
Muito além da saúde, introdução alimentar ajuda a construir relação afetiva, social e cultural com a comida desde os primeiros anos de vida (foto: Dani Sandrini)
Leia a edição de agosto de 2026 na íntegra
POR DIEGO OLIVARES
Quando Sofia completou seis meses, começou a sentir gostos e texturas diferentes. A bebê, que até então só se alimentava de leite materno, viu o cardápio ganhar novas opções, como frutas e legumes, oferecidos entre os momentos de amamentação ao longo do dia. Era o início de uma etapa que vai muito além de ensinar uma criança a comer. É durante a introdução alimentar que começam a se formar hábitos, preferências e uma relação com a comida que pode acompanhar toda a vida.
Para os pais, porém, esse processo costuma ser acompanhado de uma mistura de entusiasmo, dúvidas e ansiedade. É preciso abrir o apetite para informação de qualidade, uma dose de cuidado e uma colherada generosa de paciência.
“Por ser a nossa primeira filha, confesso que tinha uma expectativa muito alta em relação à introdução alimentar”, conta a farmacêutica Mariana Pereira, mãe de Sofia, hoje com um ano e meio. “A gente acha que vai colocar o alimento ali e a criança vai comer, mas aprende que não é assim. É preciso oferecer várias e várias vezes o mesmo alimento até a criança aceitar, ou mesmo mudar o preparo. Foi a fase mais difícil para mim até agora.”
A experiência de Mariana está longe de ser exceção. O período da introdução alimentar costuma coincidir com o retorno ao trabalho após a licença–maternidade, exigindo que as famílias conciliem novos hábitos com uma rotina já sobrecarregada. Podem somar-se a isso, a rede de apoio reduzida, a avalanche de informações disponíveis na internet (nem todas vindas de fontes confiáveis) e a sensação de que existe uma maneira “certa” de conduzir o processo. “Via vídeos de uma mãe mostrando que o seu bebê comia de manhã um ovo, um pão, uma banana, uma goiaba e uma ameixa. Enquanto isso, aqui em casa, a Sofia muitas vezes comia metade de um ovo”, compara. “Depois de um tempo, passei a ignorar conteúdos como esse”.
“Hoje, a minha principal dificuldade é manejar as expectativas das famílias”, relata a nutricionista Carla Massuia, que há 16 anos atua com alimentação na gestação e na infância. “A principal pergunta que elas fazem é: ‘o que eu faço para meu bebê comer bem?’. E, na cabeça dessas famílias, comer bem está muito mais relacionado à quantidade. Mas a ciência nos mostra que esse não é o principal elemento.”
Segundo o Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos, publicado pelo Ministério da Saúde, a orientação é que a criança seja amamentada já nas primeiras horas de vida e siga até os dois anos, se possível. Até os seis meses, a recomendação é oferecer somente o leite materno. A partir desse período, o bebê deve ser apresentado gradualmente a alimentos variados, explorando sabores, aromas, cores e texturas. Nas primeiras semanas, o foco não é a quantidade ingerida – afinal, o leite materno deve ser mantido como sua principal fonte de nutrição – mas a construção da experiência de comer.
Antes de iniciar esse processo, porém, é preciso observar os chamados sinais de prontidão. O bebê deve conseguir se sentar sozinho ou com apoio mínimo, manter a cabeça firme, demonstrar interesse pela comida durante as refeições da família, levar objetos à boca com coordenação e já ter perdido o reflexo de protrusão, movimento involuntário que faz a língua empurrar para fora qualquer objeto estranho.

Janela de oportunidade
A escritora Lya Luft (1938-2021) costumava dizer que “a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira”. Quando o assunto é alimentação, a metáfora ganha um sentido bastante concreto. “Até o bebê completar dois anos, estamos no que chamamos de janela de oportunidade”, explica Rachel Francischi, mestre em Nutrição pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com mais de 25 anos de experiência na área. “Em nenhuma outra fase da vida temos um desenvolvimento neurológico tão intenso. Garantir nutrientes adequados nesse período significa favorecer o desenvolvimento cerebral, fortalecer a imunidade e reduzir o risco de doenças como diabetes, hipertensão, obesidade e até alguns tipos de câncer ao longo da vida.”
