
Por Carlos Botazzo*
É bastante comum as pessoas terem dúvidas sobre algo em sua boca ou sua condição bucal. Naturalmente, dúvidas podem surgir em relação a qualquer parte do corpo, mas é provável que, pelo fato de a boca humana achar-se em centralidade em nossa existência, as pessoas expressem, com mais frequência, dúvidas bucais. Bem, pode parecer exagerado, porém é certo que manifestamos questionamentos quando sentimos alguma coisa, visto que raramente conseguimos visualizar nosso corpo todo. Ao contrário, apenas uma parte do nosso corpo é visível diretamente. Por isso, contamos com a ajuda do espelho para ver o que se mantém diretamente invisível.
Essas observações vêm do tempo em que pratiquei a clínica. Conheço profissionais que não gostam de ser abordados fora do consultório, e mesmo alguns dizem sentir-se incomodados quando, no ambiente coletivo dos serviços públicos de saúde, pacientes se aproximam em busca de algum diálogo. Confesso que muitas vezes eu também me senti dessa maneira, principalmente quando as abordagens aconteciam em espaços de socialização e até em filas de cinema. Exageros à parte, se o tempo e o lugar permitiam, com prazer me estendia nos detalhes.
É importante destacar que nem todos têm as mesmas preocupações. Há quem se preocupe mais com as partes duras – como dentes ou ossos – enquanto outros se mostram preocupados com língua, bochecha e gengivas, não raro, com a garganta e o arco bucofaríngeo, ou seja, a entrada por onde descem os alimentos depois de mastigados. Assim, cada pessoa teria um modo próprio de ser afetada por diferentes problemas, ou antes, pelo modo como percebe certos sintomas ou incômodos com origem na cavidade bucal.
Este fato pode indicar a impossibilidade de termos orientações gerais, válidas para qualquer pessoa em qualquer situação, o que tornaria praticamente impossível pensar formas de promover a saúde, ainda mais se pensarmos o corpo tomado em seu conjunto. No entanto, esse aparente problema é facilmente contornado, pois a subjetividade humana, isto é, o mundo das nossas sensações, percepções, sentimentos, sonhos etc., é tão rica e variada que impediria qualquer abordagem comum.
Naturalmente, essa subjetividade toda tem um componente individual muito acentuado – cada um é cada qual, como se diz –, mas o fato é que é possível, na vida social, agrupar tendências com base em percepções e visões comuns de mundo etc. Individualmente, somos únicos, claro, até por conta da nossa identidade pessoal, mas não somos seres afastados da vida coletiva. Isso facilita agrupar tendências comportamentais que, no fundo, são identitárias. Isso pode ser observado na política, no esporte, na música, no cinema, na gastronomia e em toda a imensa gama de atividades humanas, tal como a psicologia e a psicanálise nos ensinam. Dá-se o mesmo no ensino e na saúde.
Desse modo, seria mais apropriado iniciar essa conversa abordando o que é comum, para depois verificar as situações divergentes. Eu começaria com uma afirmação simples, que toma as funções bucais como fundamento. Devemos considerar, como ponto de partida, a experiência bucal de cada um e de cada uma, aquilo que vem a ser o modo como cada pessoa usa socialmente sua boca. As funções bucais também podem ser vistas como trabalhos, dado que, ao funcionar, a boca produz alguma coisa: um trabalho mecânico, uma sensação, um prazer, uma palavra, um gesto de carinho. Pensar desse modo tem suas vantagens, pois nos permite avaliar riscos ou diferentes possibilidades; saímos das generalizações e focamos diretamente naquilo que interessa.
De modo geral, podemos dizer que os trabalhos ou funções bucais se repartem em três possibilidades distintas e abrangentes, centrais para a vida psíquica e social humana: a manducação, a erótica e a linguagem.
A palavra manducação vem do latim manducatio, manducare, isto é, comer (em italiano, mangiare; em francês, manger). Implica apreender, triturar, insalivar, deglutir. De certo modo, é o mundo entrando pela nossa boca, o consumo do mundo! Este movimento todo inicia o processo da digestão: o bolo alimentar é formado e envolvido pela saliva, o que nos permite engolir sem esforço; a delicadeza das mucosas da boca não tolera o contato com alimentos rígidos e secos. Para além do consumo, a manducação mantém relação com o desejo e com a razão. Podemos comer aquém ou além do necessário e nem sempre os alimentos mais recomendados ou “úteis”. Via de regra, comemos as coisas de que gostamos. Contudo, reconhecidamente, comer é uma prática social, profundamente ligada à cultura de um povo.
