Instrumentos globais de uma música (cada vez mais) nordestina

08/04/2026

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Caio Wallerstein é jornalista e mestre em Música e Sociedade pela UFPE. Pernambucano do Recife, baterista da banda Guma. Animador cultural do Sesc Bom Retiro.

Ilustrações por bárbara carneiro

O glamour com o meu sofrimento
É a estrela de horário nobre
A história de um povo pobre
Ditada por quem me devia
 […] 
No Nordeste tem falta de aporte
Mas excesso de cultura e raiz
Eu viajo por esse país
Em um flow retirante high tech
Monocromo na cor da minha veste
Pra palavra ser força motriz 

 Os versos acima são cantados na música “Balacobaco”, single do álbum O Mundo Dá Voltas, mais recente do BaianaSystem e vencedor do Grammy Latino 2025 na categoria Melhor Álbum de Rock/Música Alternativa em Língua Portuguesa. Ainda que a premiação aponte para um gênero musical cuja sonoridade é facilmente identificável — o rock —, o disco do BaianaSystem reflete as múltiplas musicalidades e mensagens do grupo, que resiste a caracterizações da crítica: rap e trap, música afro-brasileira, pagode baiano, reggae e dancehall convivem no caldeirão da música eletrônica, nordestina e global, conduzida pela guitarra baiana de Roberto Barreto. 

Videoclipe da música “Balacobaco”, de BaianaSystem

A profusão de artistas que colaboram com o grupo em O Mundo Dá Voltas também faz ver essa multiplicidade: Emicida, Pitty, Seu Jorge e Gilberto Gil são alguns dos nomes que participam do disco, que tem produção musical de Daniel Ganjaman e SekoBass. Quem encerra a canção “Balacobaco”, com os versos escritos no início deste texto, rimados à guisa de uma declamação de poesia popular ou de literatura de cordel, é Alice Carvalho, atriz de grande sucesso recente, alcançado por atuações marcantes no seriado Cangaço Novo (Amazon Prime Video), nas novelas Renascer e Guerreiros do Sol (Rede Globo) e no filme O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça Filho, ganhador de diversas premiações no Festival de Cannes 2025 e destaque nas cerimônias do Globo de Ouro e do Oscar em 2026. 

Nas rimas junto ao BaianaSystem, a atriz potiguar denuncia um suposto apagamento das potências culturais e econômicas do Nordeste — ao qual o povo nordestino, dotado de uma cultura forte e “de raiz”, resiste como um Robin Hood do Agreste. Na mesma canção, ela divide os vocais com Russo Passapusso e Anitta. É interessante enxergar, nas rimas entoadas por Carvalho, uma crítica a certa espetacularização do sofrimento do nordestino, que é colocado como um produto para entretenimento de outros públicos — ainda segundo os versos da canção, os mesmos públicos responsáveis por esse sofrimento. 

Exaltar um Nordeste sertanejo supostamente alijado do progresso da nação, rico em tradições culturais e dono de um povo sofrido, mas batalhador, é uma prática já bastante corriqueira na música popular. O pernambucano Luiz Gonzaga, em “A Triste Partida”, lamenta uma migração inevitável do nordestino para São Paulo, com o fim de escapar da seca e da miséria. Fagner e Mastruz com Leite, para citar dois cearenses, também trazem em algumas músicas a descrição do nordestino como um povo forte, batalhador e castigado. Além deles, muitos foram os artistas que fizeram coro às queixas de desvalorização da região diante do desenho territorial, cultural e político do Brasil. 

Vídeo da música Raízes do Nordeste, de Mastruz com Leite

O trecho de Alice Carvalho traz um componente a mais, porém: além de fazê-lo em uma canção repleta de referências à música internacional, com beats eletrônicos, distorções de guitarra e samples de música eletrônica, ela o fez enquanto dividia os vocais com uma das cantoras brasileiras de maior repercussão no mundo, no disco de uma banda que coleciona aparições de destaque na mídia nacional e internacional e desponta como um dos grupos mais criativos da música brasileira. Afinal, o que há de curioso no fato de a mensagem de Alice Carvalho ser colocada nessas condições de circulação? 

A combinação de elementos musicais e líricos para compor um relato que seja, ao mesmo tempo, local e global, é uma corrente em voga na música feita por artistas oriundos do Nordeste há alguns anos, com contornos especialmente interessantes desde os anos 2010 — com a popularização do acesso às ferramentas de produção musical digitalizadas, de samplers e sintetizadores a softwares de produção musical caseira. Assim, os instrumentos e as tendências da música global são utilizados, de maneira que soa paradoxal, para manifestar a localidade. 