A importância desse período não se resume aos nutrientes. Aprender a comer também é um processo de desenvolvimento. A fonoaudióloga Nathália Anastopulos, especialista em disfagia orofaríngea e desenvolvimento alimentar infantil, além de doutora em ciências da saúde e comunicação humana, lembra que existe uma tendência de imaginar a alimentação como algo automático, quando, na verdade, ela é uma habilidade construída passo a passo.
Por isso, o marco dos seis meses representa muito mais um começo do que um ponto de chegada. “O bebê está escrevendo as primeiras páginas de um livro em branco. Num dia, experimenta uma temperatura diferente; no outro, uma nova textura; depois, descobre um sabor que nunca tinha sentido. Tudo isso faz parte da aprendizagem”, descreve. Essa perspectiva ajuda a aliviar uma das maiores angústias das famílias: imaginar que toda refeição precisa ser um sucesso.
Aprendizado mútuo
Se os bebês estão descobrindo como comer, os adultos também estão aprendendo a alimentar uma criança. É comum que a frustração apareça logo nas primeiras recusas. Afinal, preparar uma refeição, organizar a rotina e ver o prato praticamente intocado pode despertar uma impressão de fracasso.
Carla Massuia observa que essa sensação está profundamente ligada ao desejo de cuidar. “Quando um bebê não cresce durante a gestação, a mãe sente que não conseguiu nutrir o filho. Quando a amamentação não acontece como ela imaginava, muitas vezes surge o mesmo sentimento. Depois, ela prepara a comida, oferece, e o bebê não come. A sensação de incompetência aparece de novo.”
Na tentativa de evitar essa frustração, muitos adultos acabam assumindo uma responsabilidade que não lhes pertence. A ciência do comportamento alimentar trabalha com um conceito conhecido como divisão de responsabilidades. Nele, cabe aos pais decidir o que, quando e onde será oferecida a refeição. À criança cabe decidir se vai comer e quanto vai comer.
“Quando o adulto tenta controlar a quantidade, ele entra num território que não é dele”, resume Carla. “O não comer faz parte do processo.” Essa lógica também ajuda a entender por que insistir, negociar, distrair ou substituir imediatamente um alimento recusado pode produzir o efeito contrário ao desejado.

Estudos mostram que uma criança pode precisar ser exposta mais de vinte vezes ao mesmo alimento antes de aceitá-lo. Caretas, recusas e períodos de desinteresse fazem parte desse caminho. Também é comum que haja algum desperdício, já que ocasionalmente o bebê pode cuspir o alimento ou até mesmo espalhá-lo pelo chão. Cabe aos pais e cuidadores compreenderem que tudo aquilo é parte do jogo. “A sujeira pela casa é obrigatória, mas sofrer com isso é opcional”, brinca a nutricionista.
Criar um ambiente favorável para essa aprendizagem é tão importante quanto escolher os alimentos que irão para o prato. “Uma criança irritada dificilmente vai comer”, explica Carla. “Quando estamos nervosos, nosso organismo entra em estado de alerta e a fome desaparece. Com o bebê, acontece a mesma coisa. Por isso, antes de pensar na comida, é preciso cuidar do ambiente.”
Isso significa reservar um momento relativamente tranquilo para a refeição, sem excesso de estímulos e, principalmente, sem recorrer às telas como estratégia para convencer a criança a abrir a boca. “Quando o bebê está olhando para um celular ou um tablet, ele deixa de perceber a comida”, afirma. “Ele simplesmente engole. Mas isso não é aprender a comer.” A refeição deixa, então, de ser uma experiência para se tornar apenas um ato mecânico.
Respeitar o processo
Nos últimos anos, métodos como o baby-led weaning (BLW), em que o bebê recebe pedaços maiores de alimentos para manipular sozinho, ganharam popularidade nas redes sociais. Mas os especialistas são unânimes ao afirmar que o sucesso da introdução alimentar depende menos da técnica escolhida do que do respeito ao desenvolvimento da criança.
“Não existe uma receita de bolo”, resume Nathália. “Há bebês que preferem pegar a comida com as mãos logo no começo. Outros aceitam melhor uma colher. O importante é respeitar a individualidade de cada criança e oferecer oportunidades para que ela desenvolva autonomia.”
