
Por Vivian Malusá *
Na década passada, fui à França para fazer um mestrado em valorização de acervos audiovisuais e cinematográficos. Ali, em meio a efervescência de mostras, pesquisas e debates empenhados em reescrever a história do cinema sob perspectivas mais plurais, surgiu uma questão perturbadora: por que eu, pesquisadora versada em história do cinema, até então não conhecia propriamente Alice Guy-Blaché? A partir desse momento, esta figura tornou-se para mim objeto de contínuo interesse intelectual e pessoal.
Nascida na França em 1873, e tendo passado a infância do Chile, Alice Guy iniciou sua trajetória profissional na empresa cinematográfica Gaumont no final do século XIX. No início de 1895, aos 21 anos e então secretária de Léon Gaumont, assistiu a uma demonstração privada do cinematógrafo dos irmãos Lumière. Poucos meses depois, tendo anuência de seu patrão para fazer experimentações com o novo aparato técnico, realizou La Fée aux Choux (1896), considerado um dos primeiros filmes narrativos da história. Desde o início, ela havia compreendido que o cinema poderia não apenas registrar o mundo – como preconizavam os Lumière -, mas inventá-lo.
Na Gaumont, tornou-se chefe de produção e dirigiu centenas de filmes até 1907. Contribuiu para a criação de formas narrativas, para a organização do trabalho no set e para o desenvolvimento da direção de atores num período ainda marcado pela herança teatral. Realizou “vistas” e registros do cotidiano, mas também explorou comédia, melodrama, fantasia e sátira social – entre essas obras, destaca-se As Consequências do Feminismo (Les résultats du féminisme, 1906), sátira que inverte papéis de gênero e expõe, com humor, as estruturas de poder de sua época. Foi pioneira também no campo técnico, dirigindo phonoscènes, produções sincronizadas ao sistema Chronophone, da Gaumont, uma das primeiras investigações sistemáticas sobre a articulação entre som e imagem.
Em 1907, Guy mudou-se para os Estados Unidos. Em 1910, com dois filhos pequenos, fundou a Solax Studios em sociedade com seu marido Herbert Blaché – também profissional da área -, assumindo funções de direção, roteiro, produção e administração. Instalado em Fort Lee (New Jersey), na costa leste, então polo estratégico do cinema americano, seu estúdio tornou-se uma das companhias independentes mais ativas do período. Ali dirigiu obras como A Fool and His Money (1912), com elenco majoritariamente negro, e defendeu uma estética de interpretações mais naturais sob o lema “Be Natural”. Tornou-se uma das primeiras mulheres a comandar um grande e muito produtivo estúdio cinematográfico.
Até 1922, Alice Guy-Blaché realizou mais de mil filmes, mas nesse mesmo ano, retornou a Paris separada e com seu estúdio falido. O desfecho não se explica por uma derrocada individual, mas por uma transformação profunda na estrutura do cinema que ela própria ajudara a consolidar. A partir da segunda metade da década de 1910, o centro da produção norte-americana deslocou-se definitivamente para Hollywood, onde se estruturava um modelo industrial cada vez mais concentrado e verticalizado. Companhias como a Paramount Pictures e a Universal Pictures passaram a controlar produção, distribuição e exibição, tornando a sobrevivência de estúdios independentes progressivamente inviável.
A Solax Studios, fundada num momento ainda marcado pela experimentação e pela fluidez empresarial, viu-se pressionada por dívidas, concorrência desigual e reorganizações administrativas internas – alguns registros históricos indicam que Herbert Blaché havia traído a esposa, o que contribuiu para a dissolução do seu casamento e da sociedade. Além disso, o fim da segunda guerra havia reconfigurado mercados, os custos aumentaram e o cinema deixava de ser um campo relativamente aberto a iniciativas pioneiras para tornar-se um negócio de alto investimento e forte concentração de capital.
Nesse novo cenário, a diretora-empresária que prosperara na fase inventiva do cinema foi progressivamente deslocada por uma lógica corporativa que estreitava espaços — principalmente para as mulheres — nas posições de comando. Enquanto Blaché se muda para a Califórnia, Guy retorna à França, onde tampouco encontraria condições favoráveis de reinserção, já que o cinema francês do pós-guerra estava economicamente fragilizado e progressivamente subordinado ao modelo industrial hollywoodiano. Assim, mais uma vez, seu retorno inscreve-se menos como derrota pessoal e mais como sintoma de uma indústria que, ao se consolidar, redefiniu também quem podia permanecer no centro dela.
Neste momento, o fantasma do apagamento já se aproximava: alguns de seus filmes passariam a ser atribuídos a homens e sua autoria seria progressivamente diluída. A atribuição errônea não decorreu apenas da fragilidade dos créditos no período, mas de uma lógica historiográfica mais ampla que não atingiu apenas esta diretora. Outras pioneiras, como Lois Weber e Germaine Dulac, tiveram suas contribuições rebaixadas ou absorvidas pela narrativa dominante dos estúdios e de seus dirigentes masculinos. Ao organizar a origem do cinema como história de “pais fundadores”, a tradição consagrou figuras como D. W. Griffith como marcos quase exclusivos da consolidação da linguagem narrativa, concentrando neles inovações que foram, na realidade, experimentadas de forma plural. O apagamento, assim, não foi apenas material, mas simbólico — inscrito nas próprias formas de contar a história do cinema.