A erótica (do grego Eros, amor) nos nutre por dentro e por fora. Todo o corpo apresenta essa propriedade sensorial e, no entanto, a boca se acha em posição de vantagem em relação a outras partes do corpo, salvo as genitais, propriamente, a despeito de que a cavidade bucal pode ser tomada nessa condição. Mucosas, língua, músculos, saliva: este é um conjunto altamente sensível e ativo – mesmo quando, nos jogos sexuais, funciona como boca receptiva.
A relação boca-seio é parte da vida primordial do bebê. A um só tempo, é nutricional e erótica. Trata-se, como dispositivo, da manifestação do caráter erógeno dessa relação. A princípio, o consumo do corpo do outro é, naturalmente, impositivo. Na vida adulta, essa eroticidade se recupera – mas, desta vez, o desfrutar o corpo do outro por meio da boca se dá de forma consentida. Nessa relação, também há consumo, mas de forma mediada pelo psiquismo (em geral, por um pingo de razão). Por esse motivo, podemos dizer que produção, razão e psiquismo, nessa particular função da boca, se dão como produção de fatos eróticos. A boca se mostra biologicamente disposta para tal.
Finalmente, a linguagem. Todo o corpo “fala”, de modo não verbal. As manifestações sociais humanas, as construções do ser humano, tudo comunica. Contudo, a língua falada, ou verbal, é a atividade essencial da boca. “No princípio, era o verbo”. É por meio de suas vísceras que a boca fala. Isso pode parecer estranho, mas é assim, deste modo. E são as mesmas vísceras que nos permitem falar mais de mil idiomas.
Como produzimos os sons
A coordenação mecânica das vísceras acontece próxima ao lobo frontal esquerdo, na Área de Broca, enquanto a área de significação situa-se na parte posterior do cérebro, na Área de Wernicke. Língua, dentes e lábios: a maior parte dos sons que emitimos é formada nas pregas vocais, situadas na laringe, e modulada na boca e, em parte, pelas fossas nasais. Todavia, os idiomas possuem formas diferentes de produzir sons bucais. Alguns são produzidos como estalidos entre as bochechas e a língua, ou eventualmente, na garganta, enquanto outros sons são produzidos pela contração dos lábios. Os grupos vocálicos e consonantais são classificados, quanto ao local, em dentolinguais, linguopalatais, dentoalveolares e labiais. Alguns sons são fricativos. Naturalmente, há muito mais coisas em relação a esse tema – aqui foi feito apenas um resumo1.
Sabemos que os bebês “oralizam” já a partir do quinto ou sexto mês, produzindo sons e ruídos que, apesar de inicialmente desconexos, são fundamentais para o posterior controle da fala e para estabelecer todo o sistema de significação e de produção de sentido. Aliás, mesmo quando ainda não “falam”, os bebês se comunicam: eles conseguem interpretar aspectos sutis na relação parental e reconhecem a fisionomia dos pais e de outras pessoas cuidadoras. Tudo isso vem a significar a complexidade desse território. Nessa condição, não é difícil perceber o quanto ele é importante em nossa economia corporal, mas não apenas do ponto de vista da sobrevivência. Por tudo isso, ressalta-se a sua centralidade para nossa experiência subjetiva.
Os trabalhos ou as funções bucais são essas; podemos virar para um lado ou para outro, e sempre iremos resvalar nesta tríade: manducação, erótica e linguagem. É bom pensar que função é uma coisa que não se vê, mas cujo efeito se sente. Você não vai conseguir ver sua mastigação, por exemplo. Ou “ver” sua fala, ou mesmo “ver” a sexualidade presente neste lugar. Todavia, sentirá.
Há vivências bastante simples e que ilustram esse ponto perfeitamente. Por exemplo, se você colocar um punhado de castanhas na boca e mastigá-las, em poucos segundos, elas formarão uma pasta, impregnadas pela saliva; os dentes revelam a eficácia da mastigação e, sob ação das enzimas salivares, os amidos das castanhas são liberados. Finalmente, os sabores se tornam evidentes ao paladar. A formação do paladar nos permite distinguir os alimentos de que gostamos de comer. As pessoas formam uma verdadeira biblioteca de sabores, em geral desenvolvida até o final da adolescência, e muito raramente alguém “troca” de paladar. Também o beijo nos permite claramente perceber ou sentir uma função da boca; ou pronunciar as belas e boas palavras, e os oradores são exímios nesta arte. Enfim, é nessa repartição que são constituídas as experiências bucais dos sujeitos.
