Quem pariu Mateus que o embale

23/07/2026

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* Por Fe Lopes

— Bom dia, senhora! Queria falar com a Mãe de Mateus, ela está?

— É ela! Quem fala?

— Que história é essa que a senhora tem espalhado por aí, de que só quem pariu tem que embalar o filho?

— Minha senhora, não fui eu que…

— Olha, não se faça de cínica! Sempre tem alguém falando para uma mãe que, se ela pariu o menino, agora ela que se vire sozinha… [tu… tu… tu…] Alô? Senhora?

Todo dia alguém liga para Mãe de Mateus com essa história. Ela já fez vídeo explicando que é fake news, mas não adiantou. As pessoas estão convictas de que foi ela, e você sabe como é a internet. Uma hora ela recebe mensagens dizendo como a admiram, que mães de verdade embalam sozinhas os filhos; em outra, que as mães estão adoecendo por causa de mulheres como ela, e, para piorar, eles ainda brigam nos comentários!

A Mãe de Mateus cogitou desinstalar os aplicativos, mas por vezes essa é a única companhia quando passa a madrugada toda dando de mamar. Numa dessas noites em que Mateus mamava como se quisesse devorar o mundo, ela chorou.

“A noite com filho pequeno pode ser bem escura”, a comadre disse a ela nos primeiros dias de Mateus em casa. Era ele chorando de um lado, ela do outro, e a comadre preparando uma sopa quentinha para aquecer o peito da amiga que nutria um bebê pela primeira vez.

Foi nesses primeiros dias que a Mãe de Mateus decidiu que não o embalaria mais sozinha. E não é que não ficasse horas a fio só ela e o pequeno ao longo do dia, mas, de certa forma, ela entendeu que essa tarefa de ser pão, comida, todo amor que há na vida de alguém, é grande demais para uma pessoa só.

Por isso ela ficava triste quando alguém vinha dizer que a culpa era dela por essa mentira espalhada aos quatro cantos do mundo. Se as pessoas ouvissem com atenção a frase, saberiam que uma mãe insone, comendo comida fria pelo terceiro dia consecutivo e aguardando vaga na creche, jamais teria proferido tamanha inverdade. “Não tem lógica”, disse quando ligou para a mãe no fim de semana.

Apesar de não ter lógica, esse assunto estava deixando a Mãe de Mateus chateada. Até que, com o menino grudado no peito, decidiu chamar as amigas para pensar em como parar aquela perseguição.

Sábado, friozinho, e aos poucos as amigas foram chegando: uma com broa, outra com café, a terceira com pão de queijo, e a quarta estava atrasada porque a filha não tinha acordado da soneca. Só a Ana não veio – o pequeno estava com virose.

Colocaram a mesa e, entre um “para com isso, menino”, “vem aqui limpar esse nariz”, “não sobe na porta, garota”, elas tentavam acolher a Mãe de Mateus.

— Veja só, estão dizendo por aí que fui eu quem inventou essa história de que a mãe tem que cuidar do filho sozinha! Imaginem, logo eu? Não sei o que seria de mim com esse garoto, que come um pedaço meu de hora em hora, sem vocês, que já são mães há mais tempo e me alimentam de experiência. Sem minha mãe, que me ajudou na relactação, e até sem a sogra, que vem toda quinta lavar as roupas azedas do neto. E o André? Ele divide tudo comigo, vocês sabem. Imaginem embalar oito quilos de menino num braço só?

Joana, a amiga mãe há mais tempo da turma, disse que, quando a primeira filha chegou, acreditou nisso. Até que, em uma madrugada em que Nina estava pedindo para mamar pela oitava vez, ela, exausta, não viu uma peça de Lego no chão, pisou e caiu com a cara na mesinha lateral.

— E aí? — perguntaram as amigas.

— Ah, minha esposa veio acudir, pegou a menina enquanto eu limpava o sangue no queixo!

— Sorte que não quebrou o dente! — falou Carol, mãe dos gêmeos Bruninho e Thiago.

— Não quebrou, mas o leite ordenhado que estava na mesa foi para o lixo! Aí foi um tal de chora pra cá, chora pra lá, que a gente viu logo que não era possível secar as lágrimas da Nina ao mesmo tempo que tentava secar as nossas.