Alice Guy, porém, não aceitou o silêncio e passou décadas reivindicando reconhecimento, escrevendo cartas, concedendo entrevistas e registrando sua trajetória na obra Autobiographie d’une pionnière du cinéma, publicada como livro em 1953 e gesto maior de afirmação autoral e de resistência contra seu próprio apagamento. Pouco tempo depois deste lançamento, ela recebeu do governo francês a medalha da Legião de Honra, reconhecimento oficial tardio e pontual, que contrastava com décadas de invisibilidade.
Sua redescoberta acadêmica, em finais do século XX e início do XXI, nos lembra que a história do cinema não é neutra nem linear: é construída por escolhas, exclusões e disputas de poder. A crescente visibilidade de Alice Guy a partir dos anos 2000 resulta de um amplo movimento de revisão historiográfica, impulsionado pela consolidação dos estudos de gênero, pela crítica ao cânone tradicional do cinema — que havia privilegiado cineastas masculinos—, pelo trabalho de preservação feito por cinematecas e arquivos audiovisuais – e, parte deste, a digitalização das obras -, que permitiu reexaminar filmografias e atribuições autorais. Debates recentes sobre representatividade no audiovisual reforçaram esse processo, ampliando o interesse público e acadêmico e consolidando sua reinserção na narrativa histórica. Ainda assim, sua presença nas bibliografias e nos currículos de cursos de cinema permanece tímida, evidenciando que o silenciamento histórico deixa marcas duradouras.
Mesmo na França — um dos panteões da história do cinema e ainda hoje sede da Gaumont, a empresa de cinema mais antiga do mundo ainda em atividade — a presença de Alice Guy entre os nomes centrais da cinematografia francesa e mundial, embora tenha aumentado muito nos últimos anos, permanece discreta. Em setembro de 2021, o Museu Méliès (Musée Méliès, La Magie du Cinéma), da Cinemateca Francesa, substituiu o antigo Museu do Cinema, no mesmo espaço. Ainda que dedicado ao artista e cineasta Georges Méliès, amplamente celebrado como “pai do cinema de ficção e da fantasia”, o museu propõe um percurso histórico mais amplo do desenvolvimento cinematográfico, com alguns destaques pontuais. Se antes da remodelação e ampliação do acervo, não havia qualquer menção a Alice Guy na exposição permanente, a partir de 2021, ela passa a figurar, mas de maneira ainda modesta: algumas fotografias — entre elas uma em que aparece com a filha pequena diante do estúdio de vidro da Solax em construção — e imagens em movimento que a mostram dirigindo e operando a gravação de uma phonoscène. Trata-se de um avanço simbólico, sem dúvida. Mas a sensação persiste: ainda há muito a ser revelado sobre Guy — documentos, registros, imagens, vestígios de uma vasta obra. Por quê sentimos isso? Essas imagens existiram? Por que não estão acessíveis? Perderam-se? Foram destruídas? Ou continuam à espera de um olhar que as reconheça como parte essencial da história do cinema?
Observar Alice Guy em planos detalhes é revelar aquilo que permaneceu durante muito tempo no negativo da história. Não se trata apenas de reparar uma injustiça, mas de reconhecer que existem outra(s) possível(is) origem(ns) do cinema narrativo — nesta versão da história que tentou-se apagar, a ficção, a encenação e a organização dramática das imagens foram pensadas, sistematizadas e desenvolvidas por uma mulher. Há uma frase atribuída a ela, que “não há nada na realização de um filme que uma mulher não possa fazer tão facilmente quanto um homem.” Antes que o cinema se consolidasse como indústria e antes que a narrativa se tornasse sua linguagem dominante, Guy já experimentava personagens, conflitos, inversões sociais e estruturas dramáticas. Rever sua trajetória e seus filmes não amplia apenas sua biografia: amplia a própria compreensão sobre como o cinema aprendeu a contar histórias.
*Vivian Malusá é pesquisadora, produtora e preservadora audiovisual, mestre em Multimeios – História e Teorias pela Unicamp e mestre em Cinema – Valorização de Arquivos Cinematográficos e Audiovisuais pela Université Paris 8, com mobilidade acadêmica na Universidade de Bolonha. Supervisiona o Serviço de Acervo e Distribuição da TV Senado e atuou na coordenação de acesso e difusão da Cinemateca Brasileira, onde produziu e coordenou mostras e festivais. Trabalhou ainda na Cinemateca Francesa e na produção do festival Il Cinema Ritrovato. Participou do programa Courants du Monde, do Ministério da Cultura da França, e do programa Frame Advanced Access, promovido pelo Institut National de l’Audiovisuel (INA) e pela Federação Internacional de Arquivos de Televisão (FIAT/IFTA). Atua como curadora de mostras e festivais, desenvolvendo projetos ligados ao patrimônio audiovisual e à difusão cinematográfica, além de ministrar cursos e oficinas de história do cinema e acesso a acervos, com ênfase em mulheres pioneiras do cinema.
E dias 25 e 27/3 irá ministrar o curso Alice Guy-Blaché e a invenção do cinema narrativo aqui no CineSesc.
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