Como cuidar da boca: dicas práticas
Muitas vezes perguntam: como cuidar disso tudo? Como limpar os dentes? Existem técnicas apropriadas para realizar a limpeza bucal? A língua também deve ser escovada? Bem, nossa sociedade assiste a um boom de produtos para proceder a essa limpeza. Não por acaso, as prateleiras das farmácias vivem abarrotadas de instrumentos com esta finalidade. Devemos simplificar o assunto, sempre observando uma regra básica: mantenha tudo isso limpo!
Para começar, cuide da alimentação. Eleja alimentos fibrosos e detergentes, como, por exemplo, ao comer a laranja inteira; evite excessos no consumo de alimentos que contêm açúcar, foque na alimentação natural (ou “comida de verdade”) e fuja dos ultraprocessados! O uso do fio dental é recomendado e você deve utilizar uma escova de dentes não muito dura e com a qual você se sinta confortável. Aparelhos que funcionam com jatos intermitentes de água sob pressão são ótimos para remover restos alimentares grudados entre os dentes e conseguem quebrar o ciclo de reprodução de bactérias. Todavia, o uso adequado do fio dental e da escova permite controlar satisfatoriamente a formação de placa (ou biofilme) e apresenta um efeito espetacular.
Para além do cuidado: padrões estéticos e a boca
Finalmente, para desenvolver um pensamento crítico em relação a procedimentos estéticos aplicados às bocas, algumas palavras precisam ser ditas. Todos sabemos que o corpo pode ser visto como uma grande tela. Desde tempos pretéritos, os humanos realizaram e ainda realizam inscrições e desenhos na pele, sobretudo em partes expostas, por exemplo. Também inseriram determinados objetos de osso, madeira ou metal, atravessando as narinas, as orelhas e os lábios. Tais práticas são observadas entre todos os povos e, mesmo na contemporaneidade das sociedades urbanas, experimentaram expressivo aumento. Os dentes não ficaram de fora dessa perspectiva. Um novo padrão estético foi construído, de modo que possuir dentes claros se tornou um “standard”, principalmente entre os que trabalham em plataformas midiáticas, influenciadores ou agentes do mercado financeiro.
Naturalmente, cada um é livre para proceder com seu corpo como lhe aprouver. Mas é necessário ter prudência. Muitas dessas práticas implicam o desgaste do esmalte, a camada mais externa e brilhante dos dentes, e esse desgaste é irreversível, ou seja, é um estado permanente. Com isso, em conjunto, o dente poderá sofrer infiltrações, e esta prática expõe a dentina subjacente a agentes microbianos. Isso se chama biocorrosão. Muitas pessoas públicas ostentam um sorriso padronizado, exibindo dentes perfeitamente alinhados e branquinhos. Também se tornaram comuns intervenções que visam aumentar a massa aparente nas bochechas, nos lábios e nas pregas que se localizam entre o nariz e a bochecha.
Bem, liberdade é isso. E hoje, lá onde isso é desejado, substituiu-se a correção ortodôntica pela correção da imagem da face – lábios, bochechas e dentes. O desejo de performar é um evento prostético. Ou seja, esses “enchimentos” não substituem nem recuperam funções; dizem respeito ao gênero, à sexualidade e à generificação dos corpos2. O colega Luiz Eduardo de Almeida, em sua pesquisa, destaca que alguns procedimentos odontológicos, como a reanatomização dentária, as cirurgias bucomaxilofaciais e a harmonização orofacial, são fundamentais para a reafirmação do gênero, impactando diretamente na qualidade de vida dessas pessoas.
Essa é, enfim, a bucalidade. Pudemos perceber como a boca humana acha-se em permanente exposição e, desde o nascimento, ela se mantém em centralidade até o final dos nossos dias. Com essas breves palavras, espero ter aberto um diálogo com o público.
*Carlos Botazzo é odontologista, doutor em Saúde Coletiva e livre-docente em Ciências Sociais em Saúde. Professor associado do Departamento de Política, Gestão e Saúde, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP).
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