Teatro em formação

01/06/2026

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Fundador da companhia Os Satyros e diretor da SP Escola Superior de Teatro, Ivam Cabral cria novos enredos para vidas e espaços a partir da arte

Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

POR ALEXANDRE RAITH
FOTOS NILTON FUKUDA

A história do ator, dramaturgo e diretor de teatro Ivam Cabral começa longe dos palcos, no interior do Paraná. Filho de um pedreiro e de uma costureira, ele cresceu cercado por uma educação afetiva. Sem televisão, a mãe reunia os seis filhos todas as noites para ler autores como Machado de Assis (1839-1908), José de Alencar (1829-1877) e Cecília Meirelles (1901-1964), formando ali a base de uma sensibilidade artística.

A infância em contato direto com a natureza também deixou marcas. Um olhar que ele mesmo diz que poderia tê-lo levado à biologia. No entanto, o início da vida adulta seguiu outra direção. Estudou Administração e trabalhou na Bolsa de Valores, no Paraná, em um percurso que prometia estabilidade e ascensão. Mas, na busca pela expressão, decidiu romper com o previsível e apostar no teatro, universo que experimentou ainda pequeno, na igreja da cidade.

Já em São Paulo, no fim dos anos 1980, o encontro com o colega de profissão Rodolfo Garcia Vásquez foi decisivo. Unidos por inquietações e referências filosóficas, especialmente o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), os dois compartilhavam o desejo de romper com o teatro dominante da época, segundo ele, centrado na figura do diretor. Queriam algo mais “dionisíaco”. Dessa afinidade, nasceu, em 1989, a Cia. de Teatro Os Satyros, com a qual viajou para participar de festivais em dezenas de países.

A experiência internacional contribuiu para o nascimento da ideia de fincar os pés em outras terras. A dupla acreditava que, naquele momento, o Brasil oferecia poucas condições para a pesquisa teatral e a experimentação. O grupo encontrou no exterior o espaço para se desenvolver e aprender. A trajetória itinerante consolidou uma identidade artística marcada pela provocação e pela busca constante por novas formas de expressão.

De volta ao Brasil, decidiram se instalar na Praça Roosevelt, região central de São Paulo que, à época, era conhecida pela degradação e abandono. As peças do Satyros trouxeram o público de volta ao local, o que ajudou na ressignificação do espaço urbano. Junto ao poder público e a chegada de outras companhias de teatro, o grupo ajudou a tornar a praça um dos polos culturais da cidade.

Cabral idealizou junto a autoridades e pensadores da arte e da educação o modelo pedagógico da SP Escola de Teatro, da qual é diretor-executivo. Com a proposta de inovar o ensino das artes cênicas, o programa da escola é não hierárquico, não cumulativo e modular. Inaugurada em 2010, a instituição recebeu neste ano o aval do Ministério da Educação para se tornar faculdade. A agora SP Escola Superior de Teatro, uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo sob gestão da Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap), oferece gratuitamente oito cursos técnicos e mais de 20 de extensão cultural nas áreas de atuação, sonoplastia, cenografia, figurino, iluminação, entre outras.

Nesta Entrevista, Ivam Cabral relembra vivências da infância e o que motivou a criação de uma das companhias teatrais mais premiadas do país, e explica o modelo pedagógico da SP Escola Superior de Teatro. Também mostra como a arte e a educação podem impactar tanto a vida das pessoas como o espaço urbano.

