
A introdução da alimentação complementar é uma fase de grande importância para a formação de hábitos alimentares saudáveis à mesa, que acompanharão a criança ao longo de toda a vida. Nessa fase, o bebê passa a explorar, de forma gradual, um universo diverso de sabores, cores e texturas. Uma introdução alimentar adequada, que respeita a individualidade de cada criança, é baseada em alimentos in natura e minimamente processados e considera, de forma integrada, os aspectos sociais e emocionais que envolvem as refeições. Ao longo deste processo, a amamentação mantém-se como base essencial da alimentação, devendo ser preservada e incentivada, mesmo com a oferta de novos alimentos a partir dos 6 meses.
Nesta entrevista, a nutricionista Juliana Bergamo Vega, especialista em alimentação infantil e transtornos alimentares, explica a complexa jornada da introdução alimentar entre as crianças, a importância da continuidade do aleitamento materno até, pelo menos, os 2 anos e os desafios enfrentados por mães, pais e cuidadores. Mãe de Martin, de 9 anos, e mestra em Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Juliana destaca a necessidade de adotar uma abordagem flexível e consciente na alimentação, visando à saúde e ao desenvolvimento integral de cada criança.
O que é considerada uma introdução alimentar ideal?
A introdução alimentar é um momento muito importante da fase de formação dos hábitos alimentares e do aprendizado na vida humana. Primeiro, a gente precisa entender que cada criança tem um ritmo próprio, que inclui marcos de desenvolvimento. Por volta dos 6 meses, começam a surgir os sinais de prontidão para ingerir alimentos sólidos: sentar-se com o mínimo de apoio, sustentar o tronco, levar objetos à boca e demonstrar interesse pela comida. Ainda nessa fase, diminui o reflexo de protrusão (movimento que projeta a língua para fora ao sentir um estímulo ou objeto nos lábios), e podem nascer os primeiros dentinhos. Além disso, devemos ofertar alimentos in natura, minimamente processados, para favorecer a mastigação, e não fornecer doces e ultraprocessados pelo menos até os 2 anos.
Qual a importância da alimentação na primeiríssima infância para a construção de hábitos saudáveis ao longo da vida?
A introdução alimentar está diretamente vinculada à formação de hábitos, e não se trata de um processo isolado. É quando apresentamos o universo dos alimentos aos bebês. Nosso papel é inseri-los no contexto da alimentação humana, numa fase de descobertas de sabores, cores e texturas. Vamos sempre no ritmo da criança, observando suas reações, aceitações e rejeições. Mais do que isso, é importante criar um momento de conexão familiar no contexto das refeições, sem o uso de telas – as refeições têm também um papel social.

Você defende a autonomia do bebê na introdução alimentar?
Sim, é importante que a criança tenha autonomia para demonstrar sinais de fome, interesse e saciedade, além da habilidade para pegar os alimentos com a colher ou a mão. Seja qual for o método adotado, a criança pode – e deve – ter um protagonismo nessa fase. De forma mais tradicional, aos 6 meses oferecemos alimentos amassados com garfo – não precisam ser triturados ou peneirados. Do sétimo ao nono mês, a gente amassa menos. Até completar um ano, esperamos chegar a uma consistência semelhante à que os adultos ingerem, com alimentos cozidos, macios e cortados. Para desenvolver bem o paladar, também é indicado que não se misturem os alimentos no início, para que cada novo sabor e textura possa ser identificado e degustado.
Nesse processo, há muitos desafios. Como avaliar a seletividade e identificar o momento de procurar ajuda especializada?
Estudos sobre seletividade mostram que uma exposição consistente, de dez a quinze vezes para um mesmo alimento, está associada a uma melhor aceitação. A rejeição faz parte do processo e do aprendizado. Então, é importante não desistir nas primeiras vezes, mas sem pressionar o bebê ou forçá-lo a comer. Indicamos ofertar os alimentos à mesa, deixá-los à vista. Em média, a seletividade costuma ter um pico entre os dois e três anos, começa a diminuir aos quatro, e aos seis tende a melhorar bastante ou até passar.
A seletividade deve preocupar, seja em crianças neurodivergentes ou neurotípicas, quando exclui grupos inteiros de alimentos, como frutas, legumes ou verduras. E quando há seleção por cores, comportamento neofóbico (aversão a coisas novas), ansiedade em relação a certos alimentos, irritabilidade recorrente nas refeições, prejuízo no crescimento. Tudo isso pode acender um sinal de alerta para investigar melhor e fazer uma avaliação individual, seja com pediatra, nutricionista, fonoaudióloga e/ou psicóloga.
Como fica o aleitamento materno nessa fase de introdução alimentar?