Um interessante exemplo desse fenômeno é o que alguns críticos e jornalistas têm chamado de rap-repente. Esse nome nada tem a ver com a música homônima lançada por Daniela Mercury em 1994, cuja letra relaciona São Paulo a concreto, Rio a samba e sorrisos e Bahia a alegria, pobreza e pirraça – estereótipos enxergados não apenas em outras obras da música popular, mas em peças de mídia e da cultura de massa. Aqui, trata-se de um conjunto de artistas cujos trabalhos transitam entre elementos dos gêneros da cultura popular tradicional do Nordeste (como o baião, o maracatu e o coco de roda) e dos gêneros da música eletrônica globalizada, sendo o principal deles o rap

RAPadura Xique-Chico — nome mais didático sobre a empreitada musical, impossível — é um deles. As letras do artista cearense, segundo descrição na página oficial do Spotify, falam de temas como “seca, agricultor, mulher rendeira”, além de trazer reflexões sobre a cidade e a urbanização. Por volta de 2010, Rapadura viralizou com suas rimas envenenadas na canção “Norte Nordeste Me Veste”, um rap cuja batida do boom bap se soma a letras que convocam os nordestinos a abraçarem as matrizes culturais de seus próprios territórios, contra uma espécie de colonização sudestina dos costumes. A urbanização também é criticada, vista como um movimento que apaga a memória dos territórios onde surgiram as cidades. No disco Fita Embolada do Engenho, de 2019, samples de sanfona convivem com versos rimados sobre maracatu e batidas compostas por bumbos e claps eletrônicos tocando células rítmicas associadas ao coco. 

Música Fita Embolada de Engenho, de Rapadura

Antes de Rapadura, grupos como o Faces do Subúrbio já uniam repente e embolada à linguagem do rap. A mistura do grupo formado pelos MCs Tiger e Zé Brown — indicado ao Grammy Latino em 2001 na categoria Melhor Álbum de Rap com seu segundo álbum, Como é Triste de Olhar — integrou, ainda que com menor visibilidade, o conjunto de artistas antropofágicos do Recife que regionalizaram a música global nos anos 1990 com o movimento Manguebeat. 

A novidade surgida na esteira do sucesso de “Norte Nordeste Me Veste”, de Rapadura, representou um trato diferente com os elementos sonoros da música regional, proporcionado pelas novas tecnologias. O sampleamento de motivosregionais traz recombinações e remixagens refinadas, somadas a sobreposições de instrumentos e vozes e efeitos como delays e distorções; as letras, por sua vez, se também reforçam ideias cristalizadas sobre aquilo que compõe a identidade nordestina (como a resiliência, a pobreza e a vocação pela poesia), caminham ao mesmo tempo para a construção de novos significados sobre a nordestinidade. 

Duas artistas identificadas com o rap-repente — ou seja, que trazem em suas músicas releituras do coco de roda e do repente em uma linguagem que ao mesmo tempo é identificada com o rap e a música eletrônica — também propõem a ressignificação do que se costuma entender por nordestinidade. 

Videoclipe de Guerreira de Lança, de Luana Flores

Em Guerreira de Lança, single lançado em 2019, a DJ, cantora e percussionista Luana Flores caminha emulando um grupo de cangaceiros com uma girl gang formada por outras artistas, como Luísa Nascim (hoje LEOA e antiga vocalista do grupo Luísa e os Alquimistas), Negrita MC e Saskia. No videoclipe da música, o grupo percorre um mercado público de João Pessoa — cidade-natal de Luana —, a própria definição de multiculturalidade e cruzamento entre elementos regionais e globais: no local, barracas de CDs e DVDs falsificados estão ladeadas por lojas que vendem plantas, temperos, bebidas, brinquedos, aparelhos eletrônicos, entre outros produtos. 

Estudiosos da multiculturalidade, como o argentino Nestor García Canclini, acreditam que já não é possível descrever as grandes cidades de maneira linear. O cruzamento de referências nacionais/mundiais, locais/globais, tradicionais/modernas resultam em culturas híbridas que resistem a uma definição estática sobre suas características. Parece ser esse o caminho trilhado pela música de Flores e outras artistas com trajetórias similares — a rapper e coquista Jéssica Caitano, natural de Triunfo, no sertão pernambucano, é outra cujo trabalho desperta sensações semelhantes. 

Exaltando o cangaço, fenômeno social predominantemente masculino, Luana Flores propõe em sua música uma nova leitura do movimento, que, se não perde de vista seu aspecto machista, enfatiza principalmente seu caráter de resistência (no caso da sua música, a resistência de mulheres que não aceitam o lugar na sociedade que o patriarcado lhes reserva). Aqui, ser cangaceira é lutar contra ditames sociais que enquadram e reduzem as mulheres. 

A nordestinidade da música de Luana Flores não é expressa apenas pela letra, mas pela batida, uma espécie de trap em que o hi-hat clássico das baterias eletrônicas, como a 808, é substituído por um empilhamento de samples de ganzás e triângulos. Uma mistura sonora que demanda, por parte de seus criadores, domínio dos gêneros da música nordestina e, ao mesmo tempo, familiaridade com as células musicais do rap e do trap. Está feito o rap-repente, uma combinação instável de elementos musicais, sonoros (já que também trabalha com sons extramusicais, como sinos de boi, samples de orações e ditados populares) e líricos. 

Se ser nordestino é carregar um histórico de luta e resistência, valorizar a arte e a tradição mesmo em condições hostis — como diversos artistas e movimentos musicais da região já expuseram em suas canções —, é também viver em grandes cidades, onde se misturam mensagens da mídia internacional, vídeos de tiktok e influências musicais de diferentes lugares do mundo. Neste contexto, rodar o mundo como a retirante high tech Alice Carvalho, em uma música cantada junto com Anitta e premiada no Grammy, é tão nordestino quanto vestir-se de cangaceira em uma feira na Paraíba, como Luana Flores e seu grupo de guerreiras de lança.  

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