Como sua infância em Ribeirão Claro (PR) influenciou a sua sensibilidade artística e como o teatro entrou na sua vida?
Sou filho de um pedreiro, que não sabia ler nem escrever, e de uma costureira, que fez até a quarta série. Sou o quinto de seis filhos. Era um ambiente muito pobre. A gente comia o que colhia, o que plantava. Tínhamos uma relação muito forte com a natureza. Brinco que, se pudesse voltar no tempo, talvez fosse para a biologia. Era uma educação bastante humanista. A minha mãe adorava ler e na minha casa não tinha TV. Tinha leituras toda noite, antes de dormir. Lemos muito Machado de Assis, José de Alencar, José Mauro de Vasconcelos (1920-1984), Cecília Meirelles. Minha mãe foi nos educando para ocupar um lugar no mundo. Eles diziam ‘educação ninguém tira de vocês, então a gente vai ter que investir nisso. Todos têm que ir para universidade’. Cresci sabendo que sairia da minha cidade, que é muito pequenina, tem 10 mil habitantes hoje. Antes do teatro, fui fazer Administração de empresas. Aos 20 anos, cheguei a operar na Bolsa de Valores do Paraná. No último ano do curso, dei um basta e fui para o teatro. Mas fazia uma ponte com a minha infância, quando tinham essas leituras e morava a 100 metros da igreja, de onde saíam encenações que sempre comemoravam alguma coisa. As leituras em casa e essa ligação com a igreja me despertaram o desejo de fazer teatro e viver de teatro.

Como foi o processo de criação da Cia. de Teatro Os Satyros em 1989, junto com Rodolfo Garcia Vásquez?
Terminei o curso de Teatro em 1988 e já no dia 13 de fevereiro de 1989 estava em São Paulo para tentar uma vida aqui. Imaginava que ia ser muito difícil ter um grupo, atuar como ator. Então, fui para a pós-graduação da ECA [Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo] tentar mestrado, fazer doutorado, enfim, dar aula. Meu sonho era ter um grupo que fosse fundamental para a história do teatro brasileiro, que entrasse na história. Conheci o Rodolfo na ECA, ele fazia mestrado em Sociologia. Ele procurava um ator para uma peça que ia dirigir, e a gente se conheceu assim. O que nos ligou era que estávamos lendo A origem da tragédia, de Nietzsche, e pensando no dionisíaco no teatro. Tinha que ter a embriaguez, o vinho, a deformação. Foi querendo criar um movimento que a gente decidiu fazer Os Satyros.

Por que vocês decidiram se mudar para a Europa após a criação da Cia.?
Buscava um exílio voluntário. Era um Brasil que não tinha Ministério da Cultura. Não existia um teatro de pesquisa. Existiam os teatrões, os grandes astros da televisão que montavam suas peças e saíam viajando pelo Brasil, nesses teatros de cortinas vermelhas de veludo. Na história do teatro paulistano, a maioria dos grupos surge exatamente quando a gente surge, no começo dos anos 1990, como o Vertigem, Folias d’Arte, Latão. Começamos a receber convites de festivais e teatros do mundo. Fazíamos duas peças nesse período, Sades ou noites com os professores imorais e Saló, Salomé. Esses dois espetáculos abriram portas para o mundo. Os Satyros é bem andarilho, atuou em talvez 39 países.

Em mais de 30 anos de atividade, como a estética e a linguagem teatral d’Os Satyros se transformaram?
Foi se sofisticando. Naquele início, em 1989, tentando buscar esse elemento dionisíaco, houve algo até infantil de imaginar que essa embriaguez viria só com corpos nus. Não é exatamente isso. Fui fazer mestrado, doutorado e estou fazendo pós-doc. Nesse âmbito de tentar trocar, de tentar somar com outras culturas, com outras possibilidades.

Quais trabalhos você considera como a grande virada do grupo e da sua visão das artes cênicas? 
Esses dois espetáculos que citei [Sades ou noites com os professores imorais e Saló, Salomé]. O dionisíaco em cena vinha com nudez, com atrevimento, com vontade de denunciar, de falar sobre o tempo em que a gente estava vivendo, recém-saído da ditadura. De profundis é um espetáculo que está na nossa chegada à Praça Roosevelt, no começo dos anos 2000. Depois, teve Hipóteses para o amor e a verdade, quando introduzimos tecnologia na nossa pesquisa, em 2009. Roberto Zucco, de 2010, também é um grande sucesso. Pessoas perfeitas, de 2014, ganhou todos os prêmios naquele ano. E tem o momento que trabalhamos na pandemia, com o mundo inteirinho em modo virtual.