Uma das maiores preocupações das famílias nesse período é o medo do engasgo. Nathália explica, porém, que é comum confundir engasgo com o gag, um reflexo natural de proteção. “No gag, o bebê faz um movimento de náusea, pode tossir ou até parecer assustado, mas continua respirando e geralmente consegue expulsar sozinho o alimento que causou o desconforto”, explica. “O problema é que muitos adultos entram em pânico, colocam a mão na boca da criança e acabam tornando aquele momento ainda mais estressante.” Isso não significa que o risco de engasgo deva ser ignorado. Cortes adequados dos alimentos, supervisão constante e conhecimento das manobras de desobstrução das vias aéreas continuam sendo fundamentais durante todo esse período.
O que o seu filho precisa é da sua presença, você dando um bom exemplo, e uma comida de verdade sendo feita
Rachel Francischi, nutricionista e mestre em Nutrição
À medida que o bebê aprende a comer, muitas famílias acabam redescobrindo a própria alimentação. Rachel Francischi observa que esse movimento contrasta com mudanças ocorridas nas últimas décadas, marcadas pelo aumento do consumo de ultraprocessados [formulações industriais fabricadas a partir de diversas técnicas de processamento e ingredientes, muitos deles de uso exclusivamente industrial, como refrigerantes, salgadinhos “de pacote”, biscoitos recheados, macarrão instantâneo e cereais açucarados], refeições prontas e aplicativos de entrega. “Quando chega o bebê, muitas famílias voltam a frequentar feiras livres, passam a cozinhar mais e aprendem até a escolher frutas, verduras e legumes”, conta.
Depois de mais de duas décadas acompanhando esse panorama, Rachel se uniu à chef e engenheira química de alimentos Ana Federici na criação do NaCaZinha. O espaço, localizado na zona Sul de São Paulo, tem uma abordagem multidisciplinar para a culinária e nutrição. Ali são oferecidas oficinas para famílias e crianças de todas as idades, vivências na horta e uma série de atividades, sempre utilizando a comida como pano de fundo para momentos lúdicos e de aprendizado.
“Temos programas que usam a cozinha, música e artes também como ferramenta de educação. Trabalhamos nos bastidores com as famílias para entender o que precisa ser suprido de ensinamento e procuramos uma maneira de levar isso através da cozinha. Então uma criança que está na escola com dificuldade em matemática, ou com dificuldade em história, vem aqui para fazer uma aula de culinária e de repente tem aquele momento de ‘nossa, mas eu estou aprendendo isso na aula, que legal!’”, conta Ana.

Tarefa coletiva
Embora a introdução alimentar aconteça principalmente dentro de casa, seus desafios extrapolam a esfera familiar. A rotina de trabalho, a renda, o acesso a alimentos frescos, o funcionamento das creches, a existência de serviços públicos de saúde e até a infraestrutura das cidades influenciam diretamente esse processo.
“As crianças não deveriam ser responsabilidade só das famílias. E muitas famílias não deveriam ser responsabilidade apenas das mães”, afirma Tiacuã Fazendeiro, pediatra e cocriadora da Semana de Apoio à Amamentação Negra (SAAN), celebrada anualmente entre 25 e 31 de agosto. “Se entendemos que as crianças são o futuro da sociedade, precisamos construir estruturas coletivas de cuidado, incluindo a alimentação.”
A médica chama atenção para as desigualdades que encontra em seu trabalho pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Enquanto algumas famílias discutem alimentos orgânicos ou diferentes métodos de introdução alimentar, outras lidam com dificuldades muito mais básicas: ausência de água tratada, acesso limitado a frutas e verduras e predominância de alimentos ultraprocessados, muitas vezes mais disponíveis do que produtos frescos em regiões remotas do país.
Ela também defende políticas públicas que permitam ampliar o tempo de convivência entre pais e filhos nos primeiros meses de vida. “A melhor forma de conciliar amamentação e introdução alimentar seria uma licença parental mais longa. Quando os responsáveis precisam voltar ao trabalho muito cedo, tudo fica mais difícil.” Essa perspectiva amplia a discussão para além das escolhas individuais. Alimentar bem uma criança depende, sim, do empenho das famílias, mas também das condições para que esse cuidado seja possível.