— Não tem como matar tudo no peito! — disse Antônia, mãe do Bernardo. — Sem o banco de leite do hospital do lado de casa, sem a vaga na creche, não sei o que seria da gente. E somos só nós lá em casa, vocês sabem… Teve dia que eu olhava para aquele menino chorando, meu peito rachado, a comida queimada no fogão, e pensava: quem foi que inventou que isso aqui era instinto?

As amigas riram, sabendo que já tinham derrubado muita lágrima pelo mesmo motivo. Fizeram uma chamada de vídeo com a Ana, que era jornalista e sugeriu fazer uma nota de repúdio.

— A gente precisa parar as pessoas! — Já tinha influenciadora falando do caso, e até para o trabalho da Mãe de Mateus mandaram mensagem. Perigava perder o emprego e tudo.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, Maria Eduarda contava sobre uma ligação que tinha feito dia desses:

— Chamei ela de cínica e tudo. Essa mulher não pode ficar impune, não. Quem ela pensa que é com essa história de “quem pariu que embale”?

— Madu, certeza de que ela terceiriza o cuidado do menino. Nem deve ter amamentado!

— Capaz que dê um monte de ultraprocessado para o garoto.

— Assim é fácil embalar!

— Mas, escuta: você vai amanhã ao teatro das crianças?

— Vou, sim.

— Beleza. Então vou indo. Preciso buscar a Gio na escola. Te encontro na porta amanhã.

— Combinado.

A conversa com as amigas não resolveu nada, mas acalmou o coração da Mãe de Mateus. André chegou à noite, a esposa e o filho dormiam, e ele foi lavar a louça, colocar roupa para bater e passar uma vassoura pela casa. Sentiu um nó na garganta quando lembrou que ia perder a primeira ida do filho ao teatro. A única folga da semana caiu na quarta, e não teve jeito de trocar.

Na manhã seguinte, a Mãe de Mateus colocou o pequeno no sling, ajeitou os dreads que fez antes de ele nascer – dica da Fernanda, uma mãe do grupo das pretas – e foi encontrar as amigas no metrô. Fernanda dizia que cabelo feito salvava mães negras. Foi ela também quem ensinou a Mãe de Mateus a comer antes de a fome virar tontura. “Nada de cair nessa mentira de que somos fortes, hein?!”

As amigas chegaram ao teatro mais animadas do que as crianças. Sentaram-se e, assim que subiu a cortina, Mateus se pôs a chorar!

— Poxa, filho, a gente veio de tão longe…

Tentou carinho, explicou, colocou no peito e nada. Pegou a expectativa, a mochila e o pequeno no colo, e resignou-se com um canto no sofá do lado de fora.

Ali perto estava Madu, que aparentemente também queria ver a peça mais do que a filha, uma garotinha cujo cabelo balançava quando corria.

— Ela também não quis assistir à peça?

— Foi apagar a luz e Estela começou a chorar!

— Aqui foi igual. E eu vim de longe, queria tanto assistir, quer dizer, mostrar para ele…

Enquanto os filhos brincavam, elas se puseram a falar da vida, das crianças, trocaram receitas, reclamaram da sogra, do chefe, comentaram das dificuldades com a amamentação, agradeceram por terem o mamá quando uma virose nova aparece, dividiram uvas e pomada para assadura. Quando perceberam, as pessoas já estavam até saindo do teatro.

— Você veio sozinha? — perguntou Madu.

— Não, menina! Vim com minhas amigas. Esse negócio de carregar filho sozinha o tempo todo não dá certo, não. Aliás, desculpa, o papo estava tão bom que nem me apresentei! Prazer, eu sou a Mãe de Mateus. E você?

Depois daquele dia, a Mãe de Mateus não soube explicar como, mas o fato é que nunca mais apareceram mensagens ou telefonemas tentando incluir mais uma culpa na conta de uma mãe.

Fe Lopes é psicóloga e psicanalista, palestrante, escritora e cocriadora da Semana de Apoio à Amamentação Negra.


Leia mais sobre alimentação na primeiríssima infância na publicação abaixo:

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