança colonial, ganha o caráter de risco social. Corpos são disciplinarizados pelos ditames de grupos hegemônicos. Quanto maior o desalinhamento em relação a essa norma, maiores serão as barreiras para a sobrevivência e para a garantia da dignidade existencial.
Nesse contexto, a cis-heteronormatividade6 impõe-se como a única forma legítima de existência, rotulando as vivências LGBTQIAPN+7 como anormais. Essa engrenagem preconceituosa materializa-se na depreciação e na eliminação física de corpos. O impacto da violência varia de acordo com o grau de desalinhamento: a população LGBA (lésbicas, gays, bissexuais e assexuais), essencialmente cisgênera e com maior passabilidade8, concentra esforços na criminalização do preconceito e no reconhecimento de suas famílias; já as identidades TQI+ (transgêneros, queers, intersexos e outras), ainda lutam pelo direito elementar de existir, pela despatologização e pela aceitabilidade de suas identidades. Produzir conhecimento contra essa intolerância é fundamental para desconstruir os argumentos opressores e fortalecer as vítimas.
Não obstante, como cirurgião-dentista e professor que sou, deparei-me com uma crucial questão: como posso utilizar os meus conhecimentos odontológicos para evidenciar as identidades LGBTQIAPN+?
E assim surgiu a boca.
Como a boca se articula com as identidades LGBTQIAPN+?
Para além dos limites do fisiologismo odontológico tradicional, adota-se aqui a “boca botazziana”9, que deixa de ser apenas um órgão puramente dentarizado e passa a ser entendida como um território corpóreo, socialmente influenciado, central na formação do psiquismo, da subjetividade, do desejo e da própria identidade do indivíduo. Ademais, por sua potência pulsátil e sensorial, emerge o papel genital da boca – um aparato “genital-generificado” forrado de mucosa, lubrificado por saliva e apto a dar e receber prazer. Na práxis, a língua e as texturas celebram o sexo bucal, promovendo ilimitados encontros de identidades de gênero e sexualidades.
Contudo, em interface com as identidades LGBTQIAPN+, a boca também é disciplinarizada pela cis-heteronormatividade coercitiva, que impõe o binarismo (bocas masculinas e femininas) e repudia pensamentos, expressões10 e práticas que rompam com essa norma. Mais do que isso, a boca é o alvo físico da opressão: lábios ensanguentados, dentes perdidos e ossos faciais quebrados são marcas literais da violência contra esse grupo.
A emancipação, portanto, exige a “queerização” da boca e a validação de suas tecnologias bucossociais. A relação entre a boca e suas funções eróticas é especialmente destacada na comunidade LGBTQIAPN+; são bocas que vivenciam e celebram diferentes sexualidades e identidades de gênero, e é por meio dessas mesmas bocas que seus modos de viver e seu direito de existir são reivindicados.
Essas bocas tornam-se “prostéticas bocas-queer”, dotadas de “próteses bucossociais” humanas e políticas que materializam desejos cruciais na afirmação existencial LGBTQIAPN+. Essa diversidade reflete-se em plurais performances (“boca-cis”, “boca-trans”, “boca-travesti”, entre outras) que buscam ser ouvidas em seus respectivos lugares de fala, demandando políticas públicas de cuidado.
Por fim, uma vez que falamos em cuidado, é mister ressaltar que a atenção integral à saúde bucal de pessoas LGBTQIAPN+ deve ser pensada e dinamizada sob duas dimensões indissociáveis:
Agradecimentos
Agradeço primeiro a você, leitor, por me acompanhar até aqui. Em seguida, não poderia encerrar sem agradecer, por suas contínuas e diferenciadas presenças durante meu percurso de estudos de gênero, à equipe do Sesc SP e aos professores Dr. Carlos Botazzo (o mestre da bucalidade e dos bucaleiros), Dr. Fábio Mialhe e à Dra. Valéria de Oliveira. Não se esqueçam: agradecer é reconhecer a importância daqueles que foram fundamentais.
*Luiz Eduardo de Almeida é professor associado do curso de Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Doutor em Odontologia (Saúde Coletiva) pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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