A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) é que as crianças sejam amamentadas até os 2 anos ou mais. Ou seja, a introdução alimentar não substitui o aleitamento materno, nem as fórmulas infantis, se for o caso. A comida funciona como um complemento. O aleitamento deve se manter em livre demanda até o desmame, e a criança, aos poucos, vai entendendo que os alimentos causam saciedade, que há horários para café da manhã, almoço, lanches, jantar e ceia. Isso é um processo que se consolida até o final do segundo ano de vida.
Às vezes, há conflitos intergeracionais em relação à introdução alimentar. Como lidar com afirmações equivocadas, como o leite humano ser “fraco”, ou que é preciso dar água, mingau ou papinha antes dos 6 meses?
A orientação do aleitamento materno exclusivo até os 6 meses tem base científica comprovada. A introdução alimentar precoce expõe os bebês a maiores riscos de engasgos e contaminações, além de atrapalhar a absorção de ferro pelo organismo. Na época dos nossos pais e avós, esses estudos não existiam ou ainda não estavam tão avançados. Hoje, sabemos que há problemas e desfechos negativos em introduções alimentares feitas antes do tempo ideal. Até os seis meses, o leite humano é capaz de oferecer, sozinho, água e nutrientes em quantidade adequada para a saciedade e a hidratação do bebê.
Que estratégias podem ser adotadas para continuar a oferta de leite humano após o início da introdução alimentar e com alterações na rotina de convívio com o bebê?
Um caminho é se preparar e organizar a extração do leite, criando um estoque de leite humano, por exemplo. Ele pode ser armazenado e congelado por até 15 dias (segundo recomendações do Ministério da Saúde). A ordenha pode ser realizada manualmente ou com o auxílio de bombas extratoras, manuais ou elétricas. Não existe um método único para todas as pessoas; a escolha depende do conforto, da rotina e da resposta individual. Também é fundamental que as pessoas que amamentam saibam que não precisam enfrentar esse processo sozinhas. Bancos de leite humano (que são um recurso gratuito e disponível pelo SUS) e consultoras de amamentação, por exemplo, podem oferecer orientações sobre pega, ordenha, armazenamento e manejo das dificuldades mais comuns.
Que caminhos podem seguir as pessoas que enfrentam dificuldades para amamentar?
O leite humano é o alimento ideal para os bebês e deve ser incentivado sempre que possível. No entanto, existem situações em que a amamentação exclusiva não pode ser mantida. É importante investigar se existem estratégias que possam ajudar a manter a amamentação como correção da pega, manejo da produção de leite e ordenha, sempre acompanhados por profissionais capacitados.
A amamentação não passa apenas por uma escolha individual; ela depende de uma rede de apoio familiar e de políticas públicas que favoreçam e apoiem essas pessoas, dando condições favoráveis a amamentação.
Quais orientações práticas pais e cuidadores podem adotar para a organização da rotina e do preparo da comida, com o objetivo de evitar alimentos industrializados e ultraprocessados?
O ideal é que seja feito um planejamento semanal de cardápio e das compras de mercado, feira ou sacolão (para a aquisição de frutas, legumes e verduras da estação, geralmente mais frescos e baratos). Outro hábito que ajuda muito é reservar um dia na semana para cozinhar e congelar os alimentos. Arroz, feijão, carnes e legumes, por exemplo, são itens que podem ser congelados em potes menores, já porcionados. É preciso cuidar também da higienização das frutas, legumes e verduras, deixando-os de molho por 10 a 15 minutos em água e hipoclorito de sódio na diluição recomendada e enxaguando-os antes do consumo. Deixar refeições pré-preparadas e usar alimentos curingas, versáteis e de fácil preparo (como ovos) são boas dicas para facilitar a rotina alimentar.
É importante que a família faça parte desse processo?
Sim, pois o bebê observa o que toda a família come. Isso potencializa seu aprendizado e aceitação. Portanto, a introdução alimentar é uma excelente oportunidade para os adultos mudarem hábitos, olharem para o modo como cada um come e para a qualidade dos alimentos. É um verdadeiro convite. Quando um bebê entra na nossa vida, temos a chance de rever uma série de processos, e as refeições coletivas são um deles. É importante que as crianças aprendam a comer junto, e não separadamente. Elas aprendem na conexão, no estar junto. Assim, vão registrando memórias de sabores, cores e texturas de forma positiva, criando uma teia de referências. É um processo amplo e que não acontece de forma isolada de tudo o que envolve a parentalidade e a educação.
Esta entrevista integra o projeto Do Peito ao Prato, realizado de 1 a 7 de agosto nas unidades do Sesc São Paulo. A programação completa pode ser consultada em sescsp.org.br/dopeitoaoprato.
Conheça também o curso gratuito Construindo o Futuro: Introdução Alimentar para Bebês até 2 Anos, ministrado pela nutricionista Rachel Francischi e disponível na plataforma EAD Sesc Digital.
Leia mais sobre alimentação na primeiríssima infância na publicação abaixo:
Veja 7 orientações essenciais para o sucesso do aleitamento materno
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.