Ivam Cabral, na SP Escola Superior de Teatro, que oferece cursos técnicos e mais de 20 de extensão cultural nas áreas de atuação, sonoplastia, cenografia, figurino, iluminação, entre outras.

Como foi instalar Os Satyros na Praça Roosevelt?
A gente fez tudo que você possa imaginar. Foi bem difícil, teve que brigar com muita gente. Mas a gente sabia o que queria com esse projeto. Não chegou aqui desavisado. Chegou sabendo que era uma das regiões mais violentas da cidade de São Paulo e chegou com a incumbência de modificar isso. Sabia que o teatro poderia fazer isso. Me lembro que a gente fez um plano de negócios para Os Satyros em 2000, já com a certeza de que em 2005 mudaria tudo. No final de 2001, já tínhamos mudado tudo. Tinha público, uma história acontecendo aqui. As Satyrianas [maratona cultural com apresentações gratuitas de teatro, dança, circo, performance, cinema e literatura], que existem na praça desde 2001, também são um organismo importante. É o momento em que a gente traz todo mundo para a Praça Roosevelt, desde um ator famoso até um grupo da zona Leste que está começando uma história. E é importante dizer que não há o heroísmo do Satyros como protagonista. Surgiu um movimento Praça Roosevelt. Vários outros grupos se aproximaram desse trabalho.

Como você vê o papel da formação em teatro frente às novas tecnologias e plataformas digitais?
A gente está pensando bastante nisso. Em 2009, quando o celular chegou às plateias do teatro e nós, artistas, começamos a ficar muito nervosos com isso, decidimos liberar o uso do celular nas nossas peças. Até hoje, para quem quiser atender o celular, não há problema algum. Me sinto desrespeitado, sim, mas tenho que começar a conviver. Em 2009, no espetáculo Hipóteses para o amor e a verdade, a gente conversava com o público por meio desses torpedos no celular e criou uma dramaturgia com isso. Incorporou a tecnologia à cena.

Como surgiu a ideia de criar a SP Escola de Teatro e quais foram os principais desafios até ela se tornar realidade em 2010?
A história é curiosa. Se pudesse elencar os responsáveis por terem feito todas as pontes e conexões, diria Gilberto Dimenstein (1956-2020) e Contardo Calligaris (1948-2021). Gilberto escreveu um livro chamado O mistério das bolas de gude, em que contava experiências de transformação artística em cidades em que ele havia morado e a experiência dos Satyros na Praça Roosevelt é um desses exemplos – e foi na mesma praça o local do lançamento do livro. A gente fazia um trabalho voluntário no Jardim Pantanal, chegamos a ter uma sede lá. E esses meninos e meninas começaram a trabalhar no Satyros, desde bilheteria, limpeza, operação de som, de luz. No dia do lançamento do livro do Gilberto Dimenstein, a gente trabalhou com esses meninos e essas meninas do Jardim Pantanal. E o [José] Serra [prefeito da cidade de São Paulo à época] ficou curioso em saber quem éramos. Ele era amigo do Gilberto Dimenstein e do Contardo e propôs a criação da SP Escola de Teatro. Foi um processo muito lento, com cinco anos de estruturação. A gente criou uma escola progressista, que nasce da periferia, nessa ideia do Jardim Pantanal. É surpreendente que tenha construído esse espaço de muita liberdade para poder falar sobre as coisas do contemporâneo. Por meio do contemporâneo, a gente busca a tradição, não o contrário.

O que caracteriza o ensino da escola e qual é a diferença em relação a outras instituições?
Em meados de 2000, ainda havia grade, disciplina, delegacia de ensino, inspetora. Isso tudo te lembra alguma coisa? É uma educação estruturada essencialmente a partir de uma estrutura militar. Quando criamos a escola, optamos por trabalhar com outra nomenclatura. Disciplina viraria componente, grade viraria matriz. Sou freiriano, não acho que vou lhe ensinar nada se não estiver em uma corrente de aprender com você. Nosso modelo pedagógico não trabalha com a ideia de acumulação. Um semestre tem começo, meio e fim. São completamente independentes um do outro, e cada módulo vai mostrar alguma linguagem do teatro. Não é hierárquico, além de não ser acumulativo. Somos 200 estudantes por turno, e são oito linhas de estudo.

