A tapeçaria invisível da linguagem: a tradução como travessia

30/04/2026

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Por Jamille Pinheiro Dias*

Podemos dizer que toda obra, desde sua origem, já é tradução. É justamente esse ato, simultaneamente íntimo e coletivo, que sustenta “O avesso da tapeçaria”. No cerne deste livro está a constatação de que ler é tentar ordenar o caos da experiência, dar forma ao que se apresenta como excesso ou ruína. Manguel entrelaça autobiografia e filosofia em um movimento que é ao mesmo tempo homenagem e problematização do ato tradutório. É também um convite a aceitar que toda leitura é sempre provisória, uma abertura para o desconhecido.

Manguel nasceu em Buenos Aires em 1948, cresceu entre Tel Aviv e a Argentina, dirigiu a Biblioteca Nacional da Argentina e hoje vive em Lisboa. É autor de clássicos como Uma história da leitura e A biblioteca à noite, obras que redefiniram o modo como compreendemos a leitura. Sua escrita combina precisão ensaística com lirismo, e seu repertório literário atravessa séculos, línguas e tradições, refletindo seu percurso como leitor, editor, romancista, estudioso da Bíblia, tradutor e viajante. Essa circulação entre países e idiomas marca sua concepção de tradução como travessia: uma travessia que exige escuta, humildade e coragem interpretativa.

Para Manguel, nada do que lemos está “dado”: ler é sempre reconstruir, reconfigurar, recriar. “No ato de criação, o texto está sozinho […]. Confrontado com o leitor, o texto começa a existir do outro lado da página”. O original e a leitura constituem uma relação dinâmica, nunca fixa, e é dessa relação que a tradução nasce. Cada leitor traduz; cada tradução relê; cada releitura reinscreve o texto no fluxo do tempo. É nesse movimento que, como escreve Manguel, “toda tradução é uma elegia”: ela lamenta o que se perdeu, mas comemora, ao mesmo tempo, o que se torna possível na nova língua.

Manguel fala da tradução como tapeçaria, palimpsesto, eco, sombra, semente. Em todos esses casos, a tradução é deslocamento e dobra. O tradutor não busca restaurar um Éden linguístico perdido; busca criar um espaço de convivência entre diferenças. É nesse ponto do livro que Manguel afirma que “cada tradução é um renascimento”, frase que poderia acompanhar qualquer uma das imagens que mobiliza, sejam elas fios, camadas, refrações ou germinações.

Talvez por isso Manguel convoque o leitor a se aproximar desse avesso: a compreender que as escolhas do tradutor, às vezes discretas, às vezes audaciosas, fazem parte da vida do texto.

O público costuma ver apenas o nome do autor, mas o que lê, especialmente em obras canônicas, é o trabalho minucioso do tradutor, sua sensibilidade estilística, seu fôlego intelectual.

Outra imagem central é a do palimpsesto, símbolo de sobreposição e reescrita. A tradução, para Manguel, é “uma versão que se sobrepõe a outra […] e jamais pode pretender ser definitiva”. Por isso, grandes obras continuam sendo retraduzidas: não porque tenham sido mal traduzidas antes, mas porque a tradução é sempre atualização. Cada época exige sua própria leitura; cada geração, sua própria voz. Os tradutores acalentam a esperança de alcançar os leitores de agora e aqueles cujos jargões ainda não foram inventados, imaginando palavras futuras que abrirão novos sentidos. Essa esperança projeta a tradução para o futuro, situando-a não como repetição, mas como antecipação.

“O avesso da tapeçaria” também atravessa debates clássicos dos Estudos da Tradução: literalidade, fidelidade, autoria, ética da interpretação. Manguel evoca a carta de Maimônides a seu tradutor, Samuel ibn Tibbon, no século XII, lembrando que a tradução palavra por palavra pode produzir opacidade. A tradução é reorganização do sentido, criação de correspondências novas, invenção de ressonâncias. Manguel mostra que o tradutor não apenas escreve, mas desfaz e refaz simultaneamente.

Nessa mesma direção, o livro discute casos de censura, apagamento e manipulação: a feminilização de Alcibíades, a heterossexualização de Michelangelo, a supressão de Heinrich Heine. A tradução é sempre prática situada, atravessada por interesses e disputas. O tradutor pode revelar ou obscurecer, expandir ou restringir, libertar ou submeter.

O livro se aprofunda ainda em aspectos filosóficos da linguagem. Manguel sugere que, desde a queda de Babel, traduzir tornou-se uma forma de religar aquilo que foi separado. É tentativa de reconciliação, não para recuperar uma suposta língua original, mas para criar formas de convivência entre a pluralidade. “Cada língua se desdobra de maneira diferente”, lembra ele, e a chamada tradução correta é “um rótulo burocrático, não uma exigência estética”. O tradutor, portanto, é artífice, leitor profundo, mediador de mundos, criador de transbordamentos. Essa visão aproxima o tradutor do poeta, ambos atentos às zonas de sombra onde o sentido respira. A linguagem é também paisagem, território vivo do pensamento.

Essa reflexão ganha força quando o autor comenta as resistências de Dante, que preferia não ler Homero por não saber grego, ou as cautelas de Montaigne, que via nas traduções bíblicas riscos maiores que na própria obscuridade do texto sagrado.

Mesmo assim, diz Manguel, insistimos em ordenar, classificar e rotular. Queremos coerência. É com humor fino que ele descreve nossa tendência de impor nomes às coisas: diante da sarça-ardente que diz “Eu sou aquele que sou”, respondemos: “Está bem”, respondemos, “mas você também é um espinheiro, Prunus spinosa”. Essa necessidade de nomear revela mais sobre nós do que sobre o mundo: traduzimos para domesticar a vertigem.

Por fim, traduzir é colaborar. É partilhar autoria. É oferecer ao texto uma segunda vida, que não é cópia, mas reinvenção. “Cada tradução é um renascimento”: afirmação de Manguel que explicita o caráter vital do ato tradutório. Cada tradução é também singular. Carrega uma assinatura, uma leitura, uma escuta, uma aposta estética e ética. No Brasil, país em que a pluralidade linguística, histórica e cultural é constitutiva, a tradução é força estruturante — não apenas para o campo literário, mas para a imaginação social.

Ao terminar o livro, Manguel afirma que “os filhos de Adão herdaram a paixão pela tradução”. Talvez seja por isso que tradutores continuam a atravessar séculos conectando línguas que nunca cessam de se transformar. Traduzimos porque buscamos compreender; traduzimos porque desejamos comunicar; traduzimos porque sabemos que nada é fixo; traduzimos porque a linguagem falha, e exatamente por isso produz beleza. Traduzimos, sobretudo, porque a tradução nos permite ver, e ver reiteradamente, o mundo e seus desdobramentos.

É no avesso, onde os fios se cruzam, onde a superfície não é perfeita, onde os nós se revelam, que a tapeçaria encontra seus sentidos. Este livro se inscreve nesse movimento: retoma, renova, ressignifica. E oferece ao leitor a oportunidade de enxergar não apenas a face visível da tradução, mas sua estrutura íntima. Trata-se de um livro que pertence a todos que leem, traduzem, escrevem, nomeiam, escutam e insistem em oferecer novas vidas às palavras.

* Jamille Pinheiro Dias é tradutora e professora da Universidade de Londres

Veja também: 

:: trecho do livro 

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