“Se entendemos que as crianças são o futuro da sociedade, precisamos construir estruturas coletivas de cuidado, incluindo a alimentação”
Tiacuã Fazendeiro, pediatra e cocriadora da Semana de Apoio à Amamentação Negra (SAAN)
(foto: Nilton Fukuda)
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), gerenciado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), oferece algumas diretrizes para a alimentação das crianças em creches e escolas, como a proibição de ultraprocessados e a priorização de alimentos in natura [alimentos obtidos diretamente de plantas e animais, e que não sofreram qualquer alteração após deixar a natureza, como frutas, legumes e verduras], de preferência oriundos de agricultura familiar. Especialistas orientam que os pais busquem se informar se o PNAE é seguido pela instituição. Além da garantia de contar com alimentos ofertados num horário padronizado, o ato de comer na companhia de outras crianças, seguindo o exemplo dos colegas, também traz benefícios.
Enquanto isso, para quem prepara as refeições em casa, vale colocar uma pitada de leveza no menu. “A gente vê hoje as famílias encarando a cozinha e esse lugar de preparar a alimentação para a introdução alimentar como algo muito complexo”, analisa a chef Ana Federici. “Porque vem essa cobrança das mídias de que precisa ser o prato perfeito, precisa ter todos os grupos alimentares, precisa ser a comida sempre fresca. É no simples que a gente consegue educar e alimentar bem as crianças”, complementa.
Carla Massuia vai pelo mesmo caminho: “A sensação que tenho é que hoje existem muitas regras, algumas delas desnecessárias”. Ela reforça que não há problema em preparar a comida uma vez por semana e descongelar antes das refeições, e reconhece que exigir um prato colorido e variado todos os dias pode ser irreal. Afinal, mais vale uma mãe, um pai ou cuidador bem-disposto e conectado com a criança sentada no cadeirão, do que alguém cansado tentando empurrar a colher boca adentro. “O que o seu filho precisa é da sua presença, você dando um bom exemplo, e uma comida de verdade sendo feita”, arremata Rachel Francischi.
Conhecimentos à mesa
Sesc São Paulo realiza Do Peito ao Prato, com atividades que discutem alimentação, cuidado e desenvolvimento na primeiríssima infância

Para difundir conhecimentos sobre nutrição e introdução da alimentação complementar de crianças até 2 anos de idade, entre os dias 1º e 7 de agosto, o Sesc São Paulo realiza a 7ª edição do projeto Do Peito ao Prato, com uma programação voltada à promoção da alimentação saudável na primeiríssima infância. Em sintonia com a Semana Mundial do Aleitamento Materno, a iniciativa reúne diversas atividades em 23 unidades da capital, Grande São Paulo e interior, incluindo palestras, oficinas, rodas de conversa, vivências e exibições que abordam temas como amamentação, introdução alimentar, alimentação responsiva e fortalecimento dos vínculos familiares.
“O projeto reconhece a educação alimentar e nutricional, desde os primeiros anos de vida, como uma estratégia fundamental para promover a autonomia e o cuidado, além de favorecer o desenvolvimento de relações mais saudáveis, conscientes e prazerosas com a alimentação, cujos reflexos se estendem por toda a vida”, defende Mariana Meirelles Ruocco, gerente da Gerência de Alimentação e Segurança Alimentar do Sesc São Paulo. Acesse a programação em: sescsp.org.br/dopeitoaoprato
Confira destaques:
14 BIS
Do Peito ao Prato: primeiras colheradas
Roda de conversa, vivências sensoriais e oficina culinária. Com Rachel Francischi e Ana Federici.
Dia 1/8, sábado, 10h30 e 16h, na Área de convivência. Grátis.
GUARULHOS
Primeiros sabores que contam histórias
Com o Coletivo Cafuzas e a equipe do Banco de Leite Humano do Hospital de Guarulhos. Dias 1 e 2/8, sábado e domingo, às 14h, no Espaço de Brincar. Grátis. Entrega de senhas 30 minutos antes da atividade.
24 DE MAIO
Comer é aprender: pequenos sabores, grandes descobertas
Oficina que convida bebês a explorar alimentos enquanto cuidadores esclarecem dúvidas e refletem sobre alimentação responsiva. Dia 6/8, quinta, às 18h, na Sala do Curumim. Grátis.
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