E quais os ganhos para o projeto com sua transformação para SP Escola Superior de Teatro?
Importante voltarmos ao tema da internacionalização desses projetos. A primeira universidade com que a gente fez contato é a de Estocolmo, a Uniarts, a escola que formou Greta Garbo (1905-1990). A gente prestou consultoria e eles implantaram um modelo inspirado em muito do que fazemos na SP. Depois, fizemos contato com instituições da Islândia, Finlândia, Alemanha e África do Sul. São parceiros criativos. Junto com o Brasil, esses quatro países vão criar um programa de mestrado com duração de dois anos. Os estudantes de cada um dos países passarão até seis meses em cada um deles. Já fizemos 340 intercâmbios. Nossa escola é uma torre de babel. Tudo isso fez com que a gente chegasse ao curso superior com vantagem, com facilidade, porque foi tentando entender os territórios onde podíamos nos abrigar e os modelos que nos inspiravam. É impossível hoje não tentar buscar uma identidade sua, seja singular ou política, em um mundo que está em transformação. A história precisa ser revista. Se você não ressignificar isso, nada vai acontecer. 

Me lembro que a gente fez um plano de negócios para o Satyros em 2000, quando teria certeza de que em 2005 mudaria tudo. No final de 2001, tudo já tinha mudado. Tinha público, uma história acontecendo aqui.

A escola é administrada pela Associação dos Artistas Amigos da Praça (Adaap). Como essa atuação associativa contribui para a formação cultural na cidade de São Paulo? 
Acho muito importante, porque não sei se São Paulo precisava de mais uma escola de teatro, mas acho que o Brasil precisa da SP Escola Superior de Teatro, por várias razões. A gente continua sendo os únicos a ter formação em cenário, figurino, iluminação, sonoplastia, técnicas de palco, dramaturgia. Imagina um país que não tem cursos de dramaturgia, com um crescimento absurdo dos streamings? É óbvio que a gente vai impactando mercados de trabalho.

Quais são os seus planos e as perspectivas para a SP Escola Superior de Teatro? 
Gostaria muito que começássemos brevemente a trabalhar com mestrado e doutorado. São campos do conhecimento que precisam ser estudados, desenhados, reestruturados. É a segunda escola que a gente cria. A gente criou a MT Escola de Teatro, no Mato Grosso, a partir de consultoria. Estruturou lá uma escola que existe desde 2017. A gente não acha que a educação deva ser negociada, mas tem vontade de fazer isso em outros estados. 80% dos nossos estudantes saem empregados. É bonito ver que existe um mercado que absorve esses profissionais. O Brasil é um país de mais de 210 milhões de pessoas. Tem uma imensidão de potencial e de possibilidades que têm que ser trabalhada. 

O que você diria para as novas gerações de alunos da escola? 
A gente sempre imagina o pior para nós. Me lembro quando eu tinha 20 anos, jamais imaginaria que poderia encontrar um lugar, um espaço no teatro. Achava que eu fosse viver até os 40, parece que não vai dar tempo. E de repente dá tempo. E de repente você pode e consegue fazer e transformar os teus sonhos em coisas reais. E isso também vai mediando a questão da dificuldade. Tenho falado para muitos estudantes: “vai ser tão interessante conversar com você daqui a 10 anos, daqui a 20 anos”. Sei que metade de toda a angústia que esse estudante está vivendo eu também vivi. Também achava que não tinha saída. Mas acho que a arte se reinventa sempre, ela nos coloca em contato, principalmente, com as dificuldades. Por isso, tem que vencer essas etapas, e não queimá-las. É muito importante vencer isso. 

Assista a trechos da Entrevista com o dramaturgo e diretor Ivam Cabral, realizada na SP Escola Superior de Teatro, em março de 2026.

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