Sesc Consolação reativa estúdio de música no centro de São Paulo
24/06/2026
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Por: Beatriz Ueda
No coração de São Paulo, um segredo bem guardado pelos corredores do Sesc Consolação está ganhando vida nova. Pouca gente sabe, mas a unidade abriga um estúdio de música desde a década de 1990. Após anos sendo utilizado de forma tímida e pontual, servindo mais para oficinas rápidas do que para gravações, o espaço agora ganha nova vida com o curso de produção musical ministrado por Malka Julieta.
Foto: Mayara Dias
Malka é um dos nomes mais potentes da produção musical brasileira e acumula duas décadas de experiência. No currículo, ela traz colaborações de peso com artistas consagrados da música, como Céu, Marina Lima, Jup do Bairro, Badsista, Tulipa Ruiz e Mateus Aleluia. Agora, a produtora assume a missão de tirar o maquinário analógico da inércia e democratizar o conhecimento técnico para novos talentos no centro da capital paulista.
Quatro décadas de história e pioneirismo comunitário
Para compreender a importância desse estúdio, é preciso voltar no tempo. Bob Souza, professor de contrabaixo, violão e práticas instrumentais, trabalha no Sesc Consolação desde 2002 e reconstrói a linha do tempo desse espaço pioneiro, que começou muito antes da chegada dos computadores:
“O centro de música começou com uma orquestra de cordas. O professor Alberto Jafet, que foi um violinista e educador bem importante no Brasil, começou esse projeto aqui em 1978. Então, você vê que os violoncelos, os violinos, os contrabaixos e as violas que temos aqui são dessa data. O curso de cordas é um curso que nunca parou totalmente, ele sempre existiu desde a criação.”
Foto: Mariana Souza
Bob explica que o espaço foi se expandindo com cursos de canto e coral, seguidos pelas aulas de violão. Mas foi na década de 1990 que uma grande reformulação transformou o local no Centro Experimental de Música, dando origem ao icônico estúdio:
“O estúdio veio daí, justamente por uma demanda de novas tecnologias que estavam aparecendo. O nosso estúdio foi um dos primeiros estúdios comunitários, que já dispunha de tecnologias de mídias de gravação, gravadores ADAT, que eram gravações digitais, e uso dos computadores Macintosh, que também eram novidades da Apple na época. Fomos um dos primeiros a disponibilizar isso para o uso cotidiano de pessoas comuns, não no nível de grandes empresas. A partir desse período, foram criados alguns projetos de gravações e cursos também.”
Compreender o analógico para transformar o digital
Apesar de o estúdio ter nascido na vanguarda tecnológica dos anos 90, o acesso à produção musical mudou drasticamente. Atualmente, a música tem sido feita diretamente através de computadores, abrindo novas e valiosas possibilidades para democratizar o acesso àqueles que não têm a facilidade de frequentar um estúdio tradicional. No entanto, é justamente na fusão entre o clássico e o moderno que reside o grande diferencial deste projeto.
Giuliana Lavorato, animadora cultural responsável pela programação do Centro de Música do Sesc Consolação, comenta sobre o impacto de ter conhecido Malka e como a visão da produtora se alinha com a proposta do espaço:
“Conhecendo ela, eu entendi que ela tinha um outro olhar para essa questão do analógico e que me agradou muito. Ouvindo ela falar, é de realmente entender as possibilidades do analógico. Compreendendo essas tecnologias as pessoas podem criar de uma outra forma digitalmente na casa dela.”
“O antigo é bom para a música”
Foto: divulgação
Embora para olhos leigos o maquinário possa parecer ultrapassado, no universo da música e da engenharia de som, o equipamento analógico clássico é artigo de luxo e sinônimo de alta fidelidade e calor sonoro.
Malka ressalta que, muitas vezes, há um abismo de percepção entre o setor administrativo e o musical sobre o real valor dessa estrutura:
“Quando a gente fala, vai, vamos dizer, do administrativo pro musical, a pessoa não tem muita ideia dos equipamentos que tem, o que dá para ser feito. Então precisa de alguém com um certo conhecimento técnico para dizer isso. E às vezes eu ouço: ‘Ah, mas o que tem lá é muito antigo’, mas não, o antigo é bom pra música. Os equipamentos mais antigos são melhores. Então aqui a gente tem um equipamento completo, desde equalizadores, compressores, mesa de som, até os monitores aqui clássicos.”
O estúdio que cansou de ficar parado
A ideia de movimentar esse estúdio histórico começou a desenhar-se a partir de um convite de Bárbara Iris, gerente adjunta do Sesc. Malka relembra que o primeiro contato com o local revelou um potencial gigante, mas que não era aproveitado por inteiro:
“Já é uma vontade que vem há um tempo. Logo quando a Bárbara Iris chegou no Sesc Consolação, já faz um tempinho (…), ela falou: ‘Nossa, tem um centro de música bem legal lá, vamos conhecer’. Cheguei, vim dar uma olhada, na época ainda tinha o coral Vozes Trans, e a gente veio ver, e ela falou: ‘Tem esse estúdio aqui, mas ele meio parado. Pessoal faz atividades, mas não grava em si’. E sempre ficou aquela coisa no ar.
O reencontro recente transformou o desejo antigo em projeto prático. Para Malka, ver uma estrutura daquela qualidade sem uso era um desperdício que precisava ser corrigido.
“E aí a gente se encontrou, ela falou: ‘Vamos botar pra frente essa coisa de reativar o estúdio?’. Eu falei: ‘Claro! É só jogar na minha mão’, que é o tipo de coisa que eu gosto de fazer. (…) Eu odeio ver uma coisa parada que as pessoas podiam estar usando. Que elas podiam estar colocando a mão para fazer algo, sabe? Eu acho que a gente não pode ter um equipamento que fique parado. A gente precisa fazer com que as coisas funcionem para que as pessoas possam aproveitar daquilo. Então surgiu esse convite.”
Fique de olho: Inscrições abertas para o 2º semestre
Se você quer fazer parte dessa história, as oportunidades vão muito além da produção musical. O Centro de Música do Sesc Consolação abrirá em breve as inscrições para diversos outros cursos regulares do segundo semestre. Fique de olho na página https://www.sescsp.org.br/projetos/centro-de-musica/
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